31 março 2009

... e as impressões

 


É claro que já apareceram os comentadores para nos explicarem o que é que o Procurador Geral da República queria dizer, as contradições do comunicado, em que rapidamente a violação da deontologia profissional e comportamentos de magistrados do Ministério Público que intencionalmente e sem fundamento, visem criar suspeições sobre a isenção da investigação já foram transformados em pressões existentes e ameaças ao Sindicato dos Magistrados do MP.


 


E ainda por cima afirmar que tudo será investigado e inquirido, pessoas, testemunhas e contas bancárias, de quem quer que seja, são claramente declarações políticas que até ficam mal ao Procurador.


 


Eu acho que é melhor ler o comunicado. Além de que, se houve um Magistrado que mandou umas bocas infelizes os outros, isso pode ser pouco deontológico mas não ser pressão.


 


E afinal, quem eram as forças e os poderes im-pressionantes. Só o Magistrado Lopes da Mota é que deve ser inquirido? E o Sindicato dos Magistrados do MP?


 


COMUNICADO


 


 


Face às notícias amplamente divulgadas pela Comunicação Social sobre o chamado caso “Freeport”, após reunião com os magistrados titulares do processo e a Directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, considera-se necessário esclarecer o seguinte:



Os Magistrados titulares do processo estão a proceder à investigação com completa autonomia, sem quaisquer interferências, sem pressões, sem prazos fixados, sem directivas ou determinações, directa ou indirectamente transmitidas, obedecendo somente aos princípios legais em vigor;



Como os Magistrados titulares do processo expressa e pessoalmente reconheceram, não existe qualquer pressão ou intimidação que os atinja ou impeça de exercerem a sua missão com completa e total serenidade, autonomia e segurança;



A existência de qualquer conduta ou intervenção de magistrado do Ministério Público, junto dos titulares da investigação, com violação da deontologia profissional, está já a ser averiguada com vista à sua avaliação em sede disciplinar e idêntico procedimento será adoptado relativamente a comportamentos de magistrados do Ministério Público que intencionalmente e sem fundamento, visem criar suspeições sobre a isenção da investigação;



A investigação prossegue com a inquirição de todas as pessoas que os magistrados considerarem necessárias, com a análise de todos os fluxos e contas bancárias com relevância, bem como com o exame da documentação atinente, nacional e estrangeira;



Todos os elementos de prova serão analisados e todas as informações estudadas, sem qualquer limitação para além daquelas que a equipa de investigação entender decorrerem da lei;



Tem sido correcta, eficaz e dedicada a colaboração dos Órgãos de Polícia Criminal, esperando-se uma cooperação igualmente frutuosa das autoridades de outros países a quem foi solicitada, de harmonia com as leis que regem as relações internacionais;



Fracassarão todas e quaisquer manobras destinadas a criar suspeições e a desacreditar a investigação, bem como as tentativas de enfraquecer a posição do Ministério Público como titular do exercício da acção penal ou a enfraquecer a hierarquia legalmente estabelecida para o Ministério Público, atenta a firme determinação da equipa de investigação de chegar à verdade última do processo e tornar conhecidos todos os factos, logo que isso seja possível;



O Procurador-Geral da República e a Directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal têm completa e total confiança em toda a equipa de investigadores, designadamente nos elementos da Polícia Judiciária, que colaboram, como foi transmitido ao seu Director Nacional.


 


 


Lisboa, 31 de Março de 2009


 


O Procurador-Geral da República


 


(Fernando José Matos Pinto Monteiro)


 

30 março 2009

As pressões

 


De há uns tempos para cá, mas com maior abundância desde a exibição do famoso vídeo pela TVI, jornais, comentadores e o representante do sindicato dos magistrados do MP dizem que há pressões sobre os investigadores, que há forças poderosas a calarem a exercerem influências, que há interesses a querem arquivar o processo Freeport.


 


Nunca se concretiza de quem são essas pressões e quem são as forças ou os interesses poderosos, deixando no ar que é o governo, José Sócrates, figuras da administração central ou do partido do poder.


 


Há, no entanto, algumas pressões que existem e elas têm nomes. Basta ver este texto de Mário Crespo para perceber que ele já decidiu que José Sócrates é culpado, já determinou que deveria ter sido constituído arguido, ficando todos nós pasmados com a clarividência, os conhecimentos que tem da investigação a correr, o à-vontade que demonstra nos meandros da justiça. A pressão mediática para que se conclua que Sócrates é culpado é insuportável, todos os dias se falando do processo, fazendo com que o caso arda em fogo lento, fazendo crer que são os jornais e as televisões que estão a zelar pela verdade.


 


Portanto, se o processo for arquivado já está decidido porque foi: os corruptos do governo e do PS, orquestrados por Sócrates, em conluio com o Procurador Geral da República e a directora do DCIAP,  Cândida Almeida, com medo que os assassinem ou os deportem para a Madeira, cedem com ignomínia a este novo ditador, que nem sequer tem a genialidade de Salazar, esse sim, um grande líder.


 


Sobram-nos ainda os heróicos lutadores, Manuela Moura Guedes, Mário Crespo e José Manuel Fernandes, para defenderem a liberdade e a justiça, neste país cheio de medo.


 


Na minha santa ingenuidade (cega e abjecta lealdade ao ditador) penso que a quem menos interessa que se arquive o processo é mesmo a José Sócrates, pois enquanto não se provar a sua culpa ou a sua inocência, nunca se livrará desta sombra.

