12 julho 2006

Reduziram-se a quatro...

Alguém me saberá explicar porquê o prazo de 5 semanas pedido pelo governo (Sócrates) para o anúncio do fecho da Opel da Azambuja? Qual era a brilhante ideia??? Que por artes mágicas (ou do futebol) as pessoas se esquecessem de mais 1500 desempregados?

Arte


Que nos move, segundo após segundo, compassadamente, rítmica e repetidamente, em direcção ao fim? Que nos motiva, o que há no instante posterior ao de agora, de diferente, de melhor? Que pensamos poder alcançar?

Ou estamos programados, como máquinas cujo fim se desconhece, para ir metabolizando proteínas, gastando e produzindo energia, com efeitos, para nós, desconhecidos?

Que agrupamento de funções fazem com que olhemos e chamemos nomes às coisas, que conjunção de esforços para que transformemos as coisas em utensílios indispensáveis?

Que novas sinapses, que tipo de neurotransmissores, que quantidade de endorfinas fabricamos com a percepção dos outros, ou que os outros fazem estimular em nós a segregação?

Porque aceitamos a decadência progressiva das células, o embranquecimento do cabelo, os partos, a dor dos filhos que crescem, o abandono, o amor, as perdas somativas e inconsequentes e, mesmo assim, todos os dias abrimos os olhos e reiniciamos a indústria de sobreviver?

Que regeneração se opera nos músculos, que ciclo respiratório se mobiliza instantaneamente ao ouvir uma sequência de sons, ao absorver uma paleta de cores, ao viver vidas emprestadas, ao ler sentimentos inventados?

Será a arte que nos faz, uma e outra vez, e sempre, continuar? Em direcção ao absoluto, ao supremo prazer da beleza?

Entrevista (II)

Falou-se ainda da pintura no feminino. Embora seja muito politicamente correcto falar das diferenças entre o masculino e o feminino na política, na arte, no exercício do poder, habitualmente formas artificiais de se realçarem aspectos mais ou menos positivos, consoante o que interessa, não tenho dúvidas que homens e mulheres são diferentes e que por isso têm maneiras diferentes de se exprimirem.

Biologicamente as mulheres têm menos velocidade de ponta, mas têm mais resistência. Culturalmente sempre foram obrigadas a cumprir as tarefas de manutenção da vida, como nascer e ajudar a nascer, dar de comer, amamentando e providenciando a alimentação da família, tratar da casa, das roupas, dos afectos, dos homens, do velhos, compreender, abraçar, suster, amortalhar. Aprenderam a ser meigas e duras, generosas e avarentas, a seduzir, a usar, a dar. Para as mulheres a vida é feita de coisas palpáveis, porque é a elas que se pedem contas dos usos terrenos, dos corpos.

Como Ana Sousa Dias dizia, a vida, na pintura de Graça Morais assim como na de Paula Rego, não é só bonita, com flores e borboletas. É crua, agressiva, violenta.

Foi um gosto conhecer mais um bocadinho de Graça Morais.


(pintura de Graça Morais: Maria)

Entrevista (I)


Assisti ontem, na RTP2, a uma entrevista feita pela Ana Sousa Dias, naquele seu jeito manso e intimista, a Graça Morais, de que gostei imenso.

Graça Morais, com o seu sotaque, os seus cabelos brancos em carrapito, os seus lábios vermelhos e as suas mãos esvoaçantes, sem artifícios, como ela própria se define, é de uma claridade e de uma simplicidade exemplares.

Para os nossos estereótipos do que é uma artista, nomeadamente uma artista plástica, o pragmatismo, misturado com uma sabedoria de gente autêntica, da terra, talhada na pedra, como as mulheres ancestrais, nomeadamente a sua mãe, com quem ela se confunde nos retratos que faz, são um bálsamo e um orgulho.

Dizia ela, a certa altura, que pinta porque precisa, que pinta o que conhece, o que sabe, o que sente. Pergunto-me se, de facto, podemos conhecer os artistas, pintores, músicos, poetas, romancistas, por exemplo, por aquilo que produzem, pela sua faceta criadora.

Pergunto-me se os artistas não se transformam, se não há uma parcela de loucura, se não há outras pessoas, outros seres, outras almas dentro de uma mesma pessoa, e se a expressão de todas essas criaturas, tantas vezes conflituosas, não será a expressão da arte criadora, o retrato de tantas vidas sobrepostas e misturadas.
(pintura de Graça Morais: visitação)

11 julho 2006

Chuva de Verão


Gosto do cheiro a terra que se desprende das gotas de chuva, daquele arrepio fugaz quando se encontra o ar a refrescar, como se o céu precisasse de um pranto que lhe aliviasse a dor.

Caminhos de fim de tarde, mais um dia que se arrumou, no arquivos da nossa vida. Este ainda não tem assunto ou campo de pesquisa, ainda está à espera de catalogação.

Hoje não foram precisos óculos escuros. O sol gozou folga.

A Madeira é um Jardim

O Herdeiro de Aecio tirou-me as palavras da boca, ou melhor dizendo, os dedos do teclado!

Como sei


Amo-te com as mãos
com a boca com os olhos.

Amo-te como só eu
cansada livre imensa.

Amo-te como louca
como posso como quero.

Amo-te demasiado bem
demasiado pouco.

Amo-te como sempre
como sei como vivo.


(pintura de Chagall: lovers)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...