15 abril 2020

Sem palavras

despedida maria sousa.jpg


 


Carta de amor numa pandemia vírica


Gaitas-de-fole tocadas na Escócia


Tenores cantam das varandas em Itália


Os mortos não os ouvirão


E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio


Quem pretendem animar?


As crianças?


Mas as crianças também estão a morrer


 


Na minha circunstância


Posso morrer


Perguntando-me se vos irei ver de novo


Mas antes de morrer


Quero que saibam


O quanto gosto de vós


O quanto me preocupo convosco


O quanto recordo os momentos partilhados e


queridos


Momentos então


Eternidades agora


Poesia


Riso


O sol-pôr


no mar


A pena que a gaivota levou à nossa mesa


Pequeno-almoço


Botões de punho de oiro


A magnólia


O hospital


Meias pijamas e outras coisas acauteladas


Tudo momentos então


Eternidades agora


Porque posso morrer e vós tereis de viver


Na vossa vida a esperança da minha duração


 


Mensagem de despedida da Professora Maria de Sousa (através de João Luís Barreto Guimarães, que traduziu).


 

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