1º Acto
Conheço alguém que, após a reforma, decidiu pôr o seu tempo e a sua disponibilidade ao serviço do bem público, ou seja, decidiu intervir politicamente.
Para isso filiou-se num partido político.
Na altura das eleições para a concelhia, em que havia 3 candidatos, um deles angariou votos pagando as quotas a 10 indivíduos, no dia das eleições. Isto passou-se na secção à qual o meu conhecido pertence. Não sei se o candidato terá pago quotas noutras secções, e a quantos militantes.
Esse candidato ganhou as eleições. Portanto, quem tiver algum dinheiro, nem precisa de ser muito, compra por muito pouco um punhado de cidadãos, que são militantes de um determinado partido, que a troco de influências e/ou dinheiro, elegem um cacique. Imagine-se o que se passará nas distritais, para quem tiver muito dinheiro e/ou muita influência.
2º Acto
Apesar de, em França, haver um poder executivo que emanou do voto, em eleições livres e democráticas, o poder não tem capacidade de suster e controlar movimentos populares que se transformaram em arruaças e violência desenfreada, cedendo e vergando-se ao medo e à incapacidade de exercer o poder que lhe foi conferido pelos cidadãos.
Portanto as instituições democráticas, que são o cerne da democracia representativa (partidos políticos, eleições, assembleias, governos, presidentes) deixam de funcionar e são substituídas pela população ululante e violenta, que destrói e tenta negociar directamente com o poder executivo.
Não ponho em causa, como é óbvio, o direito à livre manifestação pacífica das ideias, dos anseios, das reivindicações dos cidadãos. A democracia não se esgota em eleições. Mas o que se está a passar em França está muito longe da capacidade da sociedade civil politizada (ou não) intervir nos intervalos das consultas eleitorais.
3º Acto
Cruzando o que se passou nas eleições para a concelhia do tal partido, em Portugal, com o que se passa nas ruas de França, chego à conclusão de que os representantes do povo na realidade não representam ninguém, com excepção dos seus próprios interesses, que pensam assegurar nesta lógica de caciquismo.
Sendo assim e extrapolando, as instituições democráticas não são mais do que um conjunto de indivíduos eleitos por alguns, para defesa de muito poucos, sem qualquer interesse no bem comum.
O que acaba por justificar que, como a população não se sente representada nem defendida pelos seus governantes, e de facto não o é, o poder seja exercido pela gritaria e pela violência dos grupos, legitimando o poder na rua.
4º Acto
A insegurança geral e a incapacidade de desfazer esta lógica, por parte de quem tem responsabilidades políticas, e por parte dos cidadãos que, cada vez mais, por desinteresse ou desânimo, se divorciam da intervenção cívica, pode levar a extremos perigosos.
Tudo isto, somado ao mal-estar de quem não vê grandes perspectivas de manutenção dos padrões de vida e de bem-estar social a que estamos habituados, pode ser o caldo de cultura para grandes descontrolos sociais e para aprendizes de futuros ditadores, que poderão aparecer como o garante da ordem e da paz, e como os verdadeiros intérpretes da vontade popular.
Já vimos tudo isso acontecer, aquando da ascensão de Hitler e de Stalin ao poder. Será que não aprendemos?