25 abril 2006

Espumas


A “espuma política” – nova expressão de politiquês. Só hoje já deparei com ela duas vezes.

Pelos vistos é cada vez mais espuma e menos política.

Cavaco Silva trocou as voltas à oposição. Em vez do estafado “recado”, “ralhete” ou “puxão de orelhas”, lembrou-se da sua social-democracia e apelou a um “pacto” (mais um) para combater a exclusão social. A verdade é que deixou os bloquistas e os comunistas à nora. Como dizer mal?

Deixa-me triste o triste espectáculo dos mesmos sindicatos com as mesmas palavras de ordem, aproveitando as mesmas desgraças, a clamar pelas mesmas reivindicações, todos os anos, desde há 32.

A contestação transformou-se em espuma contestatária, na espuma da memória da espuma dos anos.

Dedicatória

Para todos quantos, todos os dias, cumprem a revolução.

Diálogo (7)


- Já ouviste o rádio?
- Porquê?
- Já saiu!
- Quem?
- Oh pá, a tropa! Já passou por cá o Antero. Parece que agora é para valer!
- Onde está o Moço?
- Não consigo falar com ele. Estivemos toda a noite a tentar reunir o grupo.
- Vou já para aí!
- A tropa está na rua! Lisboa está na rua! Desta vez não conseguem calar-nos!

Revolucionemos!


Há 32 anos e 1 dia, éramos mais pobres, mais tristes, mais apáticos, mais desesperançados. Há 32 anos, um grupo de gente corajosa, talvez inocente, talvez jovem, talvez sonhadora, deu corpo e asas aos anseios de um país morno e sem chama.

Após estes 32 anos, a chama é pequena, minúscula, mas alumia. O país tem mais cor, vive-se melhor.

Por muitas dificuldades, défices, desempregados, injustiça, endividamento, corrupção, e outras desgraças modernas e antigas, estamos melhor. De vez em quando são necessárias roturas, para refundação de objectivos, de sonhos, de juventude.

A memória do que era deve fazer compreender que pode voltar a ser. A memória do que é deve abrir a vontade do que ainda poderá ser. Revolucionariamente, é preciso querer fazer mais e melhor, trabalhar, aprender, ensinar, partilhar.

Somos todos iguais: temos todos coração, intestinos e sangue, todos choramos e rimos, temos medo da dor e da solidão, da fome e da guerra, todos somos capazes de amar, nascemos, vivemos, sofremos, morremos.

Seja qual for o sexo, a raça, o credo ou a origem, o mundo pode ser melhor, connosco.

24 abril 2006

Diálogo (6)



- Então vossemecê já sabe o que por lá anda em Lisboa?
- Eu não! Então o que é?
- Parece que há uma revolução!
- Uma quê?
- Parece que querem matar o Marcelo!
- Ai credo, valha-nos Deus!
- Parece que são os comunistas!
- Jesus, Maria, José!

Diálogo (5)

- Coitadinha, lá se foi!
- É verdade. Olhe que aos ruins, Nosso Senhor não os leva. Mas esta pobre criatura, que era uma santa…
- Era o amparo da família.
- Que Deus a tenha, paz à sua alma.
- Pior é para quem cá fica!

Diálogo (4)

- Oh vizinha, olhe que é melhor chamar a parteira!
- Será para hoje?
- Parece que sim! Está atrasado, mas a barriga já está baixa e ela está a modos que cansada de mais…
- Ai, vizinha, lá vem mais um pobre para comer o pouco que há!
- Cá se há-de criar, com a graça de Deus!

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...