 

29 março 2009

Sem comentários (2)

 


Mas com este bando – eu repito, com este bando, levantem-me um processo – com este bando que tomou conta do governo de Portugal não se pensou no interesse do Estado, na unidade e coesão nacional. Pegou-se no Estado e fez-se dele um instrumento do PS para afogar o povo madeirense.


 


[José Sócrates] não pode andar nas bocas do mundo, como andou todo este mandato. Se isto fosse em Inglaterra, por exemplo, o partido maioritário continuava no poder, mas tinha já substituído o primeiro-ministro. (...) Eu não falo do Freeport porque é um caso de justiça.


 



 

Sem comentários (1)

 



 


Se as eleições fossem cá em cima, nem era preciso fazê-las. Eu ganhava com 80% dos votos. Esta gente votava 10 vezes em mim. É uma dimensão engraçada, porque em Lisboa não se tem esta leitura.


 

Ventania

 



Quarteto de cordas Emerson


Shostakovich


Quarteto de cordas nº3, III


 

As excrescências partidárias

 



 


Não sei se é a própria Manuela Ferreira Leite, se os seus assessores de campanha e estratégia política, mas da boca da líder do PSD têm-se ouvido as frases mais reaccionárias, de cunho ditatorial e de desrespeito pela democracia representativa multipartidária que tenho memória.


 


A acusação de Manuela Ferreira Leite ao Primeiro-Ministro de confundir as prioridades do país ao colocar como organizador das campanhas eleitorais o Ministro Vieira da Silva, é dos piores exemplos de populismo demagógico antidemocrático, por muito que Manuela Ferreira Leite a tente travestir de amor e dedicação ao país.


 


A existência de partidos políticos, debates, lutas políticas e eleições são a base do nosso sistema democrático. Alguém acredita que haverá menor desemprego pelo facto do Ministro do Trabalho não organizar as campanhas eleitorais do PS?


 


Ao contrário de Manuela Ferreira Leite eu penso que as eleições, nomeadamente as legislativas, são sempre importantes e, nestes momentos conturbados, cruciais para a definição política e governativa do país nos próximos quatro anos.


 


A postura de desprezo pelo debate democrático, pelos partidos políticos como excrescências mal cheirosas da democracia (em que se assemelha à de Cavaco Silva), é um péssimo contributo para a dignificação de um estado democrático.


 

Irresponsabilidade papal

 


Este editorial do The Lancet, ao qual tive acesso através do blogue A Natureza do Mal, demonstra bem a enormidade e a irresponsabilidade do Papa Bento XVI:






(...) The Catholic Church's ethical opposition to birth control and support of marital fidelity and abstinence in HIV prevention is well known. But, by saying that condoms exacerbate the problem of HIV/AIDS, the Pope has publicly distorted scientific evidence to promote Catholic doctrine on this issue. (...)



(...) UNAIDS, the UN Population Fund, and WHO released an updated position statement on HIV prevention and condoms, which said that “the male latex condom is the single, most efficient, available technology to reduce the sexual transmission of HIV”. (...)



(...) When any influential person, be it a religious or political leader, makes a false scientific statement that could be devastating to the health of millions of people, they should retract or correct the public record. Anything less from Pope Benedict would be an immense disservice to the public and health advocates, including many thousands of Catholics, who work tirelessly to try and prevent the spread of HIV/AIDS worldwide.




 


Tal como já escrevi num post anterior, não há fé que justifique uma mentira nem ignorância que se desculpe ao Papa sobre esta matéria.

 

Sistema de Justiça

 


Deve ser da ventania que faz voar a roupa das cordas, que faz abanar as janelas e bater as portas com violência. Sinto o dia desconfortável, cinzento e enervante, em que a impotência e a revolta se misturam.


 


Estamos todos entretidos com os casos mediáticos, com os media, divertimo-nos a comentar a liberdade de expressão, o mau jornalismo, a vigarice dos políticos, as eventuais pressões sobre magistrados, os investimentos públicos cujos pareceres técnicos vão mudando ao sabor de quem está, respectivamente, no governo ou na oposição, as compras de árbitros, as manipulações das estatísticas, etc.


 


Mas a verdade que me assusta é a percepção cada vez mais real da total ausência de um estado de direito. Os tribunais, os advogados, a polícia, os investigadores, parecem ser uma amálgama de gente sem definição nem valores, pertencentes a instituições decorativas e manietadas por todos, desde jornalistas, comentadores e governantes, a apaniguados partidários, enquanto o anónimo cidadão pede a todos os deuses existentes e inexistentes que o livre de, um dia, precisar deste sistema de justiça.

 

Café da esquina

 


Irritações matutinas, cíclicas, que um dia poderão explodir, enquanto nos outros dias apenas provocam um encolher de ombros ou um pequeno tilintar distraído no fundo da memória.


 


O café onde tomo o pequeno-almoço aos fins-de-semana é sempre o mesmo, porque eu gosto deste tipo de rituais. É o único que vende alguns jornais aos sábados e domingos e é por isso que lá vou.


 


A Dona é uma mulher azeda, mal disposta e mal encarada, que muda de empregadas como quem muda de camisa, pois o perfil que se observa nelas é do mais medíocre que existe, em incapacidade de tirar cafés, besuntar torradas ou somar parcelas e descortinar um total.


 


Em vez de saquetas individuais de adoçantes, com 1 a 2 comprimidos ou com pó, a Dona do café tem 2 frascos grandes de comprimidos de adoçantes que, quando não decide ela mesma adoçar os cafés com o número de partículas que ela acha que os clientes querem, andam sempre de mão em mão, com os vapores que se evolam de todas as bebidas quentes, se esfrangalham e colam, levando os ditos clientes a uma enervação permanente.


