28 outubro 2006

Relacionamentos

Os relacionamentos humanos são habitualmente pautados pela constância, fidelidade e lealdade. Biologicamente, o equilíbrio é sempre o objectivo, e a manutenção de um estado basal de felicidade, controlado e alimentado pelas substâncias químicas que nos regulam, é condição necessária para uma expressão benigna de emoções.

Por isso os seres humanos tendem a manter as relações, seja com os membros da família, com os companheiros amorosos, colegas de trabalho, seja com entidades mais vagas e de contornos mais difíceis de definir como empresas ou o seu país.

Mesmo que ao longo do tempo a relação sofra revezes, todos tentam, por acção mas mais por omissão, regressar ao equilíbrio desejado. O problema é a existência de memória e de imaginação.

Quando os acontecimentos são repetidos, quando o desequilíbrio é sempre num determinado sentido, há uma exaustão das hormonas da felicidade, que reduzem a tolerância à agressão e reduzem a capacidade de imaginar soluções alternativas.

Se neste quadro de fundo, houver uma súbita lesão somativa, mesmo que, em absoluto, ela seja negligenciável, pode resultar na aniquilação da relação, da qual só se sai em rotura.

As últimas sondagens, como afirma Tiago Barbosa Ribeiro no seu post, não me parecem reflectir ainda o tal desequilíbrio resultante de agressões constantes e repetitivas, a que o corpo do país tem sido submetido durante esta governação.

Mas é bom que o governo cuide da sua relação com o povo. Porque pode suceder que, quando se der conta, as glândulas já não tenham nada para segregar e qualquer pequena traição redunde em divórcio litigioso.

25 outubro 2006

Janelas

Caminho devagar
sustendo a respiração
sustendo o corpo
nos ruídos das pedras.
O dia já não espera
e a noite enlutada
chora gota a gota
as letras do teu nome
uma senha de luz e de cor
que tarda em madrugar.

Caminho devagar
e paro a todas as portas
que se erguem
blindadas e surdas
aos meus passos.
E a noite arrepiada
sacode o teu nome
como senha para abrir
as janelas que me faltam.


(pintura de Toni Carlton: windows of time)

24 outubro 2006

Vou




Vou

Vou
quase até onde não sei
e paro
fim donde comecei.

(poema de José Craveirinha)

Credores e devedores



É verdade que os bancos, apesar do aumento da percentagem de crédito malparado, continuam a ter lucros fantásticos e que, se investem o que investem em publicidade ao crédito, para férias, para telemóveis, televisores, sofás, computadores, automóveis e casa, é porque o que perdem é irrisório em relação ao que ganham.

É verdade que a violência, seja ela de que tipo for, que algumas empresas de cobranças difíceis utilizam para “incentivar” a liquidação de dívidas, à banca ou a outros agentes que emprestam dinheiro a juros, é totalmente inaceitável.

Mas também me parece estranho que quem contrai empréstimos e deixa de os pagar não recorra a todos os meios possíveis e a todas as ajudas existentes para pagar as suas dívidas. Dá-me a sensação de que se reteve a mensagem de que não faz mal gastar mais dinheiro do que o que se tem, de que é obrigatório consumir determinado tipo de coisas, de que não é necessário estabelecer prioridades, pois pode sempre pagar-se a partir do próximo ano, sem juros, ou ter à disposição imediata 3000€, para não ter que se optar entre a mobília nova e as férias na Tailândia.

Na verdade, quando falamos de Estado, esquecemos que o Estado é uma entidade colectiva, formada por todos os cidadãos.

(o anúncio do Joe Berardo é absolutamente repugnante!)

Questionemos

Escapam-me a relevância de alguns temas que escolhidos como para notícia desenvolvida e com direito a muitas páginas de jornais.

No Público de Domingo vinha um extenso trabalho jornalístico, de Kathleen Gomes (Foram ustedes que falaram em unión? – link não disponível) sobre o facto de um grande número de espanhóis (cerca de 40%) e de um menor número de portugueses (cerca de 25%) suspirarem pela união dos dois países.

Sugiro humildemente que o próximo tema a tratar seja a discussão do regime político: monarquia ou república? Parece-me tão importante como a inclusão de Portugal em Espanha.

22 outubro 2006

Aos amigos

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

(poema de Herberto Hélder; pintura de Jo Derbyshire: fire)

21 outubro 2006

"As mulheres da minha vida"


Fui ver a peça As mulheres da minha vida, de Neil Simon, encenada por Daniel Filho e protagonizada por António Fagundes.

É uma peça sobre a relação entre um homem, escritor de sucesso, e as mulheres da sua vida, mãe, irmã, esposas, filha e psicanalista, sobre a dificuldade da intimidade e a incapacidade de se expor emocionalmente, sobre a realidade do imaginário e a ficção da vida real.

Os actores cumpriram, mas não entusiasmaram. O som não estava grande coisa, o cenário era frio, pouco envolvente. Não fiquei particularmente agradada.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...