20 maio 2006

Meditemos


Há dias em que não devíamos ler os jornais, nem ouvir notícias radiofónicas.

Às vezes a santa ignorância é uma bênção. Poderíamos manter algumas ilusões e crenças inocentes.

Providências cautelares, escolas que se decide fechar, irmanar, concentrar, depois já não se irmana nem se concentra, mas fecha-se na mesma (jornal "Público" de hoje, pág. 52). Ninguém sabe porquê, quais as razões de uma ou de outra coisa.

Depois de todo este tempo de urgência, Souto Moura vem revelar que só não concluiu a investigação sobre o caso “envelope 9” porque ainda não pôde investigar os computadores dos jornalistas do “24 horas”. Mas já sabe que a PT e os jornalistas são os culpados. E vem dizer isto para o Expresso!

Marques Mendes torna a fazer demagogia com o assunto maternidades e Manuela Ferreira Leite aplaude o que criticou.

Enfim, vou ver se fecho para meditação transcendental.

À espera de Godot

Confesso que não me lembrava bem da peça de Samuel Beckett. Já a tinha visto há muito tempo, na televisão, e tinha-me ficado na memória qualquer coisa interessante e vagamente ininteligível.

O Teatro Meridional, mais uma vez, superou as minhas expectativas. Um palco minimalista, um excelente jogo de luzes e interpretações extraordinárias de Miguel Seabra (Estragon), João Pedro Vaz (Vladimir), Pedro Gil (Lucky) e António Fonseca (Pozzo), com destaque para os três primeiros.

De tal forma bons que conseguiram manter a plateia atenta até ao fim.

Relativamente à peça em si, ao texto, à estrutura narrativa, aos tempos, foi difícil aguentar-me estoicamente, porque os achei longos, mastigados, entediantes.

O texto é um intrincado aparentemente desconexo sobre a inexorabilidade e omnipresença do tempo, a inutilidade de fugir da teia universal que nos obriga a esperar que algo ou alguém dê um significado à existência, o absurdo das ligações humanas que se tecem, como o poder e a submissão, o companheirismo e a amizade ou, pura e simplesmente, o estar, enquanto Godot não chega.

Nesse aspecto, o texto mantém a sua actualidade. Aliás, é intemporal. Mas, que me perdoem os Beckistas militantes, é demasiado grande, demasiado repetitivo, estendendo-se até ao desespero do espectador.

Mais uma vez, a minha homenagem ao Teatro Meridional pela forma sóbria e intimista com que, apesar de Beckett, me fez apreciar o espectáculo.

17 maio 2006

Criatividade

Há algumas pessoas em quem não se pode acreditar. São como as lendas: quando falam, há sempre um fundo de verdade, enterrado no meio de tanta invenção e acrescento, pormenores e verificações. O desafio é tentar encontrar esse vislumbre do facto em si, que despoletou a história. São pessoas muito imaginativas.

Estamos na mesma com o governo. Os maravilhosos e vultuosos investimentos que seriam feitos no país, anunciados com pompa e circunstância por Sócrates e seus ministros, um deles com o extraordinário e benemérito Patrick Monteiro de Barros, afinal não são bem assim. Qual será o fundo de verdade? Talvez que haverá alguns investimentos…

Agora o ministro das finanças vem à praça pública anunciar que o desemprego, no primeiro trimestre deste ano vai estagnar, ou mesmo descer. Qual será o fundo de verdade? Talvez que há desemprego…

Bem sei que gostamos de ser criativos. Mas tanta criatividade...

16 maio 2006

Demagogia?

Não se percebe muito bem qual o interesse de badalar aos quatro ventos que Manuela Ferreira Leite acha que a posição da direcção do PSD é demagógica, relativamente ao assunto (que já não se aguenta!) das maternidades.

Em geral os partidos (todos!) quando estão na oposição, são contra, quando estão no governo, são a favor, utilizando, enterrando e reciclando argumentos, consoante o caso. Não é novidade.

Mas não vai haver um congresso do PSD? Será que Manuela Ferreira Leite vai lá dizer que o PSD está a ser demagógico? Ou é só para ir marcando terreno, para que, daqui a alguns anos, havja uma reserva moral do PSD que substitua o desgraçado Marques Mendes, antes das próximas legislativas?

Passeios


Desceram a rua íngreme e foram dar às traseiras da Enoteca. O ar abafava. Entraram e a frescura da pedra entranhou-se, provocando até um ligeiro arrepio.

Subiram a escada. Recolhida a um canto, uma mesa quadrada em losango, para recolher um casal.

Pediram dois menus de prova. Veio o espumante para se saudarem, mais uma vez naquele local, mais pesados, com mais rugas e cabelos brancos, com mais assuntos de conversa, mais namoro.

Lentamente foram comendo pequenas iguarias: mexilhões e tâmaras com bacon, com espumante, chévre com tomate seco e carpaccio de bacalhau com branco, pato fumado e morcela de arroz com maçã com tinto, sericaia com Porto, café.

Discorreram sobre muita coisa, saboreando silenciosamente a mútua companhia.

Quando saíram, mais risonhos e aéreos, subiram milhares de degraus e foram até ao Chiado. Lisboa estava tão bonita!

Dança


Caminhamos na praia de mãos dadas.

Falamos como as ondas e as rochas
devagar e duramente,

com espuma sol ou areia.

Desenhamos as pegadas lado a lado
sem medirmos os passos.

Olhamos os dois para o céu.
Um sente pleno o outro azul,
a plenitude do mar que navegamos.


(pintura de Fernando Botero: dance)

15 maio 2006

Pudor


Sinto o calor
da pele
o perfume quente
da camisa
a doçura dos olhos.

Dilata o peito
por ouvir-te
estremece o ardor
ao descobrir-te.

Mas não to digo.

As palavras
congelam
evaporam
desidratam
têm pudor
de ser tão pouco
para que te declare
o meu amor.

(pintura de Gloria Rabinowitz: wet clouds)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...