 


Outra característica interessante é o facto de, ao fim de 18 anos, a Dona ainda não ter conseguido fixar os preços dos jornais e dos maços de tabaco que vende, tendo sempre que ser os clientes a dizer-lhos. As empregadas, ou porque não estão tempo suficiente para memorizarem preços, ou porque acham que não é das suas competências, ou porque nunca compraram um jornal, ou porque lhes é manifestamente impossível, seguem os mesmos passos.


 


Para além disso, a Dona tem um carro que, haja ou não haja lugares de estacionamento disponíveis nos 500m mais próximos, pára sempre em segunda fila, hábito que vem sendo generalizado, pelo menos ao pé da minha porta. As pessoas andam 100m da porta da sua casa até às portas dos cafés (há quatro cafés num raio de 200m), em segunda ou terceira fila. Quando alguém tem que sair e está fechado, os donos dos carros sentem como normal o facto de quem quer sair para o trabalho lhes ir pedir para retirarem os seus. E pedir com jeito e por favor, porque senão ainda se é insultado.


 


Enfim, se calhar é por ter mudado a hora, mas hoje tudo isto teve uma enorme importância, por muito que sejam ninharias e disparates. Mas penso que a falta de respeito pelo próximo é cada vez maior.

 


Tenho que encontrar outro café que venda jornais aos fins-de-semana.


 



 


 

27 março 2009

Suplementos

 


Afinal o défice de 2008 é de 2,6% e não de 2,2%. Suspeito que não tarda nada teremos um orçamento suplementar do suplemento ao orçamento feito para 2009 (défice de 4, 5, 6%?).


 

...numa loja de cristais...

 


Está a ser muito interessante acompanhar o enorme desconforto com que o artigo de Marinho e Pinto, o histriónico Bastonário da Ordem dos Advogados, está a ser recebido por todos os que elegeram o caso Freeport como a razão de ser e o objectivo último da sua luta política contra Sócrates.


 


O mais desconfortável para quem leu o artigo (infelizmente não consegui acesso ao citado despacho de Julho de 2006 da Magistrada do MP Inês Bonina) é a cada vez maior convicção que todo este caso é, de facto, uma campanha negra, é a demonstração da promiscuidade entre investigadores da polícia, políticos e jornalistas, é a certeza de que a justiça não é justa, neste Portugal democrático.


 


Mas, é claro, Marinho e Pinto deve ter sido governamentalizado.


 



 

25 março 2009

"Cat among the pigeons"

 



 


Desta vez vou responder a um desafio sobre a verdade da mentira, que me foi feito pela Donagata, agradecendo-lhe também um cristalino prémio que decidiu conceder-me.


 


Tenho que descobrir em que é que a Donagata mentiu, e por três vezes, ronronando e rindo como só ela sabe.




Adoro conduzir mas tenho imensa falta de orientação. – acho que não lhe falta orientação, Donagata.

Fui ameaçada de prisão numa viagem de avião. – conheço algumas aventuras da Donagata pelos ares, mas esta escapou-me.

Adoro chá. – eu diria que era mais café.


 


Cabe-me agora mentir bem e acertar também, para que não se distingam as três inverdades, como algumas pessoas dizem e que aqui estão misturadas, esparrelas para os próximos desafiados cairem.



  • Não gosto de me levantar cedo.

  • Adoro pezinhos de coentrada.

  • Leio vários livros ao mesmo tempo.

  • Adormeço quase sempre a ver televisão.

  • Gosto muito de ir ao ginásio.

  • Tenho a vida cheia de compromissos.

  • O cabeleireiro é um dos meus vícios.

  • Não consigo fixar alguns nomes de pessoas ou lugares.

  • Perco-me dentro do meu local de trabalho.


Quanto ao prémio de cristal, após agradecimento emocionado, passo-o reverenciando outros blogues, bem mais merecedores do que eu, e que deverão responder a este (in)verdadeiro desafio: Garfadas on line, thesoundofsilence, Hora de Almoço, Grama a Grama, bonstempos hein!?.


 



 


 

Anúncios e liberdade (2)

 


Tal como o anúncio da Antena 1, o anúncio modificado pelo Bloco de Esquerda (via Arrastão) não tem graça e é estúpido, além de apelar ao proteccionismo económico e à xenofobia.


 


Pois é, podemos ver significados ocultos e pouco próprios em tudo o que entendermos. Por isso é que é bom haver liberdade de expressão e cada um dizer o que quer e interpretar o que ouve como lhe apetece.


 


Ou também devemos censurar esta nova versão?

24 março 2009

Eutanásia

 


Não é possível confundir a existência de cuidados paliativos com a defesa ou a existência legal de eutanásia ou de suicídio assistido.


 


Em primeiro lugar é preciso distinguir entre eutanásia activa, prática em que se usam meios que aceleram a morte de um doente incurável, de uma forma controlada e assistida, de forma a abreviar o sofrimento e a preservar a sua dignidade, de eutanásia passiva, em que apenas se deixam de usar os métodos que permitem prolongar a vida a um doente nas mesmas condições.


 


O suicídio assistido é diferente pois o doente, a seu pedido e não conseguindo ele próprio praticar suicídio, conta com a ajuda de alguém para o fazer.


