06 junho 2006

Seis do Seis de dois mil e Seis


Exactamente!

Se há dias de tudo e mais alguma coisa, o dia do Diabo, Besta, Satã, e todos os outros, por maioria de razão, está perfeitamente bem!

Belo dia para diabolicamente saborear o prazer satânico de preguiçar.


(pintura de William Blake: The Number of the Beast is 666)

Correntes

E que tal uma corrente de e-mails contra mais uma greve entre um feriado e o fim de semana? E que tal uma corrente de sms a favor da verdadeira discussão da verdadeira avaliação dos verdadeiros profissionais?

E que tal uma corrente de indignação pelos péssimos manuais escolares? E um cartaz gigantesco em frente à residência oficial do 1º ministro contra os currricula infantilizados e imbecis? E uma marcha contra a violência nas escolas? E uma marotana a favor dos exames nacionais?

Contemplação

Já estava preparada para me levantar, como é meu hábito e vício, maquinalmente rodar a chave da ignição e começar o dia.

Quando o bafo do ar se entranhou no meu corpo, as pedras da calçada levantaram-se e impediram passos inconscientes.

Luziu-me a espera e os dedos repousaram: descanso, preciso de contemplação.

Pontuação

Para quem lê, a pontuação funciona como sinais de trânsito, avisando paragens, respirações, perguntas e admirações, pausas, sorrisos ou suspensões. Serve a liberdade de quem escreve mas limita a liberdade de quem lê.

De certa forma, se a poesia for encarada como uma expressão ligeiramente anárquica do pensamento, que estimule a associação livre de palavras e ideias, a falta de pontuação pode perder o leitor, mas pode tatuar-lhe melhor o poema, visto que se cola à verdadeira medida da sua pele.

Interdependência

Dizem-me que o contraste entre a minha fúria e a minha quieta e contemplativa poesia é estranha. Penso muitas vezes que somos várias pessoas, umas dentro das outras, em camadas concêntricas, com canais comunicantes, vasos e nervos, para uma nutrição partilhada.

Por vezes há adormecimentos focais, raramente permanentes, comas superficiais e estados catatónicos.

Nem sempre é fácil conviver com esta comunidade de interdependências.

Pedra


A pedra é uma pedra porque lhe chamamos pedra,
a existência é, porque a nomeamos,
as palavras são a realidade.

Somos uma espécie de suspensão da natureza,
pendentes entre o concreto e a forma como o destacamos.

Organicamente podemos compreender a alma,
se a dissermos passamos a ser parte dela.


(pintura de Ian Gray: Islay Stones)

05 junho 2006

Quietude


Havemos de encontrar
dias de gotas azuis
espadas de gelo derretido,

havemos de saborear
palavras dóceis
doces como um veneno,

havemos de correr
os dedos pelo trigo
duma mansa quietude,

havemos de nos amar
consumidos de virtude
no vício de procurar.



(pintura de Almada Negreiros)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...