26 novembro 2014

Das presunções

A forma como, nos últimos tempos, a nossa justiça tem funcionado, é exactamente ao contrário do que se apregoa: é-se inocente até se provar a culpa. O que se tem passado, com as fugas de informação cirurgicamente escolhidas, com os procedimentos que se não cumprem, com o desprezo pelo direito das pessoas à dignidade e ao bom nome, é o oposto - são os cidadãos que têm que provar a sua inocência.


 


Em relação aos poderosos e, mais especificamente, aos políticos, ninguém se consegue inocentar completamente aos olhos da opinião pública. No caso de José Sócrates a presunção de inocência é mesmo só retórica - a condenação é já uma certeza. E se, ao fim dos anos que durará todo este caso se não conseguir provar nada, a conclusão será que, mais uma vez, os poderosos, ou mais precisamente os políticos, estão sempre acima da lei.

24 novembro 2014

Da minha natureza intrinsecamente corrupta

Devo ser natural e entranhadamente corrupta pela minha total e entusiástica preferência por gente óbvia e comprovadamente venal como Maria de Lurdes Rodrigues, Pinto Monteiro ou José Sócrates, e o meu absoluto distanciamento urticariforme de pessoas impolutas como Manuela Moura Guedes, João Marcelino e muitos dos nossos actuais governantes que tentam resgatar-me diariamente dos meus vícios.

Dos julgamentos políticos

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Quando todas as sondagens previam a vitória inquestionável do PS nas próximas eleições, após o alívio geral com a saída de cena de António José Seguro, eis que se revigora esta maioria de direita, na esperança de que a prisão e a condenação pública de José Sócrates alastre o repúdio pelos políticos do PS, tentando misturar os eventuais crimes do ex-Primeiro-ministro com as políticas dos seus governos. Marcelo Rebelo de Sousa não se conteve – se António Costa vencer as eleições será um génio; Nuno Garoupa, considera que o País deve fazer um julgamento político de José Sócrates.


 


Do que se esquecem muitos dos comentadores e das pessoas que viram renascer a esperança à medida que passava o fim-de-semana, com o País colado à televisão para ver passar automóveis de um lado para o outro, é que o julgamento político de José Sócrates já foi feito nas eleições de 2009 e de 2011. Nas últimas, os cidadãos escolheram esta maioria que nos governa e não o PS com José Sócrates a liderá-lo. O porquê dessa derrota eleitoral pode ser olhada e explicada de várias maneiras, mas é assim que se julga politicamente alguém que teve responsabilidades governativas – em eleições. Por isso mesmo António Costa faz bem em separar o processo judicial do processo político. E por muito que queiram enlamear tudo o que fizeram Sócrates e os seus colaboradores, enquanto governantes têm sido julgados durante todos estes anos por todos nós.


 


Para além de Sócrates e do PS, os portugueses farão um julgamento político deste governo ruinoso, de quem os enganou e fez exactamente o contrário do que prometeu, de quem tem sido de uma incompetência que ultrapassou vários limites, nas pessoas dos seu responsáveis máximos - Passos Coelho e Paulo Portas. Também o farão desta esquerda tão à esquerda de toda a esquerda da esquerda, que não se cansa de nos lembrar, relembrar e prometer que esteve e estará sempre coligada com a direita para impossibilitar um governo do PS.

23 novembro 2014

Um dia como os outros (147)


 

Um dia como os outros (146)

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 (...) Temos visto nos últimos tempos com preocupação a permanente detenção de pessoas para interrogatório. A detenção só pode ser feita de acordo com aquilo que está estipulado no Código de Processo Penal (CPP) e, portanto, havendo perigo de fuga, flagrante delito, perigo de continuação da actividade criminosa ou havendo o perigo de alguma intranquilidade na comunidade (...)


(...) estar-se a estimular a justiça na praça pública, com pessoas a serem detidas sem que haja o gozo da presunção de inocência, à frente de câmaras de televisão, com fugas de informação que constituem violações do segredo de justiça, o que é crime em Portugal (...)


