28 abril 2013

Ainda os discursos

 


Não falei ainda do discurso de Alberto Costa, porque não o ouvi com atenção. Mas depois de o ler, penso que foi um dos melhores discursos da cerimónia, fortemente crítico ao governo, elevando a Constituição, o Estado de Direito e a Igualdade como corolários da revolta de 1974. Em Portugal e na Europa, é preciso lembrar o 25 de Abril, pois varre o espaço europeu o vento da desunião, do populismo, dos direitos dos mais fortes e dos deveres dos ais fracos:


(...) Quando se privilegia o que é mais fácil, quando se constituem como alvos preferenciais os que não podem reagir, quando em primeiro lugar se atingem os mais débeis, os doentes, os desempregados, os pensionistas, os idosos – fere-se a dignidade e a coesão, e transmite-se uma mensagem perversa à sociedade. (...)


(...) Falhar o teste constitucional uma vez neste domínio não é preterir uma formalidade. Falhá-lo duas vezes no teatro da crise é cometer suicídio de credibilidade. (..)


(...) Se a Europa de que falamos é uma Europa de todos os europeus, se fazem sentido coesão, convergência e solidariedade, então não pode aceitar-se que resulte da crise atual uma espécie de “constituição perversa”, onde alguns se qualificam no exercício dos seus poderes e outros no cumprimento dos seus deveres. Esta fractura significaria, à escala da União, a negação do princípio da igualdade: o regresso da Europa aos fantasmas do seu passado. O estigma e a punição, a expiação e a recompensa, no limite o domínio e a obediência, teriam força normativa e a coesão e a solidariedade desceriam do programático ao nominal. O domínio das ideias únicas, do pensamento sem alternativas autorizadas – essa forma mental de convocação da submissão – corre o risco de ser a reedição, em moderno, daquelas pretensões que juncam a história do continente. (...)


(...) Como em muitos momentos difíceis que o nosso país atravessou, a sociedade está pronta. E por isso, nos dias que atravessamos, comemorar o 25 de Abril, releva da esperança. É pois com esperança que, em nome do Partido Socialista, presto homenagem aos que lutaram para que o 25 de Abril acontecesse, aos que lutaram para que tivéssemos uma Constituição democrática e para que, acima das leis, lhe pertencesse a supremacia. (...)


(...) Falamos da crescente tentativa de dividir a Europa entre um Norte, que trabalha, e um Sul, que descansa; entre um Centro, que poupa, e uma Periferia, que gasta. Esta alegada divisão é absolutamente inaceitável. A Europa só faz sentido com os países do Sul, com os países do Centro e com os países do Norte. A Europa triunfará unida, mas cairá se for dividida. (...)


 


Também Cecília Meireles fez um excelente discurso, do qual realço:


(...) convém começar por deixar claro neste momento a leitura abrangente que fazemos desta data. Uma leitura que compreende o próprio dia 25 de Abril de 1974, como o último dia de um regime autoritário que felizmente terminou. Uma leitura que abarca também um outro dia 25 de Abril, mas de 1975, como a data em que, pela primeira vez, todos os portugueses puderam exercer o direito de votar em eleições realmente livres. Finalmente, uma leitura de um processo que culminou no 25 de Novembro de 1975. A data em que a legitimidade democrática triunfou, como manifestamente o povo queria que triunfasse, sobre a legitimidade revolucionária. (...) 


(...) Cumprir Abril é sabermos honrar o direito que nos legaram de fazermos escolhas pela nossa própria cabeça, é fruirmos a liberdade de o podermos fazer sem medos nem temores, e é cumprirmos o dever de defendermos, até ao limite das nossas forças, aquilo que acreditamos ser o melhor para o nosso país. (...)


(...) a economia social de mercado e o modelo social europeu, na sua raiz e no seu destino, são obra conjunta e património reivindicável de três grandes famílias políticas: a democracia-cristã, a social-democracia e o socialismo democrático. (...) 


