04 abril 2006

A trapalhada

Que grande trapalhada, aquilo da Polícia Judiciária! É claro que o director nacional Santos Cabral, depois de ter dito que ou fazem ou saio… saiu! Mas era preciso demorar tanto tempo a sair? Ou a ser demitido?

Mas afinal foi ele que se demitiu ou foi o ministro que o demitiu? Quem falou primeiro? Será que falaram em coro? Ou tiraram à sorte, para ver quem falava primeiro? Cara ou coroa ou par ou ímpar?

Mas que brincadeira de mau gosto!

E onde fica a sensação de segurança? Querem esvaziar a PJ de funções, de poderes, ou o quê?

Que grande trapalhada, Sr. Ministro Alberto Costa!!

Sem memória


Seres humanos iguais na dor, na memória, na indizível crueldade, no assombro do horror.

Impossível perceber a fria capacidade de trucidar.

Impossível aceitar o demónio que se esconde em cada um de nós, nas esquinas dos sorriso mornos e dos feitos heróicos.

Impossível olhar para as consequências dos nossos actos, afundados no escuro da alma dos povos.

Sem vergonha.

02 abril 2006

Páscoa


A passagem, a libertação.

Para os hebreus, Deus protegeu-os das pragas que enviou aos egípcios, sendo a última a morte dos primogénitos. O povo de Deus, escravo, através de um sinal na porta feito com sangue do cordeiro sacrificial, foi poupado pelo anjo exterminador. A seguir foi libertado e rumou à Terra Prometida.

Para os cristãos, Jesus simboliza o cordeiro oferecido em sacrifício, que liberta o Homem dos seus pecados e que se liberta da morte, ressuscitando.

Para todos nós, religiosos ou não, que sempre necessitamos de nos libertar de tudo o que nos escraviza, emocional e fisicamente, celebremos as páscoas da nossa vida, como seres individuais, como povo e como comunidade de povos.

Páscoa
– passagem, do Lat. Pascha, do Gr. Páscha, do Hebr. pesakh
(Alexander Vaisman: pesakh)

Intervalo



Domingos langorosos, melancólicos,
de espera, nem luminosos
sábados de prazer, nem laboriosos
dias madrugadores.

Intervalo entre o espreguiçar e o debulhar,
indecisão permanente,
cíclica e mal vestida,
dia de casa ou de obrigatório passeio,
dia de sorriso só prazenteiro.

Ao longe o sussurro do carro,
na esplanada cafés frios, restos de bolos.

Domingos de migalhas.

(pintura: Avis Fleming)

01 abril 2006

Sábado


Lisboa é uma cidade iluminada. O sol côa os telhados e pinta os eléctricos. O Tejo refresca numa brisa tardia.

Sábado morno e primaveril, com cheiro a início.

(pintura de Raquel Martins: candeeiros de Lisboa)

A tradição

O PS ganhou as eleições com maioria absoluta. O governo, desde a tomada de posse, adoptou uma posição determinada, empreendedora e reformista.

Para tanto, umas vezes com recurso ao populismo e outras ao autoritarismo, iniciou um discurso positivista, propagandeando as medidas, mesmo antes de as tomar, enchendo os noticiários com promessas de melhores dias, se se fizessem determinados sacrifícios, afrontando corporações e privilégios, apelando ao trabalho e ao rigor.

Para além da propaganda começou, de facto, a mexer na estrutura do país. Com medidas mais ou menos consensuais, mais ou menos acertadas, mexeu na educação, na saúde, na justiça, na segurança social e, agora, prepara-se para fazer uma reforma na administração pública.

Mais ou menos cabalísticas no número, as medidas que levem à desburocratização do estado, à reorganização, concentração e redistribuição dos recursos humanos na administração central são indispensáveis para o controlo do défice, para a modernização do país e para melhor servir os cidadãos. O fecho de escolas e maternidades, como a reorganização das freguesias, concelhos e distritos, regiões administrativas, etc, é inevitável.

Como é impossível estar em desacordo com tudo isto, o combate político deixou de fazer-se relativamente ao modo como se deve actuar, às prioridades da governação ou à justeza de determinados princípios, para se passar a fazer à volta da capacidade do governo implementar todas estas reformas.

De facto, e olhando para o que se passou nos últimos trinta anos, é preciso cepticismo e não cair em optimismos irrealistas no que diz respeito às capacidades reformadoras dos governos, do PS, do PSD, do PSD/CDS, de todos.

Mas é bem o espelho da nossa sociedade e da nossa cultura do “bota-abaixismo” o coro de profetas da desgraça em que se adivinham todos os receios e cobardias do governo, pressionado pelo aparelho do partido, pelos funcionários públicos, pelos agricultores, e por todas as forças que só querem mudar quando não se muda, e o recuo do primeiro-ministro, entupindo o túnel por onde se vislumbrava uma luz.

Jornalistas, comentadores, partidos da oposição, sindicatos, todos juntos contra o que se anuncia, uns, contra o que, estão certos, o governo não conseguirá fazer, outros.

Segundo Marques Mendes, o défice de 6% em 2005 é a primeira derrota do governo, como se não fosse a derrota de todos nós. Marques Mendes deseja o incumprimento dos planos do governo, mas é incapaz de demonstrar qual a solução, tal como os seus correligionários de partido o não demonstraram, em todos os anos que foram governo.

Não só não somos capazes de fazer bem como somos incapazes de olhar com o mínimo de confiança para o futuro, assim como de elogiar quem tenta fazer melhor.

A tradição continua a ser o que era.

31 março 2006

Bur(r)ocracia

Há cerca de três anos precisei de passar uma procuração para resolver um assunto, pois não me encontrava presente na altura aprazada.

Pensando que estava a realizar um grande feito, resolvi escrever o documento no computador, com letra Arial 11, a espaço 1,5, com justificação à direita e à esquerda, sublinhados e bolds, datas e nomes completos, todos os números de que me consegui lembrar, enfim, a parafernália dos documentos oficiais.

Faltava apenas a assinatura, que tinha que ser presencial e reconhecida. Daí a ida ao notário.

Foi antes da privatização. O notário ficava no 2º andar de um prédio velho, sem elevador, e deitava filas por fora, já na escada do 1º andar.

Depois da senha e da respectiva espera, por acaso até nem foi muita, apresentei o papel impresso com os dizeres e as identificações, preparada para assinar, pagar e sair.

Que não, que não podia ser assim, que tinha que ser um documento manuscrito, presencial, assinado na altura, em frente dela (a funcionária), que era o que a lei dizia.

Apeteceu-me pedir-lhe logo a tal lei, para que constatasse com os meus próprios olhos o anacronismo da mesma, mas estava com pressa.

Por isso, estiquei-me toda (sou muito baixa) para escrever com letra legível (o que para mim é sempre uma tarefa árdua) um documento na presença da funcionária, para que ela atestasse da veracidade do dito.

Qualquer medida que este governo tome para mudar este estado de coisas (burocracia e funcionário(a)s pouco iluminado(a)s) tem o meu apoio incondicional, aplaudido e agradecido!

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...