(...) Essa pessoa é um cidadão português, beneficia da presunção constitucional de inocência e vê irremediavelmente comprometida a sua honra e consideração, depois da visualização por toda a sociedade portuguesa da sua detenção (...)


 


Declarações de Elina Fraga, Bastonária da Ordem dos Advogados

Do próximo futuro

O PS elegeu, ontem, um novo Secretário-Geral. António Costa honrou a confiança que nele depositaram militantes e simpatizantes e fez aquilo que dele se espera: não renegou o passado do partido, nos seus bons e maus momentos, separou um caso de polícia do que é política e afirmou a prioridade nacional de encontrar uma alternativa para esta direita que nos governa.


 


Não faltará a caça às bruxas, visto que já há brigadas de ratos a inundarem as caixas de comentários de quem sempre defendeu a política dos governos de Sócrates. Ontem assisti com uma náusea profunda a várias declarações de um convidado da RTP - Paulo Morais - em reposta a perguntas no mínimo enjoativas de José Rodrigues dos Santos, com a assistência embasbacada e não reactiva de José Adelino Maltez.


 


Vai ser interessante assistir à reinvenção da história de forma a demonstrar que foram Sócrates e os seus sequazes os responsáveis por todas as vilanias acontecidas em Portugal e na Europa, ou mesmo no mundo, neta última década, tentando enlamear António Costa e a nova direcção. É uma prova de fogo que, por eles e por nós, espero bem que consigam superar.

22 novembro 2014

Da inevitabilidade dos efeitos colaterais

O país já tem mais um escândalo para se entreter, esquecendo os escândalos anteriores como os vistos gold a reposição das subvenções mensais vitalícias aos deputados - não há repúdio ao populismo que grassa pela sociedade, transformando os deputados numa raça a abater, que compreenda a prioridade nacional deste assunto.


 


António Costa, que reagiu com ponderação à mediática justiça de hoje, viu desaparecer a sua eleição como Secretário-Geral do PS, tragada pelo assunto pensionista e pelo rodar implacável e secreto da justiça. O governo deve estar a respirar de alívio e o PS de tristeza e ansiedade.

Lisboa menina e moça


Ary dos Santos & Joaquim Pessoa & Fernando Tordo & Paulo de Carvalho


 


Parabéns ao Carlos do Carmo


ao Vasco Palmeirim e à Rádio Comercial


 


No castelo, ponho um cotovelo


Em Alfama, descanso o olhar


E assim desfaz-se o novelo


De azul e mar


À ribeira encosto a cabeça


A almofada, na cama do Tejo


Com lençóis bordados à pressa


Na cambraia de um beijo


 


Lisboa menina e moça, menina


Da luz que meus olhos vêem tão pura


Teus seios são as colinas, varina


Pregão que me traz à porta, ternura


Cidade a ponto luz bordada


Toalha à beira mar estendida


Lisboa menina e moça, amada


Cidade mulher da minha vida


 


No terreiro eu passo por ti


Mas da graça eu vejo-te nua


Quando um pombo te olha, sorri


És mulher da rua


E no bairro mais alto do sonho


Ponho o fado que soube inventar


Aguardente de vida e medronho


Que me faz cantar


 


Lisboa menina e moça, menina


Da luz que meus olhos vêem tão pura


Teus seios são as colinas, varina


Pregão que me traz à porta, ternura


Cidade a ponto luz bordada


Toalha à beira mar estendida


Lisboa menina e moça, amada


Cidade mulher da minha vida


 


Lisboa no meu amor, deitada


Cidade por minhas mãos despida


Lisboa menina e moça, amada


Cidade mulher da minha vida

Da prata das palavras e do ouro do silêncio

Acordei para a notícia da detenção de José Sócrates. Não percebi se tinha fugido à justiça ou se estava a fugir, se se tinha negado a prestar declarações, se tinha tentado matar ou morto alguém. Apenas que, com a SIC a filmar, tinha sido detido no aeroporto no âmbito de uma investigação que está em segredo de justiça. Como é habitual este segredo é apenas para gerir melhor o circo mediático e os alvos que vão sendo atingidos.


