27 março 2020

Os Velhos

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Ai Weiwei


 


Diz-se que há-de vir


uma era justa e boa


em que o valor da pessoa


se mantém quando envelhece.


Está no trabalho que fez.


Para conseguir uma coisa como esta


dava o sangue que me resta.


E era como se tivesse


nascido mais uma vez.


 


Deram-nos este banco de avenida


onde a sombra nos dói e a tarde gela


e daqui vemos nós passar a vida


Sem que a vida nos sinta perto dela.


 


Assim nos atiraram para fora


das coisas que ajudámos a fazer.


Ai, como o sol aquece pouco agora.


Ai, muito custa à noite adormecer.


 


Fomos pedreiros, varredores, ardinas


fizemos casas, cultivámos terras,


criámos gado, entrámos pelas minas,


demos os filhos para as vossas guerras.


 


Demos as filhas para vos servir,


cortámos lenha para a vossa fogueira.


E o tempo a ir-se, e a gente a pressentir


que vos demos sem querer a vida inteira.


 


E ainda é sangue o que nas veias corre.


Ainda é raiva o que nos dobra a mão.


Ainda ecoa um sonho que não morre


no nosso velho e atento coração.


 


Hélia Correia

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