03 novembro 2006

A ti

Toda a palavra é inútil
quando perdida
noutros lábios
quando dispensada
a outros sentidos.

Todo o gesto é fútil
quando gasto
noutros braços
quando dirigido
a outras mãos.

Todo o poema é possível
neste todo indizível
que me cala
sempre o dedico
a ti.

(Pintura de George Mendoza: kaleidoscope eyes)

Alternativa?

Não percebo muito bem o interesse jornalístico de uma grande entrevista a Alberto João Jardim. De facto, não temos muitos programas humorísticos, mas Alberto João Jardim não tem mesmo graça nenhuma.

Também não entendo muito bem qual o objectivo político de Marques Mendes ao dar cobertura às diatribes de Presidente do Governo Regional da Madeira. Ou da factura dos “cocktails”, ou da colagem aos que contestam a Ministra da Educação.

Tal é a falta de ideias e de alternativas.

02 novembro 2006

Fim de tarde


Ao fim da tarde
misturados os despojos
barcos de cascas sem nozes
tapetes de folhas secas
junto aplicadamente
as palavras em desuso.

Ao fim da tarde
ajeito nos ombros a chuva
e desato pacientemente
os nós do dia.

Memória

Quando chegava à entrada da vila, procurava uma bata branca vestida por um velhote ligeiramente curvado, com uma coroa de cabelos, do lado de fora da porta verde da Farmácia Nacional, e uma velhota baixa, com bata e carrapito, que espreitava pela porta entreaberta da sua casa. Mal podia conter a alegria que queria soltar-se da garganta, ao correr para aqueles velhos, que de ano para ano encolhiam, embranqueciam, mas sempre a esperavam.

Depois era o cheiro da casa, o frio da sala, a braseira, os lençóis gelados, o tabuleiro de manhã, na cama, o café com leite demasiado doce, o pão com queijo, o creme da cara endurecido, que mal se espalhava, a água gelada da torneira que se misturava com a água a escaldar da cafeteira, as pedras da escada do quintal, o poço, o galinheiro, as mulheres embrulhadas em mantas com os olhos pequeninos que levavam os nomes de remédios inexistentes em fragmentos de papel, escritos com lápis, numa letra tremida no esforço da aplicação, o chão de azulejo branco sujo de lama, os frascos e os boiões alinhados nos armários de madeira branca.

Depois era o sempre eterno chá antes de ir para a cama, as canecas individualizadas com cenas campestres compradas nas feiras, os biscoitos de azeite, o leite creme com açúcar queimado.

Mesmo agora, no dia em que se decretou que se lembrassem os mortos, como se os mortos não estivessem entranhados em todas as pequenas fibras das casa em que viveram, das ruas que palmilharam, dos vivos que tocaram, parece-lhe ainda ouvir aquelas vozes, ao abrir a porta verde, mesmo em frente à escada que subia quatro a quatro, para dentro da sua infância.


(pintura de David Miller)

Enquanto

Enquanto o maior partido da oposição fizer o seu trabalho desta forma, José Sócrates pode estar descansado à sua direita.

Enquanto o BE permanecer órfão de causas fracturantes e o PCP continua a lutar num país imaginário por um mundo virtual, José Sócrates pode estar descansado, também à sua esquerda.

Restam os seus companheiros que aguardam, na sombra, a altura da queda do chefe. Então iremos assistir ao repasto, e para quem se guarda o melhor bocado.

30 outubro 2006

Socialismos

José Sócrates está feliz com os 97,2% de votação na sua pessoa. Eu não ficaria tanto. Uma eleição ganha à partida não me parece motivo de regozijo. Um congresso que se anuncia um coro de sim senhores ao seu governo, ainda me parece menos satisfatório.

Onde estão os democratas socialistas que não gostam das medidas do governo? Apenas ouvi dizer que Correia de Campos vai propor uma discussão sectorial sobre política de saúde.

E os outros sectores, estão todos satisfeitos?

Não há debate interno nem externo. Mas a responsabilidade é de todos. E muito particularmente dos militantes socialistas.

Anacronismos

Há dias em que o optimismo é um exercício totalmente impossível.

Continuamos a ouvir manifestações contra as aulas de substituição (medida que alguns professores boicotam ao “entreter” alunos com jogos e outras inutilidades, em vez de desenvolverem o tão falado trabalho educativo), promessas de luta a medidas que pretendem colocar os professores nas escolas, o seu local de trabalho, em tempo de férias lectivas (Natal, Carnaval, Páscoa e Verão), para desenvolverem trabalho que não seja apenas o de leccionar.

Ouvimos clamar contra o novo estatuto da carreira docente, pela impossibilidade de todos os professores, maus, bons ou assim-assim, chegarem ao topo da carreira e pela necessidade (oh, horror!) de avaliações para progressão.

A Frente Comum dos Sindicatos da Função Pública convocou uma greve de 2 dias porque (...) O Governo não pode continuar a atacar impunemente as condições de vida e de trabalho e a dignidade dos trabalhadores, para favorecer os grandes grupos económico-financeiros! (…) Para que isto assim seja, o Governo PS/Sócrates tem que tirar poder de compra aos trabalhadores e aos reformados, tem de acabar com direitos sociais, degradar a Segurança Social e os Serviços Públicos e entregar as partes rentáveis ao grande capital, tal como exigiu a irmandade do Compromisso do Beato, em propostas que a CGTP não hesitou em classificar de terroristas. (…) Os objectivos nefastos do Governo manifestam-se em todas as áreas da Administração Pública (…) Na Justiça, com um ataque aos Tribunais e às independência das Magistraturas e dificultando, quando não impossibilitando, a acesso à justiça aos mais desfavorecidos; (…) Nas Autarquias Locais, com a limitação ou a retirada de autonomia do poder local democrático.(...) (destaques meus).

Os sindicatos, ao contrário do que é a sua obrigação, transformam num ridículo absoluto as verdadeiras e justificadas apreensões de quem trabalha.

Não é deste sindicalismo que necessitamos.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...