 


Tudo isto é assustador: se José Sócrates for considerado culpado dos crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção, é mais um golpe na nossa confiança nos representantes políticos, mais uma machadada na imagem dos servidores públicos, mais uma acha para a fogueira do populismo e do advento do moralismo totalitário dos movimentos que estão a crescer por todo o lado; se esta investigação acabar como a da Casa Pia e semelhantes, é mais uma demonstração da judicialização da política e do poder absolutista que vão tendo os Juízes, modelando a opinião pública através destas investigações que não condenam mas, sobretudo, não absolvem.


 


Vivemos em tempos em que não nos sentimos protegidos por este poder judicial - e isso é terrível. Por muito que se repita que até prova em contrário as pessoas são inocentes, é impossível apagar as suspeitas. E é por isso e para isso que estes circos se montam.


 


Continuo a pensar que José Sócrates foi um dos melhores Primeiros-ministros que tivemos na era democrática. Quero muito acreditar nas pessoas, e preciso muito de acreditar nas Instituições. Cada vez mais estas duas crenças são mutuamente exclusivas.

16 novembro 2014

Do penoso arrastar do governo

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Miguel Macedo mostrou aos seus colegas do governo como se deve proceder - a responsabilidade política e a postura das Instituições deve estar sempre salvaguardada.


 


E também mostrou que quando a vontade de se demitir é genuína, não há Primeiro-ministro que o impeça.

15 novembro 2014

Chuva no mar


Arnaldo Antunes & Marisa Monte & Carminho


 


Coisas transformam-se em mim,


É como chuva no mar,


Se desmancha assim em


Ondas a me atravessar,


Um corpo sopro no ar


Com um nome p’ra chamar,


É só alguém batizar,


Nome p’ra chamar de


Nuvem, vidraça, varal,


Asa, desejo, quintal,


O horizonte lá longe,


Tudo o que o olho alcançar


E o que ninguém escutar,


Te invade sem parar,


Te transforma sem ninguém notar,


Frases, vozes, cores,


Ondas, frequências, sinais,


O mundo é grande demais.


Coisas transformam-se em mim,


Por todo o mundo é assim.


 


Isso nunca vai ter fim.

Aguarda-se a demissão a qualquer momento...

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"Qualquer pessoa que ponha em causa uma instituição deve imediatamente apresentar o seu pedido de demissão ou de suspensão de funções."

Monitorização

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Poucos polícias e muitos ladrões

Ao que se vai sabendo, partindo do princípio que o que se vai sabendo é mesmo verdade, figuras ao mais alto nível da hierarquia da administração pública estão envolvidas num esquema de corrupção e lavagem de dinheiro.


 


Tudo isto é motivo de preocupação e rapidamente utilizado para ataques políticos sub-reptícios, com encarniçamentos iniciais contra Paulo Portas, e resposta rápida com envolvimento de Ministros e responsáveis políticos do PSD ou próximos.


 


SEF, SIS, Ministérios da Justiça e da Administração Interna, escritórios de advogados e empresas de consultadoria, tudo bem embrulhado e emaranhado nos meandros de uma enorme quantidade de dinheiro que entra em Portugal mas não serve para melhorar em nada a economia do país.


 


O ambiente de descalabro e desgoverno, a deterioração e o afiar de facas à volta desta maioria que nos governa, é bem a demonstração de fim de ciclo. O Presidente da República desapareceu para parte incerta e o cidadão comum já nem tem capacidade para se indignar.

Do que é um serviço público

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Diga-se em abono da verdade que as instituições se portaram muito bem neste caso do surto epidémico de Doença dos Legionários - Francisco George esteve presente, conciso, assertivo e prudente; Paulo Macedo foi calmo, discreto, tranquilizador e atento; os Hospitais reagiram depressa e bem; ao que tudo indica, está localizado o foco de onde se terá originado o surto, decorrendo agora as investigações para apurar as eventuais responsabilidades (criminais).


