16 maio 2006

Demagogia?

Não se percebe muito bem qual o interesse de badalar aos quatro ventos que Manuela Ferreira Leite acha que a posição da direcção do PSD é demagógica, relativamente ao assunto (que já não se aguenta!) das maternidades.

Em geral os partidos (todos!) quando estão na oposição, são contra, quando estão no governo, são a favor, utilizando, enterrando e reciclando argumentos, consoante o caso. Não é novidade.

Mas não vai haver um congresso do PSD? Será que Manuela Ferreira Leite vai lá dizer que o PSD está a ser demagógico? Ou é só para ir marcando terreno, para que, daqui a alguns anos, havja uma reserva moral do PSD que substitua o desgraçado Marques Mendes, antes das próximas legislativas?

Passeios


Desceram a rua íngreme e foram dar às traseiras da Enoteca. O ar abafava. Entraram e a frescura da pedra entranhou-se, provocando até um ligeiro arrepio.

Subiram a escada. Recolhida a um canto, uma mesa quadrada em losango, para recolher um casal.

Pediram dois menus de prova. Veio o espumante para se saudarem, mais uma vez naquele local, mais pesados, com mais rugas e cabelos brancos, com mais assuntos de conversa, mais namoro.

Lentamente foram comendo pequenas iguarias: mexilhões e tâmaras com bacon, com espumante, chévre com tomate seco e carpaccio de bacalhau com branco, pato fumado e morcela de arroz com maçã com tinto, sericaia com Porto, café.

Discorreram sobre muita coisa, saboreando silenciosamente a mútua companhia.

Quando saíram, mais risonhos e aéreos, subiram milhares de degraus e foram até ao Chiado. Lisboa estava tão bonita!

Dança


Caminhamos na praia de mãos dadas.

Falamos como as ondas e as rochas
devagar e duramente,

com espuma sol ou areia.

Desenhamos as pegadas lado a lado
sem medirmos os passos.

Olhamos os dois para o céu.
Um sente pleno o outro azul,
a plenitude do mar que navegamos.


(pintura de Fernando Botero: dance)

15 maio 2006

Pudor


Sinto o calor
da pele
o perfume quente
da camisa
a doçura dos olhos.

Dilata o peito
por ouvir-te
estremece o ardor
ao descobrir-te.

Mas não to digo.

As palavras
congelam
evaporam
desidratam
têm pudor
de ser tão pouco
para que te declare
o meu amor.

(pintura de Gloria Rabinowitz: wet clouds)

O Professor

Ontem, por acaso, vi a análise do Prof. Marcelo na RTP. Já há muito tempo que me tinha deixado disso, devido à forma assertiva, aligeirada e pau-para-toda-a-obra do Professor.

Fiquei siderada pela sapiência salpicada de fait-divers. Mas o mais espantoso é que passou pelo problema das maternidades sem comentar as providências cautelares!

Vou ver se deixo de o ouvir por mais uns tempos! É muito enervante!

O bem comum

É cada vez mais notório o triunfo do individualismo sobre o bem comum.

Nas nossas sociedades ocidentais, livres, democráticas e com elevado nível de vida, as necessidades do indivíduo, a realização pessoal e profissional, alicerçada na conquista de status económico e social, são objectivos prioritários.

A maternidade / paternidade são adiadas até quase ao limite da capacidade biológica para procriar. A assumpção da responsabilidade parental é aligeirada e transferida, sempre que possível e em nome da solidariedade inter gerações, aos avós, esquecendo-se imediatamente essa mesma solidariedade quando a velhice dos mesmos avós se torna incapacitante, tornando-os dependentes.

Nessa altura, porque não estamos preparados para a verdadeira solidariedade, porque o culto da assepcia e da eterna juventude nos impossibilita de encararmos o avanço da idade, das rugas, a perda de memória, etc, instalam-se verdadeiros dramas nas nossas vidas. As mulheres trabalham, os homens também, os filhos têm as suas agendas e ninguém pode prescindir do seu quarto, dos seus telemóveis, dos seus jantares, dos seus computadores, das suas reuniões, dos seus cinemas, dos seus hábitos.

No entanto, com o aumento da esperança de vida, a diminuição do número de crianças e de empregos há pessoas (homens e mulheres) que vão passar a estar em casa, obrigatoriamente, porque não têm trabalho fora dela.

Será que vamos aproveitar para reabilitar a tal solidariedade intra e inter gerações, reconhecendo o importantíssimo papel que têm os cuidadores numa família, que estejam presentes e que apoiem, sem que isso seja considerado uma desgraça, um desprestígio, um falhanço?

Será que vamos aproveitar a melhoria na formação individual e as novas tecnologias, para nos desenvolvermos com qualidade, sem tabus ou preconceitos, que procuremos o nosso lugar na sociedade, sendo capazes de nos adaptarmos às circunstâncias, retirando disso proveito e felicidade?

Será que os homens deste país vão aceitar o desafio de serem eles a acompanharem filhos e pais à escola, às consultas médicas, às refeições, que aprendam que o carinho não é exclusivo das mães?

Será que os empresários deste país se lembram dos velhos e começam a investir em equipamentos sociais de qualidade, gerando emprego nas áreas de cuidados continuados, criando e produzindo aparelhos que facilitem a vida a quem tem dificuldade em caminhar, ver, comer, etc?

Será que as nossas maravilhosas sociedades desenvolvidas se vão esquecer de que o estado tem funções, nomeadamente em áreas de sobrevivência da dignidade individual, da protecção aos mais fracos e necessitados, da prestação de cuidados a todos por igual?

Ou será que, mais uma vez, devido ao papel tradicional da mulher, dona de casa e enfermeira não especialista de cuidados domiciliários, tão divulgado neste país, e ao aumento do desemprego, se assista a um novo escovar das mulheres da vida profissional, retrocedendo algumas décadas nas conquistas dos seus direitos?

Conversas matinais

Deitada no sofá, obedecendo ao seu pedido, sinto as mãozinhas pequenas em festas, nos meus pés.      - Estou a pôr creme à vovó (carinha so...