A ideia de quatro dias inteirinhos e seguidos de férias animam qualquer um (ou qualquer uma) com o gozo dos pequeníssimos prazeres e rituais de lazer multiplicados por… infinito. Não sei se apenas pelo distender da falta de compromissos ou se pela curiosidade inata da minha pessoa, surpreendo-me muitas vezes com as cenas quotidianas.
Na calmaria de um almoço banal, com a única diferença de ser dia de semana e eu não estar a trabalhar e, além disso, estar muito bem acompanhada numa conversa amena e confortável, a degustar um polvo salteado com migas de espinafres, reparo na senhora que se sentava mesmo ao meu lado: cerca de cinquenta e tal anos, compacta sem ser gorda, cabelo penteado para fora, óculos com aros de massa, túnica de cor bordeaux e calças mais ou menos do mesmo tom, com um ar afirmativo e assertivo de quem manda e gosta de mandar. Repentinamente afasta irritada uma pedra que fumegava com uns nacos de carne em cima:
- Não sou capaz de comer isto assim; agonia-me a carne crua!
O empregado, solícito, sugere à senhora um bifinho da vazia ou do lombo, ou as outras iguarias que se ofereciam no menu. A senhora, soberba e mal-educada:
- Como só a salada!
O desgraçado do companheiro da frente fez-se mais magro e mais cinzento do que já era, murmurando qualquer coisa para dentro do prato e concentrando-se na sua própria refeição. Pouco tempo depois ambos abandonaram a mesa, ela com a mesma ferocidade indignada, deixando no prato os despojos do tomate da salada que, pelos vistos, também a enjoavam.
Enfim, há algumas coisas que se me afiguram misteriosas: se uma pessoa se agonia com carne crua, porque escolhe para o almoço naco na pedra?
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