 


Os cuidados paliativos baseiam-se no conceito de ortotanásia, tentando que os doentes tenham uma morte o mais natural possível, permitindo a evolução da doença, com suporte médico, de enfermagem, de assistência social e psicológico.


 


As palavras do Bastonário Pedro Nunes, reduzindo o debate destes temas a uma questão de poupança de muita massa é inaceitável e não é sério. Tal como na questão da despenalização da IVG, estes temas devem ser discutidos na nossa sociedade como o foi noutros países, sem que tenha sido a poupança do orçamento do estado a razão da discussão.


 


Todos os dias nos enfrentamos com dilemas morais e éticos em que nos interrogamos se vale a pena o prolongamento da vida de alguém a todo o custo (distanásia). Muitas vezes me pergunto se eu quereria um fim de vida totalmente dependente de medicamentos, dos cuidados de outros, em sofrimento, de uma morte longa e cruel ainda em vida. A minha resposta é inequivocamente não.


 


Quem defende a possibilidade de uma pessoa decidir se, quando e como quer morrer, não faz dela uma assassina em massa. A possibilidade de abreviar o sofrimento inevitável a alguém não é condenável, podendo até revestir-se de contornos desesperados e quase heróicos.


 


Reduzir estes sentimentos e estas perplexidades à poupança de massa não tem nome.

 

23 março 2009

Jade Goody (2)

 


Jade Goody morreu. Cancro do colo do útero, fatal, numa mulher de 27 anos.


 


Ouvi hoje de manhã que Jade Goody tinha sido devorada pela televisão. Fiquei a pensar nisto. Tudo se passa na televisão. Somos levados a admitir que se não foi notícia, não aconteceu.


 


Discute-se a política da crise, a crise da economia, os segredos bancários, as polícias secretas, os erros dos árbitros. Chora-se por perdão, grita-se de indignação, ri-se de pura ironia. Expõe-se a pobreza, a miséria, a ignorância, a cupidez, a ignomínia, o oportunismo, o desespero, o corpo, a saúde, a doença. Tudo público, tudo para ser visto, vasculhado, violado pelos olhares, pelos comentários, pelos juízes.


 


Mas o que devorou Jade Goody não foi a televisão nem os media. Acho até que ela soube lidar com eles, independentemente do juízo moral, do arrepio ou da complacência que possamos ter, do significado filosófico, do asco, da pena, Jade Goody tirou partido da degradação e da fome de bisbilhotice, ganhando muito dinheiro com isso.


 


O que devorou Jade Goody foi um cancro no colo do útero, que pode ser evitado e diagnosticado com um simples exame citológico. Ainda por cima no Reino Unido, um dos primeiros países a organizarem um programa de rastreio na população feminina (entre 1998 e 2008 houve uma diminuição do número de mortes, considerando todas as idades, de 1.077 para 756 - cerca de 30% menos; 3,5 para 2,3 mortes por 100.000).


 


Que fique este alerta e esta lembrança: o rastreio é a melhor solução para que não haja mulheres de 27 anos a morrerem de cancro do colo do útero.


 


Jade Goody foi usada e usou os media em seu benefício. Digamos que foi um negócio. Estranho e triste negócio, mas negócio.

 



 

21 março 2009

Naquele dia

 


 


poema de Manuel Alegre


pintura de Giacomo Balla


 


Havia dentro das palavras


multidões a correr em cada imagem


praças cheias de versos e versos cheios de


gente. Havia uma rua pela página acima


e folhas e folhas pela rua. Havia o teu rosto


na cidade. Ou talvez a cidade no teu rosto.


Havia naquele dia o que


se via e não se via. E só se ouvia


o que não se


ouvia.


Era uma surda obsessiva


litania. Ou talvez


poesia.


 


 

Próximo Provedor de Justiça

Gostava de perceber exactamente porque é que o PSD não aprova que Jorge Miranda seja o próximo Provedor de Justiça. Apenas porque não foi o PSD que o sugeriu?

Anúncios e liberdade (1)

Não costumo ouvir a Antena 1. É muito aborrecida mesmo. Por isso só vi o anúncio de que se fala na blogosfera.


 


Fico espantada com a polémica que se levantou. Realmente o anúncio é muito estúpido, não tem graça. Mas é um anúncio, imaginado e realizado por uma agência de publicidade. Vamos suspeitar que foi José Sócrates, ou alguém por ele, que o encomendou? Haja paciência.


 


Também não costumo ver a TVI. É tudo aquilo que eu abomino nos pseudojornalismo pseudoinformativo. Ao contrário de Manuela Moura Guedes, eu acho que o jornalismo deve ser informativo, se necessário incómodo. Mas não o contrário, ou seja só é jornalismo se for incómodo, agressivo, histriónico e anti-governo.


 


Ou seja: neste momento a liberdade está ameaçada e a democracia nas vascas da agonia quando há campanhas publicitárias que sugerem que os cidadãos odeiam as manifestações e quando a ERC afirma que vai investigar as queixas contra o jornal da TVI.


 


A liberdade da imprensa mede-se pela quantidade de vitupérios que se dizem contra o governo, o PS e Sócrates, em particular, atingindo e levando por arrasto tudo o que se lhe chegue, ainda que de leve.


 


Estranha concepção de democracia.

19 março 2009

As próximas medidas anticrise (2)

Afinal fui precipitada. Ao contrário do que os jornais anunciavam nas capas, e pelos vistos também as televisões, a redução de 50% nos pagamentos das prestações imobiliárias vão ser apenas reduções temporárias, a negociar um pagamento posterior.


