13 abril 2006

Férias parlamentares

A ausência de 120 dos 230 deputados (52%) da Assembleia da República, após terem assinado o ponto, antecipando a benesse da Páscoa e impedindo algumas votações que, pensam os incautos cidadãos, devem ser necessárias, é uma vergonha.

Mais vergonhosas ainda são as justificações dos líderes das bancadas parlamentares. Para Marques Guedes devem ser os deputados da maioria a assegurar quórum. Não sei é para que servem os outros deputados, e ele, pelos vistos, também não. Para Vitalino Canas, só depois de analisar uma a uma as justificações dadas por 49 deputados, pode concluir alguma coisa. É muito cauteloso, este Vitalino Canas, e muito justo, não gostando nada de juízos precipitados!

Não deixa de ser divertida toda esta indignação pelas faltas dos parlamentares, quando o país está de férias há cerca de duas semanas.

Mas “eles” (os outros, os políticos, enfim, aqueles corruptos) têm de dar o exemplo…

Férias judiciais

Afinal sempre havia um documento que apoia a redução das férias judiciais para um mês. Não sei se o estudo é mau ou bom, completo ou incompleto.

Mas engraçada é a forma como os juízes e os magistrados do Ministério Público reagiram à existência desse documento. Para eles é um estudo superficial, de natureza quase aritmética, um estudo de mercearia.

De facto alarmante: se até com um estudo assim tão superficial, em que bastam algumas contas de mercearia para se demonstrar um ganho de produtividade de 9,7%, o que seria se tivesse sido efectuado um estudo mais profundo, ou científico (já que têm tanto desprezo pela matemática e pela aritmética, será que sabem o que é ciência?).

Não lhes ouvi foi contestar as tais contas – estarão mal feitas?

12 abril 2006

A crise

Para quem é cristão a época pascal é de uma importância enorme, pelo significado da paixão (quinta-feira), morte (sexta-feira) e ressurreição (domingo) de Jesus. Precisa de rezar, meditar e arrepender-se dos pecados, jejuar, glorificar o seu Senhor e rejubilar com o vencer da morte. Tudo isto é muito cansativo e, portanto, a tarde de folga de quinta-feira, a somar à sexta-feira feriado são indispensáveis para toda esta expiação e penitência.

Para quem não é cristão, a canseira do trabalho árduo, que já começou há algum tempo (desde o Carnaval), trabalho a perder de vista até às merecidas férias grandes, que ainda vêm longe, obriga, obviamente, a uma paragem para recuperar forças, utilizando os feriados e a folga e, já agora, porque não aproveitar também as férias dos miúdos, que não têm aulas.

Alegre país, que depois da paragem do Carnaval, torna a parar duas semanas na Páscoa, para depois parar na ponte do 25 de Abril, e no feriado de 1 de Maio, e assim já está praticamente no Verão.

Crise, qual crise?

11 abril 2006

Untitled


Há uma voz antiga atrás da minha
e outra mão se prende na cortina

e afasta os reposteiros dessa luz
que ao puro esplendor logo conduz.

Se a voz que aqui retenho se faz presa
da própria escuridão que viu acesa,

é que outra voz se perde sem saber
que a minha voz a busca para morrer.


(poema de Luís Filipe de Castro Mendes; pintura de Madeline Garrett: Desertscape V - Hidden)

... e nós por cá...

A Itália está cada vez mais italiana, dramática e excessiva. Berlusconi está cada vez mais igual a ele próprio, inexcedível.

Prometem-se grandes contratempos e instabilidade. Tudo está periclitante e explosivo.

Em França, Villepin perdeu para Sarkozy. Chirac aprovou a lei, mas com algumas alteraçõezitas…

Nós por cá… Parece que o documento sobre o estudo do aumento da produtividade com a redução das férias judiciais vai ser apresentado.

Eu sou como S. Tomé.

09 abril 2006

Da sombra


Da sombra que passa
em momentos de luz
a pele como a taça
do mel que seduz

Da sombra que somos
nos dias de mar
momento em que fomos
capazes de amar

Da sombra que dou
quando olhas assim
para quem te guardou
nas sobras de mim


Há (re)encontros que nos espantam e comovem. Um buraco na sombra para nos aconchegarmos das luzes asfixiantes e da vertigem.

(fotografia de Sérgio Brunetto)

A meio


meia cortina
meio aberta a mão
meia metade de pão
meia conversa

meia sesta despida
meio nua tua ausência
meio desejo dormindo
meio sono escondido

meio a medo estendo
meio sorriso devagar
meia perna encosto
meio a despertar

(pintura de Martha Hollingsworth: Ivy)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...