(...) Falamos da crescente tentativa de dividir a Europa entre um Norte, que trabalha, e um Sul, que descansa; entre um Centro, que poupa, e uma Periferia, que gasta. Esta alegada divisão é absolutamente inaceitável. A Europa só faz sentido com os países do Sul, com os países do Centro e com os países do Norte. A Europa triunfará unida, mas cairá se for dividida. A História ensinou-nos já muitas vezes, frequentemente através de conflitos trágicos, que a Europa será coesa, ou não será. (...)


(...) Mas a esta responsabilidade com que Portugal se compromete, corresponde necessariamente um princípio – diria mesmo, um sentimento – de solidariedade entre todos os europeus. Responsabilidade e solidariedade não são apenas dois valores. São dois pressupostos essenciais que não poderão sobreviver sozinhos. Um é condição imprescindível do outro. (...) 


(...) Por último, mas porventura o mais importante, temos que tudo fazer para reconquistar o valor mais importante numa sociedade – a Confiança. Não apenas a confiança que devemos inspirar junto dos nossos parceiros europeus, dos nossos credores ou das instituições internacionais. Essa é, sem dúvida, muito importante. Mas verdadeiramente fundamental é a confiança que temos que ter em nós enquanto país, enquanto nação, e enquanto portugueses. (...)


 


O PS tem razões para se contentar. Com excepção do PSD e do PCP, estes discursos mostram que poderão ser construídas pontes, uma base mínimo de entendimentos de base programática e/ou parlamentar que possibilite a construção de uma alternativa ao desastre deste governo, até porque não é crível a hipótese de maiorias absolutas nas próximas eleições (Qual o objectivo de coligações após uma maioria absoluta? Populismo, a quanto obrigas.).


 

Das alianças

 


Em relação à política de alianças que o PS deve esclarecer, devemos ter em conta não só a necessária mudança dentro do PS mas também a indispensável alteração da prática e do discurso de Paula Santos (PCP) que, na sessão solene de comemoração do 25, na Assembleia da República, conseguiu dizer, perante os deputados eleitos pelo povo:


"(...) E mesmo após 37 anos de política de direita e de sucessivas subversões da Constituição, as forças da política de direita ainda não conseguiram aniquilar o património de liberdades e direitos conquistados com a Revolução de Abril. (...)"


 


É notório o respeito que este partido tem pelos valores de Abril e pela


"(...) luta da classe operária e dos trabalhadores, dos intelectuais, dos militares, dos comunistas e de todos os democratas, que pôs fim a 48 anos de obscurantismo, de opressão e de repressão, de tortura, de censura, da pobreza e miséria e de analfabetismo. (...)"


 


Pelo contrário, o discurso de Catarina Martins (BE) realçou porque é tão necessário relembrar o 25 de Abril e o contrato social que inaugurou:


(...) Foi essa crença em Portugal e nos portugueses, a ideia que o destino do país não estava confinado à mediocridade pobre mas remediada, que nos trouxe essa clara madrugada. Dizia Salazar em 1962, resumindo quatro décadas de isolacionismo, que “um povo que tenha a coragem de ser pobre é um povo invencível”. Foi este o fardo cultural quebrado por Abril. (...)


(...) A democracia mobilizou um país. Uniu-o, nas suas diferenças, em torno de dois ou três consensos que perduraram quatro décadas. Portugal não pode viver isolado, e abrimo-nos ao mundo; Portugal não está condenado ao empobrecimento, e construímos um estado social. Temos orgulho nisso. (...)


(...) O estado social tem o peso exato da nossa democracia. É imperfeito, como tudo na vida, e temos a ambição de que seja melhor e mais presente. Mas nunca passou pela cabeça de ninguém voltar atrás, desistir da dignidade, quebrar os consensos fundadores da democracia.


Até agora. (...)


