Viu toda a sua vida naquela tijoleira que cobria o primeiro e segundo andares, nas mobílias rústicas que combinavam madeira de castanho com sobriedade e segurança, uma rectidão à sua volta a irmanar com a moralidade protestante, nos percursos directos e triunfantes de estudantes dedicados e filhos sem mácula nem desvios, naquela fé de burguesia instalada em como tudo correrá bem porque as regras foram escrupulosamente cumpridas, porque o amor existia em qualidades e quantidades apropriadas, porque a honestidade era o esteio da vivência e a comunidade familiar era uma superfície mais ou menos lisa a barrar tumultos feios e decrépitos.
Tudo se desconjuntava e a razão não a compreendia, pois se o universo seguia uma lógica, ela não fora ignorada. Pois se nunca os sonhos tinham tido a ousadia de se sobreporem à realidade, se a mediania bem pensante e de claros e escuros bem definidos tinha atapetado o quotidiano, se a chuva se defendia com gabardine e os ombros se descobriam com as temperaturas tórridas, não se explicava a depressão insidiosa e larvar perante o inusitado do desencontro entre o que se espera e o que realiza.
Tudo começava a cheirar a mofo e a desatenção, enquanto se enrolava e aconchegava à sua voz, cada vez mais silenciosa e desbotada. Reduzindo a superfície e o volume talvez as ondas provocadas pelo seu próprio corpo desaparecessem e deixassem de despertar magnetismos incoerentes no arranjo das desconhecidas dimensões que acrescentam o tempo e o espaço.
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