01 maio 2011

Manter a sanidade mental

 



Kyee Myintt Saw: Market of Umbrella


 


Começa a ser muito difícil sacudir o asco que sinto quando ouço as pseudo-elites classificarem o estado do país com os superlativos que vão descobrindo, cada vez mais entusiásticos, dramáticos e entediantes, de tão superficiais.


 


Não há vislumbre de discussão sobre a ideia de qual o modelo social, qual o modelo de desenvolvimento que politica, económica e culturalmente se pensa para Portugal. É preciso crescimento, mas como? É preciso reduzir despesas, mas quais? É preciso privatizar serviços do estado, mas quais os custos sociais que estamos dispostos a suportar? É preciso parar com o investimento público, nomeadamente no TGV e no novo aeroporto, mas então qual o modelo de futuro se tem em mente?


 


A noção de democracia vai encolhendo dia a dia ao ouvirmos as inacreditáveis declarações daqueles em quem deveremos votar, como a criminalização das responsabilidades políticas e a subalternização da política à economia. Os diferentes actores, nas diferentes áreas de actividade, vão-se posicionando não se sabe exactamente porquê e para quê.


 


Leio a preocupação da Ordem dos Médicos em relação às consequências das restrições financeiras no SNS, abrindo um endereço electrónico para as queixas e denúncias sobre esse tipo de situações. É claro que a Ordem dos Médicos deve estar muito atenta a tudo o que resultar em diminuição da qualidade de tratamento dos doentes. Só que nunca me apercebi de idênticas preocupações em relação a outro tipo de riscos que envolvem redução na qualidade do tratamento, como o não cumprimento de horários, os atestados falsos, a requisição totalmente inexplicável de exames complementares de diagnóstico, a falta de comunicação, a desinformação sobre prescrição de genéricos, a incapacidade de preenchimento de processos clínicos, etc., etc., etc. Lembro-me até de ter lido nos jornais que a Ordem dos Médicos nem tinha capacidade para avaliar as queixas por mal prática que lhe chegavam.


 


Não tenho a mínima capacidade de perceber se a maior parte das pessoas, aquelas que todos os dias enchem os transportes públicos, os tais que formam um dos enormes buracos financeiros do estado e que o movimento Mais Sociedade quer privatizar, aquelas que aos sábados enchem o mercado e escolhem batatas, cebolas e pimentos, que resmungam com o preço da fruta e pedem meio frango, no talho, se dão ao trabalho de ler ou ouvir o que as pseudo-elites se entretêm a espalhar pelos media que, de uma maneira totalmente acéfala, reproduzem e replicam com ar grave e sério. Mas penso que a relativa calma que se sente não tem a ver com o amorfismo e a falta de cultura democrática do povo, com dizem os saudosos da democracia reivindicativa, de greves, manifestações e muitos chavões. A verdade é que ninguém liga nenhuma. É uma questão de sobrevivência e de salvaguarda de alguma sanidade mental.

5 comentários:

  1. pink17:29

    Subscrevo tudo o que denuncia.
    Também eu já estou farta das longas e repetidas narrativas de escárnio e maldizer,que mais não pretendem do que iliminar adversários,sem que se apresente as tão insistentemente propaladas alternativas credíveis e justas.
    Diariamente políticos,comentadores e jornalistas enchem a boca e dilatam o a nossa impaciência com frases ocas e ofensivas para a nossa inteligência,numa escalada nunca vista.
    Quanto à ordem dos médicos,parece-me estar entregue a pessoas cujos interesses estão pouco esclarecidos.
    Mencionou,e bem, um rol de questões importantes que parece não merecer da parte da ordem a devida atençºao e actuação.
    É bom haver quem sem ambiguidades ponha o dedo na ferida. Obrigada pelo desassombro!

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  2. Vitor Carvalho18:12

    No meio de tanto " ruído " , é um bálsamo lê-la !

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  3. Bem haja pela clarividência, Sofia.

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  4. Subscrevo inteiramente o que diz, Sofia. Dizê-lo melhor, é difícil.

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  5. Esta clareza luminosa que alumia tanto, tanto.

    :)))

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