(...) O estado social é o cimento da democracia, a coesão solidária que nos faz cidadãos. Porque a democracia não existe sem liberdade, e não há liberdade sem dignidade e sem igualdade, é a liberdade que esta direita coloca em causa. (...)


(...) Um povo condenado a ser pobre emerge novamente como discurso oficioso de quem governa o país. (...)


(...) E onde há desligamento entre o Povo e os governantes, a democracia congela e ressurgem todas as ameaças populistas: o discurso antipolíticos e antissistema, o desejo de soluções autoritárias milagrosas. Não deixaremos. Hoje, mais do que nunca, é preciso devolver a voz ao Povo português para que ele seja senhor do seu destino e inaugure uma nova madrugada. (...)


 


Apenas se tem falado do discurso de Cavaco Silva, mas vale a pena ouvir com atenção todos eles, nomeadamente o de Carlos Abreu Amorim que, a (des)propósito das assimetrias territoriais no desenvolvimento do país, conseguiu referir a imprescindibilidade dos consensos, palavra que o PSD e o governo descobriram nas últimas semanas. De facto, há muitos moluscos com carapaça na nossa realidade política.


 

Sugestões para o XX Congresso Nacional do PS

 

 O Tango dos Malandros 


 Rodrigo Leão


 


 


Guitarrada


 

Custódio Castelo

 

Mofo

 



 


Há uma miríade de políticos, politólogos, sociólogos, psicólogos, comentadores e jornalistas a diagnosticarem o esgotamento destes modelos partidários, a constatarem o divórcio entre eleitores e eleitos e a clamarem por novas modalidades.


 


Mas nem na propaganda e na organização dos congressos partidários há uma réstia de imaginação, um lampejo de novidade. As bandeiras, as palmas, os abraços, a retórica inflamada e dramática, a oratória vazia e a música que acompanha a entrada do líder, os fatinhos e as gravatas, tudo igual a sempre, tudo a cheirar a mofo, tudo sabe a ranço. Falta espontaneidade, arte, descontracção, falta a genuína discussão de ideias, falta tudo o que pode mobilizar as pessoas.


 


Acreditar em quê?


 

Imprensa Falsa

 



Jornalismo a sério.


 

À Presidência (1)

 


 



Eduardo Ferro Rodrigues


 

A República precisa de um Presidente

 



 


É bom que comecemos todos a pensar em quem deve substituir Cavaco Silva, de forma a devolver a dignidade a um cargo que tem sido amesquinhado e menorizado por este Presidente da República.


 


Cavaco Silva não sabe responder ao tempo que vivemos, não é capaz de ser uma referência de equilíbrio e apartidarismo, não representa o País nem garante a Constituição que jurou defender.


 


Após 39 anos da fundação do regime democrático, há que fazer uma profunda reflexão, iniciando pelo papel e importância das Instituições, a começar pela Presidência da República. E um indispensável passo para essa inevitabilidade é que seja eleito um Presidente em quem possamos confiar e de quem nos possamos orgulhar.


 

Congresso sem respostas

 



 


O PS está em congresso, o último antes das próximas eleições legislativas. Para além das críticas a Cavaco Silva e das juras de união do partido, sufragadas por António Costa, Pedro da Silva Pereira, Francisco Assis e outros, continuamos a ouvir dizer a todos os protagonistas que é necessário apresentar uma alternativa credível ao governo PSD/CDS.


 


Infelizmente ainda não apareceu. Não há nada nos discursos que se ouvem, para além da já conhecida mão cheia de frases feitas, como agendas para crescimento e pactos para o emprego, que nos dê um vislumbre das soluções do PS.


 


Onde está a definição de uma política de alianças para a construção de um governo maioritário? É com o CDS, com o PSD ou com o BE e/ou PCP? Quais as condições? Qual a plataforma de entendimento, baseada em medidas concretas para uma legislatura? E os parceiros sociais? O que fazer em relação à renegociação do memorando de entendimento? Qual a força negocial e quais as contrapartidas que um governo liderado pelo PS teria a negociar?


