24 abril 2006

Diálogo (6)



- Então vossemecê já sabe o que por lá anda em Lisboa?
- Eu não! Então o que é?
- Parece que há uma revolução!
- Uma quê?
- Parece que querem matar o Marcelo!
- Ai credo, valha-nos Deus!
- Parece que são os comunistas!
- Jesus, Maria, José!

Diálogo (5)

- Coitadinha, lá se foi!
- É verdade. Olhe que aos ruins, Nosso Senhor não os leva. Mas esta pobre criatura, que era uma santa…
- Era o amparo da família.
- Que Deus a tenha, paz à sua alma.
- Pior é para quem cá fica!

Diálogo (4)

- Oh vizinha, olhe que é melhor chamar a parteira!
- Será para hoje?
- Parece que sim! Está atrasado, mas a barriga já está baixa e ela está a modos que cansada de mais…
- Ai, vizinha, lá vem mais um pobre para comer o pouco que há!
- Cá se há-de criar, com a graça de Deus!

Diálogo (3)


- Parece que houve mesmo uma revolução, em Lisboa!
- Então?
- Acho que vão libertar os presos! Já se fala no Cunhal! Ouvem-se canções do Zeca Afonso!
- Meu Deus, será?
- Parece que sim…
- Finalmente!

Diálogo (2)


- Houve uma revolução, em Lisboa!
- O quê?
- Estão todos reunidos, lá no comando.
- E o Marcelo?
- Parece que o Tomás está preso. Está tudo muito confuso.

Diálogo (1)

- Parece que houve grande bernarda em Lisboa…
- O quê? Outra vez os militares?
- Sim, mas parece que a coisa está feia…
- Para que lado?
- Não sei.

Desde Abril


Foi em Maio que floresceu Abril
de há tantos anos, quantas são
as pétalas da esperança.

Foi Maio que colheu Abril
de tantos cravos como cruzes
de desenganos.

Foi em Abril que prometemos
Maio, mês início e virginal
de gritos e lágrimas.

É desde Abril que esperamos Maio.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...