 


É sempre assim quando acredito nos títulos dos jornais. Felizmente há blogues que nos espevitam o adormecimento.


 


É o jornalismo a que temos direito. Ainda não é desta que vem o viagra e o trimgel.

18 março 2009

As próximas medidas anticrise (1)

 



 


No próximo debate parlamentar, o governo anunciará a distribuição de viagra a pedido, grátis, para além de um creme que reduz 15 quilos em 3 dias e um elixir que faz crescer cabelo à velocidade da luz.. São as mais recentes medidas anticrise.


 


Exploração da ignorância

 


Que a Igreja perfilhe os valores da fidelidade conjugal, da abstinência sexual, da procriação e a anticoncepção natural (??), pregue e evangelize as populações, é um direito que lhe assiste. Só a segue quem quer.


 


Mas que afirme que Não se resolve o problema da sida com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o problema. é desinformação, cujas consequências poderão ser desastrosas.


 


A prevenção é sempre melhor estratégia do que apenas a terapêutica, para qualquer doença. Para uma doença infecto-contagiosa, evitar a exposição e, quando isso não é possível, proteger quem pode estar em risco (todos podemos, é importante não esquecer isso) são as melhores alternativas.. É essa a filosofia das vacinas, da poliomielite ao HPV, da Hepatite B à tuberculose.


 


O preservativo é um método de barreira comprovadamente eficaz na redução da infecção por HIV.


 


Não se pede ao Papa nem à Igreja que neguem os seus valores ou que desistam dos seus conselhos. Mas não se pode tolerar o engano objectivo e premeditado das populações. A fé não pode ser desculpa para a exploração da ignorância alheia.


 

15 março 2009

Combate político pré-eleitoral

 


A manifestação da CGTP foi, obviamente, uma manifestação apoiada e arregimentada pelo PCP e pelo BE, reunindo todos os descontentes com a situação nacional e internacional, todos os que sofrem com o desemprego, todos a quem este governo afrontou, pelas boas e pelas más razões. Foi esta como foram todas as outras manifestações organizadas pela CGTP.


 


Não se percebe portanto o horror de Carvalho da Silva e dos dirigentes dos partidos da oposição quando se afirma claramente os objectivos políticos desta manifestação. Tal como não se compreende a vitimização e a ofensa de José Sócrates por lhe chamarem mentiroso. A linguagem política, nas manifestações, nos debates políticos e no parlamento já há muito deixou de ser civilizada. Os cartazes e as palavras de ordem das manifestações organizadas pela CGTP são mais ou menos idênticas, desde que existem, apenas os nomes dos protagonistas mudam.


 


Foi uma grande manifestação, tal como foram as organizadas pela FENPROF. É uma forma de combate político e que tem que ser ouvido e entendido como tal.


 


Quanto aos sindicatos e ao sindicalismo continuam a ser extensões de partidos políticos em vez de se renovarem e de se reformarem para responder à crise do trabalho e dos trabalhadores, verdadeira e assustadora, que aumenta os marginalizados da sociedade, a pobreza, a revolta e a instabilidade social.


 


Para que tal fosse possível os que se dizem defensores dos direitos dos trabalhadores deveriam compreender que tem que haver uma alteração profunda na cultura do trabalho em Portugal.


                             


                                                                            


Adenda: ver também o post do DER TERRORIST.


 

14 março 2009

Um centímetro e meio de espessura

 





 


Ontem vi um pouco de um programa, na RTP2, em que pessoas de vários países, idades e culturas discorriam sobre o que era, para elas, a felicidade. Há uns dias, provavelmente há uma semana, deparei-me com o mesmo programa mas em que o tema era o medo.


 


Gostaria de, pegando nas palavras de Henrique Fialho quando respondeu ao desafio que lhe fiz, olhar para os livros de poesia que não chegam às 161 páginas, pequenos, estreitos, misteriosos, simples, em que o deslumbramento começa no título, continua na textura do papel, no perfume das emoções que se desprendem quando nos apropriamos das palavras, e colher deles um poema sobre estes temas ou outros.


 


E assim poderá, se quiserem (Henrique Fialho, Luís Filipe Cristóvão, Dona Gata, Eugénia de Vasconcellos, André Couto e Cláudia Santos Silva), começar outra corrente, em que serão retiradas das pilhas periclitantes que se derramam atrás das portas, encostadas às paredes, aquelas pequenas gotas de alma que ficam connosco, mesmo quando nos esquecemos delas.


 


Para começar, talvez porque as cicatrizes nos ensinam a ultrapassar a dor e a impotência, escolho como primeiro tema o tempo:


 


Esta manhã dói-me mais do que é costume

A pele

As escarificações

As cicatrizes

Doeu-me a noite de laços e espuma

Dói-me o teu corpo deitado

O silêncio

Os gritos em feixe

Dentro de mim.


 


 


Paula Tavares


Manual para Amantes Desesperados


Editorial Caminho, 2007


 

Jacqueline du Pré (3)

 



Edward Elgar: Concerto para violoncelo - 3º movimento


Violoncelista: Jacqueline du Pré


Maestro: Daniel Barenboim


 

Alçapão

 



(pintura de Loukie Hoos: space&construction)


 


No dia em que perceber onde riscámos

caminhos diferentes

longe dos laços irredutíveis que criámos

no dia em que souber apagar a aridez dos dias

desertando dos ninhos partilhados

das utopias que sonhámos


 


nesse dia poderei calar esta luz incómoda

que me persegue nos teus olhos

nesse dia poderei fechar definitivamente

o alçapão em que escondi

a minha memória.

