24 junho 2006

Blogar


A possibilidade de ir expondo, não se sabe bem a quem, opiniões e estados de alma sobre os mais diversos assuntos, transforma os blogues num manancial de estudo para sociologistas e psicanalistas.

Mas uma coisa que não consigo compreender é a falta de urbanidade de alguns bloguistas, que se envolvem em polémicas irritadas, trocando argumentos em linguagem pouco edificante, em que os temas apresentados se esquecem de imediato, ficando apenas espaço para insultos e insinuações desagradáveis.

Também as caixas de comentários são, para mim, um mistério. A propósito de um “post” aparecem comentários, a maior parte deles de anónimos, que não têm nada a ver com o tema do "post", nem para concordar nem para discordar, dizendo "coisas" e comentando outros comentaristas, a maioria das vezes sem graça e de uma forma grosseira, multiplicando-se e reproduzindo-se em catadupa.

Simultaneamente, estes jornais de parede efémeros, rápidos e superficiais, compilam o que de mais generoso temos e o que de pior somos capazes.


(pintura de Vincent Bennett: reading the news)

O tempo



O tempo corre apagando aplicadamente as pegadas da dor, os ruídos graves, os obscuros tijolos com que construímos muros. A névoa adensa-se e sobram apenas alguns sinais luminosos, que nos guiam teimosamente para diante.


(pintura de Picciotto: time)

22 junho 2006

Explicação (possível)


Essa mulher alaga
os olhos de azul
despegando-se por dentro
da praia que a despe.

Essa mulher enrola
as pernas na areia,
entrançando cócegas
e murmúrios de solidão.

Essa mulher esquece
no sol a vida que veste,
no mar os sonhos que tem.



(pintura de Lez Niepo: on the beach)

Untitled


Mulher na praia

Muitas vezes me tenho perguntado
quem será esta mulher só
que todas as tardes chega à praia
e, sentada sob a sombrinha,
fica olhando o mar.

Talvez busque no azul
resposta para a solidão.

Terá sido criança, amou e foi amada,
mas é claro que sobre isso não sei nada.


(poema de Torquato da Luz; pintura de Torquato da Luz)

Outra vez Timor

Todo este assunto de Timor Leste cada vez mais deixa transparecer que o grande problema está na luta pelo poder de dois protagonistas: Xanana Gusmão e Mari Alkatiri. A Austrália ou aproveitou a situação, ou acicatou os dois chefes, tentando tirar proveito da situação.

Xanana Gusmão sai muito mal de tudo isto. Não se percebe como é que um presidente pede por carta, que entretanto divulga, a demissão do primeiro-ministro, porque deixa de ter confiança nele, na sequência de uma reportagem efectuada por jornalistas australianos, que implica Alkatiri na organização de grupos ilegais armados, ameaçando-o de ser demitido. Depois, em vez de o demitir (pelos vistos não pode) ameaça que se demite ele próprio. A esposa de Xanana Gusmão dá entrevistas a meios de comunicação australianos (sempre) falando da situação política em Timor e antecipando as atitudes do seu marido, como se a mulher do presidente tivesse alguma função de porta-voz, conselheira, ou outra coisa qualquer, da presidência.

De facto, se Mari Alkatiri mantiver a confiança do seu partido maioritário, como parece que mantém, como sair deste impasse, que o próprio presidente criou?

É surrealista!

A verdade é que parece que Xanana Gusmão está a contar com a Austrália para dominar Mari Alkatiri.

Se não é verdade…

Soma e segue...


Lá ganhámos ao México, um tanto ou quanto esforçadamente! Deu gosto ver jogar o Brasil. O Ronaldo pode estar um boi, mas é um boi muito talentoso!

20 junho 2006

Toque a reunir (II)

Não deixa de ser interessante a forma como o Diário de Notícias trata as mesmas notícias. O que, para o Público é realçado, no DN é dito prazenteira e maciamente, com uma ternura e uma ligeireza, que nos deixa a pensar que o relatório tem uns pequeníssimos reparos a fazer ao ministério. Segundo o Público, quase que se adivinha um pedido de demissão do ministro!

Relativamente ao combate às listas de espera para cirurgias, começa por ser hilariante a designação dos programas: PECLEC e SIGIC. Confesso que já soube o que significavam as siglas mas já me esqueci. Antes de mais, as listas de espera cirúrgicas são irrelevantes. O que é obrigatório contabilizar é o tempo de espera para cada tipo de cirurgia. Além disso, para que as listas de espera sejam reais, tem que haver um registo centralizado de doentes à espera de cirurgia, sendo descarregados os que, entretanto, vão sendo operados, no serviço nacional de saúde ou nos serviços privados, e os que não querem (ou não podem) ser operados.

Nunca percebi bem a filosofia que justificava o pagamento, pelo estado, aos funcionários, do estado, para fazerem, no estado, aquilo que não havia condições de conseguir, no estado. Ou seja, hospitais com um número de cirurgiões específico que não conseguem operar todos os seus doentes, em tempo útil, vão receber dinheiro por operar esses mesmos doentes, nesses mesmos hospitais, nos mesmos blocos operatórios, apenas em horas extra.

Se há horas de bloco não utilizadas, talvez a solução seja rentabilizar os blocos com os cirurgiões, anestesistas, enfermeiros, rentabilizando os recursos humanos (trabalho por turnos, por exemplo). Talvez não fosse má ideia comparar a produtividade nas horas em que se operam SIGIC com a produtividade nas horas normais, para o mesmo tipo de cirurgia, bem entendido.

É como o extraordinário caso do pagamento de horas extraordinárias: um médico A vai fazer horas extraordinárias ao serviço B do hospital B, por vezes pagas a preço de ouro, porque esse hospital B não paga horas a mais aos seus próprios funcionários. Por outro lado, o médico B do serviço B do Hospital B vai fazer horas extraordinárias ao serviço A do Hospital A onde o médico A trabalha, pelo mesmíssimo motivo!

Tudo isto é muito extraordinário, e um exemplo de como NÃO se devem gerir os parcos recursos existentes.

Sou total e completamente a favor da exclusividade para os funcionários de um hospital, que devem trabalhar lá todo o dia, rentabilizando os serviços e os blocos, aumentando a produtividade, o número de cirurgias, etc.

Falarmos todos com um ar sério e preocupado do serviço nacional de saúde, da “diabolização” das profissões liberais, dos doentes, coitados, do preço dos medicamentos, que horror, produzirmos relatórios e cartas abertas, soa a hipocrisia e a cinismo. Há problemas para resolver que não são irresolúveis, mesmo que muitos o queiram fazer parecer!

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...