 


Onde estão as medidas para acordar em meio de concertação – a reforma do Estado, as leis laborais, a manutenção do estado social, com os apoios aos desempregados, a definição de salários mínimos, as alterações nas reformas, a continuidade do SNS com a indispensável aposta nos cuidados primários, retirando o centro do SNS da rede hospitalar?


 


Onde está a resposta às críticas à política de Educação deste governo? O que fará em termos de política fiscal? Devolve as remunerações aos cidadãos ou mantém o confisco que o governo decidiu? O que vai fazer em relação aos transportes públicos, à política energética, à reordenação e reorganização territoriais? E na justiça, o que vai mudar? Onde está o programa, onde está a alternativa, onde está a credibilidade que tanto negam a Passos Coelho?


 


António José Seguro pode exercitar a sua face mais responsável, encenar indignação e pose de estado; não será o coro de agradáveis congratulações que devolverá a esperança a todos os que anseiam por mudanças. Queremos acreditar mas não basta querer – são precisas respostas, muitas, importantes e já.


 

27 abril 2013

Muros

 



Matteo Pugliese


 


Tenho pena que se não tenha realçado o discurso de Assunção Esteves, que enalteceu a política como a mais pura forma de agir em prole da sociedade, e a democracia como a organização moral que nos pode impelir contra os muros da descrença na solidariedade, justiça e no combate à pobreza, que são as bases da liberdade.


 


Infelizmente, este é um tempo de negação da política e da democracia em si mesmas, com quotidianos desenganos e desilusões, chegando-se ao extremo de termos um Presidente da República que nega a fundação do regime no próprio dia em que ele se celebra, na casa de todos nós, ou seja, no Parlamento.


 


Estamos a assistir à transformação da política num romance de cordel, feito de declarações de amor e ódio, de exigências de perdão, cartas e ramos de flores, arrufos de namorados e jantares de velas e perfumes enjoativos. Os partidos enviam aos seus jornalistas as notícias que lhes convêm, e de indignações em indignações passam os dias, sem que se vislumbrem quaisquer resquícios de sensatez, para já não dizer, rasgos de ideias e de imaginação.


 


A classe média arranja-se aos domingos, regressando os dias de ver a Deus, com penteados bem armados, carteiras dos fundos dos armários e blusões clássicos sem cor, espera na fila do restaurante o menu de prato pequeno, meio de quente e meio de salada, transportando o empobrecimento em tabuleiros de cor baça. Aguarda um qualquer ditador que lhes garanta um salário ao fim do mês.


 

25 abril 2013

Liberdade

 



 


Será só mais um dia de marcha lenta


em que o sol não ilumina a solidão


que se passeia pela avenida.


Ouço a palavra que comove.


Sem qualquer razão e ciclicamente


levantamos o olhar.


 

21 abril 2013

Folhetim

 



 


Tiago Taron


 

Nada mal

 



 


Não foram de couve mas de brócolos. Depois de cozidos em água e escorridos, foram a fritar em azeite, alho e bocadinhos de bacon, aos quais se juntaram 3 bolinhas de pão seco, raladas no 1-2-3. Acrescentou-se um pouco de água, só mesmo para demolhar ligeiramente o pão, sal e pimenta.


 


O coelho foi assado na marinada, acamada com cebola às rodelas fininhas e tomate maduro sem pele. Cerca de 1 hora no forno, regado com um pouco de azeite e xarope do ácer, é mesmo a única forma de deglutir o coelho.


 


A sobremesa da semana foi uma tigelada. Na verdade não se comeu nada mal.


 


Caricatura de Passos Coelho daqui.