 

Em sentido contrário

 


Claro que, pela boca de José Sócrates e dos seus incondicionais apoiantes, que aparecem por todos os telejornais, em presença física ou virtual, de Augusto Santos Silva a Vitalino Canas, passado por José Lello, Alberto Martins ou António Vitorino, Portugal começou a existir há 4 anos, pois o Gladiador tomou conta de nós.


 


Estamos bem servidos.


 


 

O pai de todos os males

 


Em termos de demagogia, Manuela Ferreira Leite não quer deixar os seus créditos por mãos alheias. O que ouvi ontem nos noticiários foi relevante.


 


Tudo o que de mal se passou neste últimos 4 anos foi culpa de José Sócrates. A crise, esta, as passadas e sobretudo as futuras, são da sua exclusiva responsabilidade. As do país, da Europa e do Mundo.


 


Estamos bem servidos.


 

A preparação do currículo

 



poema de Wislawa Szymborska


pintura de Gianni Chalambalakis


 


Que é preciso?


É preciso fazer um requerimento


e ao requerimento anexar o currículo.


 


Independentemente da duração da vida,


o currículo deve ser curto.


 


É obrigatória a concisão e boa selecção de factos,


transformar as paisagens em endereços,


e vagas recordações em datas fixas.


 


De todos os amores o conjugal é quanto basta,


e quanto aos filhos só os que nasceram.


 


Mais importante que quem conheces é de quem és conhecido.


Viagens só se ao estrangeiro.


A que aderiste mas sem dizeres porquê.


Distinções sem o motivo.


 


Escreve como se nunca tivesses falado contigo próprio


e te evitasses ao passares por ti.


 


Omite o silêncio dos cães, dos gatos e das aves,


cacaréus de lembrança, sonhos e amigos.


 


Valoriza mais o preço que o valor


e o título que o texto.


Antes o número que calça que aonde vai


esse atrás de quem tu andas.


 


A fotografia de orelhas descobertas.


 


Importa o seu formato e não o que elas ouvem.


Que ouvem elas?


O estrépito das máquinas triturando papel.


 

Do carácter

Não é falta de carácter. Isso tem Manuel Alegre que lhe sobeje. Tal como a incrível noção de que arrasta com ele, para sempre e fielmente, o tal milhão de votantes nos idos das presidenciais.


 


Pois também nos vai sobejando o tédio para tanta tendência a sair, para tanto ultimato político inconsequente.


 


Pois que venham as roturas, pois que enfrente a fera e a caçada como bom atirador, de peito aberto e alma limpa, e que finalmente o diga, com a voz de trovador que amamos, que se vai embora, que assume as suas responsabilidades encabeçando um movimento alternativo de esquerda, que se alie a Francisco Louçã, a Carvalho da Silva e a Jerónimo de Sousa para a convergência das esquerdas, para vergar este PS de direita, que oprime os trabalhadores, que mente e esconde a verdade, que está a percorrer o caminho do totalitarismo.


 


Se é isso que pensa, que seja coerente e assuma a vanguarda dos votos descontentes e que mostre qual é a alternativa de esquerda. Ou será que, tal como o BE, só pensa em ser oposição?

 

Omnipresente culpa

O que mais nos arrepia e assusta é que isto poderia ter acontecido a qualquer um de nós. Pai, mãe, irmão, irmã, a qualquer pessoa que ame desveladamente outra, por pequena e frágil e dependente que seja, pode estar horas sem que a nossa prioridade, atenção, reflexos e instintos estejam condicionados por ela.


 


O mais doloroso é imaginar a criança morta e o esfrangalhamento daquele pai, daquela mãe, daquela família estraçalhada pela culpa, pela omnipresente culpa, de que não se livrará jamais.

 

11 março 2009

Desafio vezes dois (ou três?)

 


Bem, embora já tenha respondido a este desafio, Tomás Vasques resolveu fazer-mo de novo. Não sei como, mas lá deve saber que sou do género de ler vários livros ao mesmo tempo e de não ser um primor de arrumação.


 


Sendo assim, o livro que, neste momento, tenho mesmo à medida do braço estendido é de José Eduardo Agualusa, Um Estranho em Goa, por sinal muito bom.


 


A quinta frase completa da pág. 161 é... Tremia. Verdade, é mesmo Tremia.


 


Depois de tão lacónica descrição de emoções, estendo a teia a mais cinco blogues:



 Bem, segue outra roda.


 



 

08 março 2009

Jacqueline du Pré (2)

 



Edward Elgar: Concerto para violoncelo - 2º movimento


Violoncelista: Jacqueline du Pré


Maestro: Daniel Barenboim

Todos os dias

 


O dia da mulher é todos os dias.


 


Todos os dias em que lutam pelo seu sustento, pela sua dignidade, pela sua profissão, pelos seus direitos, pela sua felicidade.


 


Todos os dias em que contam o dinheiro, em que lavam, vestem, alimentam, acarinham e castigam os filhos.


 


Todos os dias em que se olham ao espelho e esticam com os dedos a pele das rugas, em que reinventam o brilho dos olhos e da alma.


 


Todos os dias em que amam e odeiam, em que riem e choram, em que se dão e se usam.


 


Todos os dias.


 


Tal como eles.


 

Carácter

 


As declarações de José Lello são o que de pior se pode fazer. Se mandatado ou não para malhar em Manuel Alegre, a acusação de falta de carácter é mentirosa.