 


Para variar foi uma situação grave em que os governantes e os responsáveis pelas várias instituições que têm por missão a nossa saúde e bem-estar estiveram à altura. É caso para aplaudir, até porque é um exemplo bastante raro.

09 novembro 2014

Muros (2)

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Muro de Chipre - 1974 a ...


 


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 Muro da Coreia - 1953 a ...


 


Chamaram-me a atenção para a existência de outros muros, muito menos mediáticos que estes. Com razão: até na adversidade há desiguladade.

Muros (1)

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Muro de Berlim - 1961 a 1989


 


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 Muro de Israel -1994 a .... 

Da persistência de muros em certas cabeças

Vale a pena ler este post, que afortunadamente vai lembrando, sem complexos de pseudoesquerda pseudointelectual, aquilo que muitos têm pudor de afirmar - a continuidade de defensores de regimes totalitários e que se autoproclamam de democráticos, os nostálgicos da Guerra Fria e dos grandes feitos em prole do povo, das grandes liberdades praticadas na antiga União Soviética.


 


É preciso dizer com toda a frontalidade que o PCP continua a defender um regime em tudo contrário à liberdade e à democracia. Chamar anticomunismo primário a tudo e a todos os que o afirmam é mais uma forma de combate manipulativo e ultrapassado. O PCP foi ultrapassado pelos acontecimentos e ainda não percebeu.


 


O texto do Avante é quase inexcedível de embuste e tacanhez. É com este partido que se procura uma convergência de esquerda para governar o País?

Em busca da Legionella

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Legionella pneumophila


 


Legionella (mais precisamente a Legionella pneumophila) é uma bactéria que vive na água e infecta as pessoas através da inalação de gotículas de água. Podem habitar os chuveiros, termoacumuladores e ares condicionados. A infecção causada pode ser leve e autolimitada, com dores musculares, febre e mal estar, ou mais grave, como a pneumonia. Quem tem doenças crónicas do aparelho respiratório ou outras patologias debilitantes está em maior risco.


 


Uma epidemia é o aparecimento súbito de muitos casos de uma determinada doença. É o caso deste surto em que, em 3 dias, surgiram 90 casos confirmados, todos numa região mais ou menos limitada.


 


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Com vem sendo veiculado pelas entidades oficiais, as medidas de prevenção são a melhor arma: desinfectar as cabeças dos chuveiros e, aumentar as temperaturas dos termoacumuladores. Segundo o Presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, pelo número e concentração geográfica dos atingidos, a fonte da Legionella pode ser um local público.


 


Sobretudo, o mais importante de tudo, é evitar o pânico e o alarmismo. As autoridades sanitárias estão a actuar, os Hospitais estão alerta, a receber e a tratar os doentes. É uma investigação digna de um Hercule Poirot - a bactéria não escapará!

05 novembro 2014

... a laborar há 9 anos...

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Nesta casa serve-se tudo a quente.


As cadeiras são de pau e têm as costas direitas.


Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação.


A porta está sempre aberta...


... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado.


Esta casa tem nas janelas a bandeira do desafio.


Espalhadas pelas mesas as palavras que não lhe faltam.


Serve silêncios de cumplicidade.


Regista o tempo que passa nas paredes da memória.


Esta casa é varrida por tempestades cíclicas com elevado grau de intensidade.


O equilíbrio das ideias é periclitante.


De luz permanece uma lâmpada acesa...


... mesmo que escondida entre as brumas do desconcerto.


A renovação vai abrindo fendas e reconstruindo o remendo das incertezas.


 


Sejam bem-vindos.

03 novembro 2014

Intervalo

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Um dos motivos porque adoro viajar é a felicidade que sinto ao regressar a casa.


 


Em volta da mesa a conversa acalma e estimula, o apelo primitivo ao alimento do corpo e da mente, à intimidade de quem se ama, respeita e quer.


