26 março 2006

Untitled


Sílabas

Sento-me à máquina. Dactilografo.
Vacilam-me nos dedos as teclas.
Desalinhadas enfileiram-se as letras.

É angústia da minha velha máquina
ou será da fita gasta?

É que na limpidez do papel
sobressaem nubladas
cinco letras:
Maria.

(poema de José Craveirinha; pintura de Roberto Chichorro)

Livros (2)


O “Mil Folhas” de ontem (do Público) traz um extenso artigo sobre novas editoras e a pujança do sector editorial no nosso país em crise. É uma boa notícia. Pode significar que, apesar de haver pouco dinheiro, as prioridades dos portugueses em como gastá-lo, estão a mudar.

Há uns tempos tomei conhecimento de que um indivíduo responsável pela escolha editorial de uma editora, se queria lançar no mercado por conta própria. Assim, para publicar um livro, que ele achava de qualidade e que tinha todo o interesse em ser publicado, propunha ao autor que arranjasse um patrocínio para a publicação da obra, que deveria cobrir mais de 50% do total do valor gasto.

Este futuro empresário, para além de não pensar em pagar direitos de autor, achou-se no direito de pedir ao autor um financiamento para a publicação, disfarçada de patrocínio.

No fundo, a editora fornecia alguns serviços (impressão, publicação, distribuição e marketing) e o autor dava o talento, o dinheiro e recebia apenas (e já não é pouco!) a satisfação de ver o livro publicado, à sua custa. É uma edição de autor transfigurada!

Se corresse bem, ganhava a editora, se corresse mal, perdia o autor. É o risco que alguns tipos de empresários estão dispostos a correr. Será este o método da maioria destas editoras que se estão a lançar?

(pintura de Robert Drucker: In the Time We Have Left)

Livros (1)


Fui ontem à FNAC, como quase todos os sábados. É quase uma peregrinação semanal. Procurei, entre os livros de poesia lusófona, livros de José Craveirinha. Não encontrei um único.

José Craveirinha, para além de ser um excelente poeta moçambicano, foi prémio Camões em 1991. Quando morreu, como de costume, traçou-se um panegírico dele e da sua obra. Nessa altura, encontravam-se livros dele à venda.

Dois anos depois, parece que nem existiu.

É difícil perceber os critérios de aquisição, stock e exposição de livros de algumas livrarias. Gosto da FNAC mas, ou quero um livro que acabou de sair e/ou que está a ser badalado, ou então não há.

Parece a lógica do hipermercado do livro.

25 março 2006

Tempo


Horas gastas, esquecidas
minutos inúteis.
Que é do tempo,
da pele, dos poros, das mãos,
das sementes por lançar?
Que falta nos genes, na terra, no ar?

Igual a outros,
tantos segredos invisíveis.
Igual a tantos
medos irrepetíveis.

Que é do tempo?

(pintura de Njuguna: dancing children)

O desmoronamento do sistema democrático (tragédia em 4 actos)


1º Acto
Conheço alguém que, após a reforma, decidiu pôr o seu tempo e a sua disponibilidade ao serviço do bem público, ou seja, decidiu intervir politicamente.
Para isso filiou-se num partido político.
Na altura das eleições para a concelhia, em que havia 3 candidatos, um deles angariou votos pagando as quotas a 10 indivíduos, no dia das eleições. Isto passou-se na secção à qual o meu conhecido pertence. Não sei se o candidato terá pago quotas noutras secções, e a quantos militantes.
Esse candidato ganhou as eleições. Portanto, quem tiver algum dinheiro, nem precisa de ser muito, compra por muito pouco um punhado de cidadãos, que são militantes de um determinado partido, que a troco de influências e/ou dinheiro, elegem um cacique. Imagine-se o que se passará nas distritais, para quem tiver muito dinheiro e/ou muita influência.
2º Acto
Apesar de, em França, haver um poder executivo que emanou do voto, em eleições livres e democráticas, o poder não tem capacidade de suster e controlar movimentos populares que se transformaram em arruaças e violência desenfreada, cedendo e vergando-se ao medo e à incapacidade de exercer o poder que lhe foi conferido pelos cidadãos.
Portanto as instituições democráticas, que são o cerne da democracia representativa (partidos políticos, eleições, assembleias, governos, presidentes) deixam de funcionar e são substituídas pela população ululante e violenta, que destrói e tenta negociar directamente com o poder executivo.
Não ponho em causa, como é óbvio, o direito à livre manifestação pacífica das ideias, dos anseios, das reivindicações dos cidadãos. A democracia não se esgota em eleições. Mas o que se está a passar em França está muito longe da capacidade da sociedade civil politizada (ou não) intervir nos intervalos das consultas eleitorais.
3º Acto
Cruzando o que se passou nas eleições para a concelhia do tal partido, em Portugal, com o que se passa nas ruas de França, chego à conclusão de que os representantes do povo na realidade não representam ninguém, com excepção dos seus próprios interesses, que pensam assegurar nesta lógica de caciquismo.
Sendo assim e extrapolando, as instituições democráticas não são mais do que um conjunto de indivíduos eleitos por alguns, para defesa de muito poucos, sem qualquer interesse no bem comum.
O que acaba por justificar que, como a população não se sente representada nem defendida pelos seus governantes, e de facto não o é, o poder seja exercido pela gritaria e pela violência dos grupos, legitimando o poder na rua.
4º Acto
A insegurança geral e a incapacidade de desfazer esta lógica, por parte de quem tem responsabilidades políticas, e por parte dos cidadãos que, cada vez mais, por desinteresse ou desânimo, se divorciam da intervenção cívica, pode levar a extremos perigosos.
Tudo isto, somado ao mal-estar de quem não vê grandes perspectivas de manutenção dos padrões de vida e de bem-estar social a que estamos habituados, pode ser o caldo de cultura para grandes descontrolos sociais e para aprendizes de futuros ditadores, que poderão aparecer como o garante da ordem e da paz, e como os verdadeiros intérpretes da vontade popular.
Já vimos tudo isso acontecer, aquando da ascensão de Hitler e de Stalin ao poder. Será que não aprendemos?

Fim-de-semana

O bom dos fins-de-semana é que não são programáveis.

Mesmo que tenhamos pensado em ocupar os dias com afazeres culturais, sociais ou apenas e só domésticos, o que têm de absolutamente sublime é o podermos estar totalmente desocupados.

Só assim os rituais do lazer se transformam em pequenos prazeres indispensáveis à sanidade de uma semana trabalhosa e, por vezes, acinzentada.

24 março 2006

O lugar das coisas


Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.

Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.

Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.

Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.

Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.

Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.

(poema: Nuno Júdice; pintura: Scott - simple things)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...