 

Resistir


 

Ruir por dentro

 



 


Também no Público de hoje se publica uma entrevista com Anselm Jappe, que tem uma abordagem em relação à lógica de trabalho, tal como a entende o sistema capitalista, que eu acho muito interessante. Se bem compreendi, a ideia de trabalho medido à hora independentemente do serviço que se presta, a competitividade e a produção em massa, em que se cria a necessidade de consumir e que precisa desse consumo, está a reverter, porque a evolução tecnológica e o aumento consequente do desemprego conduz a um menor consumo. Ou seja, o capitalismo está a ruir por dentro.


 


Qual a solução? Ele próprio não sabe. Mas o facto de haver quem questione esta lógica perversa, do produzir mais e mais, sem ter em conta o significado do trabalho como resposta às necessidades da sociedade, desde a manutenção à assistência, já é uma lufada de ar fresco.


 

Insónias

 


Nada como começar o dia com o Inspector Jaime Ramos, as insónias, minhas e dele, e a forma como as vencemos - eu a ler as suas aventuras, ele a cozinhar tortilha de chouriço e batatas salteadas, com uma nuvem de colorau. Também conversamos sobre ideias para o almoço, entre elas a novidade de um arroz de sardinhas.


 


O mais engraçado é que o café da manhã de domingo, hoje numa esplanada aquecida pelo sol que ilumina estes dias de luto, o Público tem precisamente uma entrada sobre a culinária de Jaime Ramos e sobre "O coleccionador de Erva". A ideia de se fazer um livro com as receitas de Jaime Ramos parece-me fantástica. Também Maigret nos brindou com uma colectânea de receitas, essas mais pesadas que as de Jaime Ramos. Cá em casa experimentámos a brandade de bacalhau e mouclade dos mexilhoeiros.


 


O arroz de sardinha terá que ficar para outro dia. Entretanto vou assar um coelho, que já está a marinar, com tempero de sal, louro, pimenta, alho, alecrim, tomilho, vinho e um golpe de vinagre. Ainda não sei bem como acompanhar o assado, mas estou a pensar em algo do tipo migas de couve. Logo se verá, conforme a inspiração do momento.


 

14 abril 2013

Tijoleira

 



 


Viu toda a sua vida naquela tijoleira que cobria o primeiro e segundo andares, nas mobílias rústicas que combinavam madeira de castanho com sobriedade e segurança, uma rectidão à sua volta a irmanar com a moralidade protestante, nos percursos directos e triunfantes de estudantes dedicados e filhos sem mácula nem desvios, naquela fé de burguesia instalada em como tudo correrá bem porque as regras foram escrupulosamente cumpridas, porque o amor existia em qualidades e quantidades apropriadas, porque a honestidade era o esteio da vivência e a comunidade familiar era uma superfície mais ou menos lisa a barrar tumultos feios e decrépitos.


 


Tudo se desconjuntava e a razão não a compreendia, pois se o universo seguia uma lógica, ela não fora ignorada. Pois se nunca os sonhos tinham tido a ousadia de se sobreporem à realidade, se a mediania bem pensante e de claros e escuros bem definidos tinha atapetado o quotidiano, se a chuva se defendia com gabardine e os ombros se descobriam com as temperaturas tórridas, não se explicava a depressão insidiosa e larvar perante o inusitado do desencontro entre o que se espera e o que realiza.


 


Tudo começava a cheirar a mofo e a desatenção, enquanto se enrolava e aconchegava à sua voz, cada vez mais silenciosa e desbotada. Reduzindo a superfície e o volume talvez as ondas provocadas pelo seu próprio corpo desaparecessem e deixassem de despertar magnetismos incoerentes no arranjo das desconhecidas dimensões que acrescentam o tempo e o espaço.


