09 outubro 2006

Dilúvio


No sé si por maldad o por olvido
no fui llamada al arca. El fin del mundo
duró cuarenta días y cuarenta
noches. Pero alguien hizo con sus manos
la dulce balsa que evitó mi muerte.


(poema de Amalia Bautista: gravura de Gustave Doré: dilúvio)

Procurador-Geral Pinto Monteiro



Ouvi, de forma intermitente, o curto discurso de tomada de posse do novo Procurador-Geral da República.

No país da maravilhosas leis e da fuga para a frente, quando não parece haver soluções fáceis, ouvir um indivíduo com esta responsabilidade dizer que o essencial é aplicar as leis, levanta a moral e aviva a esperança.

Outro aspecto que me agradou enormemente foi a responsabilização de toda a sociedade na luta contra a corrupção:

  • (…) em cada povo e em cada época tem que existir aquele mínimo de valores éticos a respeitar, e subjacentes à feitura e aceitação das leis (...)
  • (…) é fundamental a criação de um juízo de censura, de um desejo de punibilidade existente na consciência moral do homem médio, que por isso deve ser sensibilizado para o problema (…)
  • (…) não havendo essa consciência moral e a certeza de que todos serão tratados de igual forma, existindo antes a convicção de que todos se governam e de que a corrupção é um mal menor e inevitável, os esforços contra a corrupção serão sempre votados ao fracasso (…)


Finalmente temos outro Procurador-Geral da República. Desejo-lhe a ele, e a nós, muitas felicidades.

08 outubro 2006

Smile

Smile



Smile though your heart is aching

Smile even though its breaking

When there are clouds in the sky, youll get by

If you smile through your fear and sorrow

Smile and maybe tomorrow

Youll see the sun come shining through for you



Light up your face with gladness

Hide every trace of sadness

Although a tear may be ever so near

Thats the time you must keep on trying

Smile, whats the use of crying?

Youll find that life is still worthwhile

If you just smile



Thats the time you must keep on trying

Smile, whats the use of crying?

Youll find that life is still worthwhile

If you just smile





(Madeleine Peyroux: Half the perfect world)

Dia de ninho


Dia de chá
mantas e livros,
de pantufas
biscoitos e cama.

Dia de modorra
e de carinho,
de fim de festa,
de descanso.

Dia de ninho.


(pintura de Marty Walsh: Tea and Toast)

Pedreiros Livres


Por diversas vezes, e sempre que não se consegue justificar a nomeação de uma certa personagem para um determinado cargo, para o qual é lendariamente conhecida a sua incompetência, ou se há uma aura de pessoa intocável, quando se comentam pecados e pecadilhos, verdadeiros ou falsos, ou quando se pretende desacreditar alguém, não existindo quaisquer razões para tal, mesmo que esse alguém seja sobejamente apreciado pelas suas qualidades, sejam de que tipo forem, murmura-se, põe-se a correr, ou exclama-se com evidência – pertence à Maçonaria!

Segundo Mário Mesquita ("Conspirações ao correr da pena", no Público) e a Câmara Corporativa, parece que o director do SOL se juntou aos clarividentes reveladores de evidências, ligando a Maçonaria ao processo Casa Pia, o que para justificar, nem que seja remotamente, a inexcedível e vergonhosa trapalhada do processo, sob a responsabilidade de Souto Moura, é altamente engenhoso, de um equilibrismo e de uma falta de noção do ridículo notáveis, mas pouco original, convenhamos!

Anna Politkovskaia

PORQUE

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


(poema de Sophia de Mello Breyner Andresen; fotografia de Anna Politkovskaia)

07 outubro 2006

Uma pequeníssima nota


Não percebo porque é que tanta gente achou o discurso de Cavaco Silva sobre a corrupção TÃO importante, TÃO abre espaço ao governo de Sócrates, que TANTO agrega vontades, oh que bom que há tantos motivos de consenso na sociedade portuguesa.

Após um PACTO de justiça, patrocinado pelo mesmo Presidente, em que se não falava da dita corrupção, eis senão que se lhe dá um rebate na alma e vai de clamar contra esse veneno da democracia.

E, saído dos escombros do esquecimento, sai João Cravinho de espada em riste e leis preparadas para a nossa assembleia aprovar e, depois, ignorar.

Tal como se ignoravam olimpicamente os mesmos discursos anti corrupção do anterior Presidente Jorge Sampaio.

Porque é que é tão importante realçar a maravilhosa e sã convivência entre Sócrates e Cavaco?

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...