 


Manuel Alegre pode ser muita coisa e, ultimamente, parece estar a fazer todos os possíveis para perder a credibilidade que tinha, mas a falta de carácter é de quem assim o apelida.


 

07 março 2009

Soluções governativas

 


O pedido de Sócrates para uma nova maioria absoluta é natural e lógica. Da parte dele, do PS e de uma governação estável.


 


As maiorias absolutas têm, na minha opinião, mais desvantagens que vantagens. E a do PS de Sócrates, tal como as do PSD de Cavaco anteriormente, é disso plena demonstração. O governo tende a hegemonizar-se na discussão política, desvalorizando e desprezando os debates parlamentares. No último que vi, Sócrates não respondeu a uma única pergunta da oposição, aproveitando o tempo que lhe cabia para falar contra as oposições e fazer propaganda política.


 


Por outro lado, as maiorias absolutas de um partido apagam os debates no seio dos próprios partidos, eternizando-se a solução única, condenando-os a uma travessia do deserto após a queda do líder. Foi assim no PSD e será assim no PS.


 


No contexto político em que estamos, no entanto, no Portugal de 2009, temos uma esquerda em que o BE já afirmou que nunca viabilizará um governo do PS, nunca se coligará nem apoiará o PS, porque o seu objectivo não é governar mas ser oposição, sempre. Por outro lado há o PCP que tem uma visão da sociedade que não evoluiu desde 1974, começando no discurso de Jerónimo de Sousa e acabando no sindicalismo que lhe está afecto.


 


Se o PS não tiver maioria absoluta resta-lhe formar um governo minoritário, com o tempo de vida que se lhe adivinha, ressuscitar o bloco central, que é no que parece apostar o PSD, ou depender de Paulo Portas.


 


Portanto António Costa tem toda a razão: quem quer votar à esquerda só pode votar PS ou então arrisca-se a fazer o jogo da direita. O BE colocou-se na posição de abrir a porta a governos de ou com a direita, mesmo que a votação na esquerda seja largamente maioritária.


 


Estes são os paradoxos a que pode conduzir o populismo. Mas não será nenhuma tragédia, nem nenhum colapso governativo. Será apenas uma solução pior que a da maioria absoluta do PS.

 

Desafio

 


Nunca resisto a um desafio destes.


 


No livro que tenho mesmo à mão (Campos de Castilla, de Antonio Machado), na pág. 161, a 5ª frase completa é uma parte de um poema que se chama La Casa:


 


(...)


Al arrimo del rescoldo


del hogar borbollonean


dos pucherillos de barro,


que a dos familias sustentan.


(...)


 


É claro que vou desafiar mais cinco, tal como me compete:



Segue a roda.


 

Desigualdade persiste

 


Em tempos de crise são sempre elas as primeiras e as que mais gravemente a sentem.


 


Não só porque ganham menos que eles, como porque perdem mais rapidamente o emprego, como porque ainda têm que prover ao sustento e acompanhamento dos filhos, netos e pais.


 


São sempre mais pobres e por mais tempo. Portugal, infelizmente, não é excepção, antes a regra.


 

Ciclo vicioso

 


No DN de hoje vem uma reportagem sobre as penhoras e os endividamentos extremos das famílias.


 


Conta, entre outros casos, o de um casal com 2 filhos que tinha um endividamento ao banco de €200.000, pela compra de uma vivenda com 2 andares, jardim e garagem, quando os seus ordenados eram de €1.200 (ela) e o ordenado mínimo nacional (ele), em 2003.


 


Não perderam o emprego, não adoeceram. Apenas estavam a viver muito acima das suas possibilidades. A preocupação da senhora era como explicar ao filho mais novo porque tinham mudado de casa (andar de 3 assoalhadas). Pois, talvez fazer-lhe ver que não tem dinheiro para manter a casa grande.


 


Este ciclo vicioso de ter que aparentar uma imagem de riqueza e bem-estar, de ter que prover a todas as necessidades que imaginamos que existem às nossas crianças, de haver bancos que emprestam estas quantias de dinheiro com juros que se antecipa que serão impossíveis de pagar a curto ou a médio prazo, é o que temos que quebrar na nossa cabeça.


 

Perfeito

 



(escultura de John Dawson, bronze: lacy lovers)


1.


Encerro as mãos

fecho a usura dos dias

congelo pedras

odores a maresia

encerro o acaso

a dança dos dedos

finalizo sinais.

Sinto demais.




2.


Perfeita a tua boca na minha

perfeito gozo de antecipação

perfeita a tua mão que caminha

perfeita dor de imensidão.




3.


O dia estende-se na plenitude da descoberta

profundo e imenso como cântaros sem fim

na água que adormece a realidade.

 

06 março 2009

Jacqueline du Pré (1)

 



 


Edward Elgar: Concerto para violoncelo - 1º movimento


Violoncelista: Jacqueline du Pré


Maestro: Daniel Barenboim

Terra


(Teresa Dias Coelho)


 


Escavo demoradamente palavras

terra de raízes e pedras.


 


Cega surda aplicadamente

afundo os olhos pelo silêncio.


 


Cavo o corpo como a luz

que todos os dias apago.

 

05 março 2009

A crise

O preço do petróleo tem vindo a descer, ao contrário do preço da gasolina que se mantém altíssimo, tendo subido precisamente com o argumento da subida do petróleo.


 


Assim não me espanta nada que a GALP possa exibir os lucros que fez em 2008, imoralmente à custa dos consumidores.


 


Também gosto bastante dos défices tarifários da EDP e da necessidade de aumento da electricidade.