 

07 abril 2013

Um dia como os outros (127)

 



(...) o que vale a pena é chamar a atenção para o facto de, ao acusar o tc de todos os males, o primeiro-ministro estar obviamente a acusar quem pediu a intervenção do tc.


ou seja, as instituições democráticas por excelência, a começar pelo presidente da república, que submeteu a apreciação da inconstitucionalidade, arguindo por esta, três normas do orçamento no valor de cerca de 1500 mil mihões. o tc concordou com o presidente em duas delas, que perfazem mil milhões. ou seja, de acordo com o discurso de passos, o presidente é, com o parlamento (os deputados que solicitaram a apreciação do tc) e o provedor de justiça, responsável pela crise política e pelo facto de o país estar numa situação 'muito mais difícil'. (...)


 


Fernanda Câncio


 

Da vingança do governo

 


O discurso do Primeiro-ministro não só reescreveu a história como indicou a linha política que sempre foi a sua e que agora assume, culpabilizando o Tribunal Constitucional - reduzir as despesas nas áreas da saúde, da educação e das prestações sociais. Não esclareceu o significado da decisão, mas podemos aguardar despedimentos e redução permanente de remunerações na função pública.


 


Entretanto o líder do PS, o maior partido da oposição, que tem passado os últimos dias a pedir eleições para assumir o poder, resguardou-se não sei bem para que altura e, em vez de responder de imediato ao discurso vingativo e ressentido de Passos Coelho, fez-se substituir por João Ribeiro que, independentemente do respeito que nos merece, não é o candidato a Primeiro-ministro.


 


De facto estamos encurralados entre um governo de desgraça nacional e a futura incapacidade nacional. Entretanto, Sócrates aproveita para fazer política,  arrasando a estratégia do governo.


 

06 abril 2013

Da salvação

 


Numa coisa estou de acordo com António José Seguro. O PS só deve ir para o governo após eleições. Governos de salvação nacional não me parecem a solução. Ou este governo se mantém ou vamos para eleições.


 

Pequena parte

 


Ninguém pode acreditar que o governo não tinha preparado a previsível opinião do Tribunal Constitucional. Mesmo que esperasse o melhor, tinha que ter estudado o pior cenário. Colocar a hipótese de que não havia noção deste desfecho, é passar um atestado de ainda maior incompetência a este Primeiro-ministro, a esta maioria governamental.


 


É claro que a estratégia é culpar tudo e todos do que se está a passar. O que está errado é a existência de um Tribunal Constitucional, de uma Constituição, de um povo português e de um povo europeu que não se comportam como Vítor Gaspar observa nos modelos que projecta. Ou seja, o governo não se demite e tenta fazer crer que a seguir virá o dilúvio.


 


É deste tipo de irresponsabilidade e de cegueira que não precisamos. António José Seguro espreita a sua oportunidade. Estamos rodeados de políticos que não se apercebem do todo, só vêm a sua pequena parte. Se houver eleições agora, a abstenção é capaz de vencer, quase com maioria absoluta.


 

Apostas

 


Como se previa, o governo culpa o Tribunal Constitucional por todos os males que hão-de vir. Também os comentadores das várias televisões o fazem, de forma mais ou menos explícita. Ou seja, o Tribunal Constitucional é uma força de bloqueio.


 


O pedido de audiência urgente a Cavaco Silva poderá significar o pedido de demissão do governo. Deve haver apostadores frenéticos, arriscando desfechos mais ou menos dramáticos. Mas em democracia há sempre alternativas, enquanto as Instituições funcionarem.


 

Dos nossos enormes problemas

 


Realmente estamos muito precisados de algo ou alguém que nos mobilize, que nos tire do casulo cinzento que esta governo e esta maioria nos construiu. Mas infelizmente não é António José Seguro nem a sua retórica, vazia de projectos e de força, que traduzem a tão almejada esperança.


 


Por maior que seja o desejo de que este governo seja substituído e esta maioria derrotada, pelo que significa de retrocesso e de empobrecimento do país, não vejo que o parlamento resultante de novas eleições nos possa proporcionar um enquadramento político que resulte numa alternativa à recessão e ao desemprego. Primeiro porque o PS não explica, concretamente, quais as medidas exactas que entende poder tomar para cumprir os compromissos que assumiu e, ao mesmo tempo, reverter a trajectória descendente em que navegamos. E depois porque o líder do PS não convence ninguém da sua capacidade de negociar com os outros parceiros e com a Troika.


