
Com uma rara elegância de linguagem, mas de uma arguta e melancólica realidade, a narradora discorre sobre os seus pensamentos, que dissecam as fibras sentimentais do desencontro que foi a sua vida, toda ela na esperança de que um dia se realize no entendimento daquele que lhe suspendeu a existência.
É um livro agridoce, muito bem escrito, de uma aparente simplicidade, em que se espelha o intrincado mundo de amores e ódios, coragem e abnegação, mentiras e desespero, que nos deixa presos às páginas e ao mesmo tempo numa leve e funda tristeza.
Já “As velas ardem até ao fim” tem uma estrutura narrativa semelhante, com poucos diálogos, em que parece estarmos inseridos na cabeça do narrador e, ao transformarmo-nos nele, sentimos e vivemos os seus percursos, lembramos e somos lúcidos depois de uma longa e intemporal auto análise, de examinarmos e reexaminarmos todos os cambiantes do que foi marcante, mesmo que, na altura, não o tenhamos sentido como tal.
Autor húngaro, que se opôs ao nazismo e ao comunismo, deambulou pela Europa e acabou por se fixar nos Estados Unidos, suicidou-se com 89 anos, só e esquecido. Que eu saiba, em português, só estão traduzidos estes dois livros. É pena. Gostaria que houvesse mais.
(Estátua de Sándor Márai em Košice, Slovakia)