Ler o futuro

 


Vejo-a a tremer, magra, com cabelo grisalho, a pintura dos olhos a escorrer com as lágrimas, a custo retidas. Os dentes pouco cuidados, as mãos grandes amarfanham um lenço de papel que se desfaz.


 


Fala alto, aos arrancos, vociferando contra quem ali a enviou, quem a assustou, quem lhe apontou o crescimento rápido daquele nódulo como algo que podia ser perigoso. Pergunta com os olhos em alarme se era assim, que não podia ser assim, que não lhe doía, que desumanidade por a terem assustado.


 


Estava desempregada e tinha conseguido inscrever-se num curso de formação de estética, não podia interromper por ninharias sem importância. Não podia ficar em casa como uma gaiata.


 


Foram uns sacanas pois tinham-na despedido a ela, que era efectiva há 15 anos, que podia ter ido para outra loja fazer depilação e epilação, que já tinha 47 anos. Deitada no catre estica o pescoço longo, o cabelo espalhado pelo branco do papel, entrecortada pelo choro, desempregada há 1 ano e meio.


 


Magra, magra, agradece e aperta as mãos, desculpe que estou de luvas, não faz mal que também usava luvas quando fazia depilação e epilação.




______


Percorreu a lâmina em busca das marcas de alarme, procurando ler nas células o futuro. 


 



 

01 março 2009

Una noche de verano


(Francisco Herrero)


 


Una noche de verano

- estaba abierto el balcón

y la puerta de mi casa -

la muerte en mi casa entró.

Se fue acercando a su lecho

- ni siquiera me miró -,

con unos dedos muy finos,

algo muy tenue rompió.

Silenciosa y sin mirarme,

la muerte otra vez pasó

delante de mí. ¿Qué has echo?

La muerte no respondió.

Mi niña quedo tranquila,

Dolido mi corazón.

¡Ay, lo que la muerte ha roto

Era un hilo entre los dos!

 


(poema de Antonio Machado)


 

Encontros e despedidas

 


 



composição: Milton Nascimento & Fernando Brant


canta: Simone


 


Mande notícias do mundo de lá

Diz quem fica

Me dê um abraço venha me apertar

Tô chegando

Coisa que gosto é poder partir sem ter planos

Melhor ainda é poder voltar quando quero

Todos os dias é um vai-e-vem

A vida se repete na estação

Tem gente que chega pra ficar

Tem gente que vai pra nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar

Tem gente que vai querer ficar

Tem gente que veio só olhar

Tem gente a sorrir e a chorar

E assim chegar e partir

São só dois lados da mesma viagem

O trem que chega

É o mesmo trem da partida

A hora do encontro é também despedida

A plataforma dessa estação

É a vida desse meu lugar

É a vida desse meu lugar

É a vida

 

Eleições europeias

 


 


O PS escolheu Vital Moreira para cabeça de lista das eleições para o Parlamento Europeu. Vital Moreira era um defensor do Tratado Constitucional Europeu, é um defensor do Tratado de Lisboa e foi também um defensor da quebra da promessa do referendo ao mesmo Tratado, justificando que não concordava com referendos a tratados internacionais e, inclusivamente, que este tratado em concreto era incompreensível.


 


Não me espanta a escolha de Sócrates mas, para mim, é uma escolha que vai reduzir a votação no PS nas eleições europeias. O que é uma pena e também faz aumentar o receio de desagregação da União Europeia (EU).


 


Porque, ao contrário do que me parece indispensável, que é o aprofundamento da união económica, o esforço para a democratização da EU com uma maior participação dos cidadãos e dos países nas decisões colectivas, reforçando os poderes do Parlamento Europeu, mantendo a equidade para todos os países, grandes ou pequenos, este tipo de atitudes, de directórios decisórios, de textos, alianças e tratados não compreensíveis para os cidadãos, como que legitimando uma vanguarda esclarecida de visionários europeus, pode conduzir a uma desconfiança e a uma resposta contrárias da parte dos comuns eleitores.


 


Tal como Maria João Rodrigues afirma, numa entrevista ao Público (pág.5), é necessário que se trave (…) o proteccionismo nacional, que seria uma catástrofe porque destruiria o mercado interno e a união monetária, só temos uma saída, que é uma resposta a nível europeu para proteger os interesses das empresas e dos cidadãos europeus (...). Em termos de actuação concreta, Maria João Rodrigues adianta (…) decidir que se vai expandir a despesa pública para estimular o crescimento da economia (…). De forma clara e colectiva (…); outra medida concreta, justificada pelas margens diferentes que os países têm para implementar os seus programas de estímulo económico, pois ao aumentarem o défice e a dívida o fazem com taxas de juro muito elevadas (…) lançar um instrumento que ainda não existe e que são os eurobonds (títulos de dívida europeus) (…).


 


Maria João Rodrigues chama ainda a atenção para o facto de ser do interesse da Alemanha optar pela solidariedade pois, se o não fizer (…) vai ficar rodeada por regiões em depressão que vão puxar a economia alemã ainda mais para baixo. (…) E mais (…) É preciso estabelecer uma regra mínima segundo a qual se um governo apoia empresas localizadas no seu país, vai ter de apoiar as suas filiais onde quer que elas se encontrem. (…).


 


Esta deveria ser uma época de respeito por tudo o que possa aumentar as tensões centrífugas na EU. A forma como o Tratado de Lisboa tem sido empurrado para ser engolido de qualquer maneira pelos estados-membros, não augura nada de bom.

 


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