25 abril 2017

A música dos cravos


Manuel Alegre & António Portugal & António Correia de Oliveira


 


 


Quem poderá domar os cavalos do vento


quem poderá domar este tropel


do pensamento


à flor da pele?


 


Quem poderá calar a voz do sino triste


que diz por dentro do que não se diz


a fúria em riste


do meu país?


 


Quem poderá proibir estas letras de chuva


que gota a gota escrevem nas vidraças


pátria viúva


a dor que passa?


 


Quem poderá prender os dedos farpas


que dentro da canção fazem das brisas


as armas harpas


que são precisas?


 


 


 



Sérgio Godinho


 


 


Viemos com o peso do passado e da semente


Esperar tantos anos torna tudo mais urgente


e a sede de uma espera só se estanca na torrente


e a sede de uma espera só se estanca na torrente


Vivemos tantos anos a falar pela calada


Só se pode querer tudo quando não se teve nada


Só quer a vida cheia quem teve a vida parada


Só quer a vida cheia quem teve a vida parada


Só há liberdade a sério quando houver


A paz, o pão


habitação


saúde, educação


Só há liberdade a sério quando houver


Liberdade de mudar e decidir


quando pertencer ao povo o que o povo produzir


quando pertencer ao povo o que o povo produzir


 


 


 



Zeca Afonso


 


Vejam bem


Que não há


Só gaivotas


Em terra


Quando um homem


Se põe


A pensar


 


Quem lá vem


Dorme à noite


Ao relento


Na areia


Dorme à noite


Ao relento


Do mar


 


E se houver


Uma praça


De gente


Madura


E uma estátua


De febre


A arder


Anda alguém


Pela noite


À procura


E não há


Quem lhe queira


Valer


 


 


Vejam bem


Daquele homem


A fraca


Figura


Desbravando


Os caminhos


Do pão


 


E se houver


Uma praça


De gente


Madura


Ninguém vai


Levantá-lo


Do chão


 


Vejam bem


Que não há


Só gaivotas


Em terra


Quando um homem


Se põe


A pensar


 


Quem lá vem


Dorme à noite


Ao relento de areia


Dorme à noite


ao relento do mar

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