 


Pão fatiado a preceito, uma prova de queijos, um mestiço (ovelha e cabra) outro de cabra, um chouriço bem curado, vinho tinto Couteiro-Mor escolha 2010, requeijão acabado de fazer com doce de abóbora de outros natais, a chuva forte nas janelas e uma luz que se espalha, discreta, pela sombra da noite.

Largo de Sto. António

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E pronto, já chegámos ao Outono, portanto ao Inverno. Não há ano em que o início de Novembro, com a habitual peregrinação a terras beirãs, não seja o princípio do frio e da chuva. Por muito bom tempo que esteja antes, no dia da feira arrefece e chove.


 


Muita gente mas pouca feira. Encolheu e especializou-se: castanhas foram mais que muitas, queijos e enchidos (maravilhosos) menos, muitíssimas tendas com roupa e sapatos; jeropiga para vários gostos, castanhas mais ou menos assadas e farturas, obviamente, quentes e polvilhadas de açúcar e canela.


 


Este ano houve um extra: como de costume as ruas onde montam as tendas ficam interditas ao trânsito e ao estacionamento. O largo de Sto. António é uma boa alternativa e costumo lá deixar o carro, todos os anos. Desta vez havia um lugarzito bem bom encostado ao passeio e lá deixei o reluzente carro, acabadinho de lavar no dia anterior.


 


Na manhã seguinte, quando o fui buscar, pensei que tinha havido uma limpeza de esgotos na cidade dos pombos, imediatamente acima do tejadilho do meu maravilhoso veículo, numa frondosa árvore. Era tanta porcaria, nos vidros, nas portas, misturada com penas, que parecia o resultado de uma guerra intestina (literalmente) da passarada.


 


Quando comentei, entre o ultrajada e ofendida, o facto com familiares, a frase - Onde o deixaste? No largo de Sto. António? - vinha acompanhada de um imparável sorriso de gozo misturado com pena, de quem já sofreu ou viu sofrer agruras semelhantes.


 


Antes de me vir embora a primeira coisa que fiz foi procurar um local onde pudesse lavar aquela bodeguice. Ao chegar à oficina o senhor que lá estava, com o mesmo imparável sorriso de gozo misturado com pena comentou - Ah, foi no largo de Sto. António...


 


Fiquei a saber que o Largo de Sto. António deve ser conhecido como o cagatório público dos pombos alcainenses.

Naco na pedra

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A ideia de quatro dias inteirinhos e seguidos de férias animam qualquer um (ou qualquer uma) com o gozo dos pequeníssimos prazeres e rituais de lazer multiplicados por… infinito. Não sei se apenas pelo distender da falta de compromissos ou se pela curiosidade inata da minha pessoa, surpreendo-me muitas vezes com as cenas quotidianas.


 


Na calmaria de um almoço banal, com a única diferença de ser dia de semana e eu não estar a trabalhar e, além disso, estar muito bem acompanhada numa conversa amena e confortável, a degustar um polvo salteado com migas de espinafres, reparo na senhora que se sentava mesmo ao meu lado: cerca de cinquenta e tal anos, compacta sem ser gorda, cabelo penteado para fora, óculos com aros de massa, túnica de cor bordeaux e calças mais ou menos do mesmo tom, com um ar afirmativo e assertivo de quem manda e gosta de mandar. Repentinamente afasta irritada uma pedra que fumegava com uns nacos de carne em cima:



- Não sou capaz de comer isto assim; agonia-me a carne crua!



O empregado, solícito, sugere à senhora um bifinho da vazia ou do lombo, ou as outras iguarias que se ofereciam no menu. A senhora, soberba e mal-educada:



- Como só a salada!



O desgraçado do companheiro da frente fez-se mais magro e mais cinzento do que já era, murmurando qualquer coisa para dentro do prato e concentrando-se na sua própria refeição. Pouco tempo depois ambos abandonaram a mesa, ela com a mesma ferocidade indignada, deixando no prato os despojos do tomate da salada que, pelos vistos, também a enjoavam.


 


Enfim, há algumas coisas que se me afiguram misteriosas: se uma pessoa se agonia com carne crua, porque escolhe para o almoço naco na pedra?

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...