29 janeiro 2017

Manual de despedida para mulheres sensíveis

vem a quinta feira.jpg


Filipa Leal


 


 


Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,


não chorar para não enfraquecer o emigrante, 


mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,


dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas


com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala


que não pode levar mais de vinte quilos


(quanto pesará o coração dele? e o meu?),


três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,


oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia


e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,


ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda


(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),


pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,


pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas


e mesmo assim não chorar, nunca chorar, 


mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,


tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,


uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,


apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,


mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas, 


que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também


os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas 


até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,


com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,


e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,


cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,


cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.


 


É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.


Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.


Mas que não chore. 

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