 


Por outro lado, nem o PCP nem o BE são forças políticas em quem se confie o voto para que façam parte de uma solução de alianças ou acordos parlamentares, no sentido de se formar um governo de base alargada à esquerda. Estes partidos têm sido aliados das forças mais reaccionárias da sociedade, resistindo a qualquer empenho de mudança e defendendo acerrimamente o status quo, independentemente da suposta ideologia professada. Estando o CDS à beira de um desastre eleitoral, apesar dos contorcionismos de Paulo Portas e de outros membros do partido, restaria uma solução minoritária com o PS, o que não é solução. Cavaco Silva tem um imbróglio para resolver, imbróglio que ele próprio patrocinou.


 


Em tormentas estamos e em tormentas iremos continuar. Aguardo as medidas adicionais que o governo vai anunciar. Pelo que se tem ouvido, vai continuar a austeridade a todo o custo, pois as boas notas deste maravilhoso aluno não garantem o alívio da tutela com a adopção de medidas menos gravosas para os cidadãos.


 

05 abril 2013

Legalidade reposta

 


A perplexidade é minha ao ouvir o PSD declarar a culpa do Tribunal Constitucional e a responsabilizá-lo por mais aumento de impostos. Não é possível tamanha tacanhez e obtusidade política.


 


Para variar o Presidente declarou algo importante - as decisões do Tribunal são para cumprir. Portanto, se Passos Coelho não aproveita para mudar de ministro das Finanças e refazer o orçamento, após renegociação do memorando com a troika, não terá o aval do Presidente.


 


Que fará agora o CDS? Vai aguentar uma nova carga fiscal ou desfaz a coligação?


 


Esta é a salvação de que Passos Coelho falava - o nosso reino será mesmo de outro mundo.


 


 

Mistério segundo

 



milagre


Gao Xingjian


 


Segundo mistério o homem desaba entre


os muros de uma cidade sitiada. À volta


fervem vapores sulfúricos gritam mil cabeças de ganso.


Segundo o mistério que nos desequilibra vale mais


a acidez de uma queda que a extrema volatilidade


das almas.


 

04 abril 2013

Remodelação

 


Miguel Relvas demitiu-se. Pelo que ouço e leio nas televisões e jornais online terá sido por causa de um relatório sobre a Lusófona.


 


Na verdade parece-me que, com ou sem relatório, este será o tiro de partida para a remodelação governamental. Com a decisão do Tribunal Constitucional a ser, ao que tudo indica, mais uma derrota para o governo, poderá ser a oportunidade de Passos Coelho para substituir alguns ministros, nomeadamente Vítor Gaspar.


 


A demissão do executivo provocaria novas eleições pois António José Seguro já afirmou categoricamente que não fará parte de um governo sem eleições prévias. Mas para Cavaco Silva essa será a última das últimas opções. Por outro lado, com António José Seguro à frente do PS o quadro parlamentar resultante de novas eleições seria, muito provavelmente, ainda mais complicado do que este - o PS não teria maioria absoluta e não se vislumbram grandes hipóteses de alianças à sua esquerda.


 


Mas o maior problema é mesmo o líder do PS. Sem mudança de liderança o PS não é alternativa, como ficou bem patente na discussão parlamentar da moção de censura, em que o problema do envio de uma carta à Troika, dominou as perguntas e a atenção dos media.


 


Tanta mediocridade dói. E enquanto não se sentir que há uma alternativa credível a esta inqualificável situação, protagonizada pela maioria PSD/CDS, governo, Presidente da República e PS, arrastar-nos-emos penosamente sem ânimo nem esperança.


 

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