26 junho 2016

O(s) Impostor(es)

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Javier Cercas escreveu sobre Enric Marco Batlle, um catalão que durante décadas inventou a sua própria biografia como lutador anti fanquista e sobrevivente do campo de concentração de Flossenburg, desmascarado por um historiador em 2005. É um extraordinário livro, como costumam ser os dele. Vale a pena ouvir esta conversa sobre os difíceis anos em que a história se impôs e cresceu dentro dele.


 


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Mas não será caso único nem original. Joseph Hirt, autoproclamado sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, é também um impostor, tendo admitido o embuste em que transformou a sua vida, após ter sido desmentido por um professor de História.


 


Dá que pensar como foi possível enganarem tanta gente durante tanto tempo.

Da (re)afirmação democrática

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Desfilam comentadores e jornalistas a repetir à exaustão que os jovens votaram a favor da manutenção da Grã-Bretanha (GB) na União Europeia (EU) e que agora vão ter menos oportunidades de emprego, para além de se informarem os cidadãos de que os jovens se manifestam na rua e na internet contra a saída da GB da EU.


 


Portanto: os jovens são, por definição, mais bem informados, e estão a sofrer as consequências da ignorância, xenofobia e racismo dos velhos, que os querem fechar dentro das suas fronteiras, impedindo-os de procurar a felicidade fora do seu país.


 


Convinha que alguém fizesse a pedagogia da democracia:



  1. As manifestações de rua e nas redes sociais não são semelhantes nem substituem os votos em eleições livres.

  2. As votos valem todos o mesmo, sejam eles de um analfabeto, de um universitário, de um velho ou de um jovem – alguém quer limitar o direito a votar? Quem será então detentor das condições para o poder exercer? Faz-se algum teste de cultura geral para assegurar uma informação mínima? Impede-se o voto após a idade da reforma ou aos 55 anos, dependendo da definição de velho?

  3. A democracia assenta na aceitação dos resultados, respeitando vencedores e vencidos.

  4. Sempre houve movimentos migratórios, antes e depois da EU, e sempre haverá, mais ou menos dificultados, mais ou menos burocratizados.


 


E já agora, que tantas estatísticas estão a ser feitas e analisadas, que tal perguntar a esses jovens que se manifestam nas ruas e nas redes sociais quantas vezes foram exercer o seu direito de voto, quantas vezes participaram em campanhas eleitorais, quantas vezes discutiram e debaterem política, nomeadamente os seus direitos e deveres de cidadania?


 


É muito importante que deixemos todos de nos comportar como crianças a quem tiraram um brinquedo. Temos que saber respeitar um povo que se exprimiu, gostemos ou não da sua vontade maioritária, perceber as razões dessa decisão e lutar, com argumentos e democraticamente, que a outra opção era melhor.


 


Talvez na próxima consulta eleitoral mudem de ideias. Essa é uma das vantagens da democracia – nada é imutável ou definitivo, tudo se pode alterar, sempre que o povo - todo - assim o decida. E o povo é a amálgama de velhos e novos, pretos e brancos, altos e baixos, ricos e pobres, ignorantes e sábios, rigorosos e mentirosos – um cidadão um voto – democracia.

25 junho 2016

Bacalhau com tudo

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Da irrelevância galopante

Enquanto o jornalismo pensar que sobrevive à internet e às redes sociais transformando-se em mais uma rede social – se não os podes vencer, junta-te a eles – será engolido pela irrelevância a que se promoveu.


 


Actualmente os jornais e as televisões, em vez de procurarem informar os cidadãos expondo factos e raciocinando sobre eles, manipulam os dados e tabloidizam as notícias, de forma que lê-los ou ouvi-las é igual a ler posts no facebook. Aquilo que cada um de nós pensa e acha não se pode confundir com reportagem ou jornalismo. É muito respeitável e democrático, mas é achismo.


 


Os jornalistas demitiram-se da sua função e da sua responsabilidade, transformando-se em achistas e actores políticos por conta própria ou a soldo de interesses políticos, ideológicos ou financeiros não declarados.

Os intocáveis (*)

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Pessoas de carne e osso, os jornalistas são como os políticos, os empresários, os médicos, os advogados, os agricultores, os arquivistas, os pedintes ou os futebolistas. Umas vezes são melhores outras piores, umas vezes estão certos, outras errados, uns são sinceros, rigorosos, competentes e honestos, outros cínicos, desleixados, incompetentes e desonestos.


 


Como classe profissional acha-se indispensável, incorruptível, incrível e insubstituível, mas está cheia de gente incompetente, incapaz, inacreditável, intratável e irresponsável, julgando-se inimputável e intocável.


 


Se Cristiano Ronaldo, José Sócrates, Armando Vara, Cavaco Silva, Paulo Portas, Ricardo Salgado, Gabriela Canavilhas, Fernanda Câncio ou Irene Pimentel, para citar alguns exemplos, são escrutináveis e criticáveis, também os jornalistas o são e é de toda a pertinência rever os seus artigos, reportagens e afirmações enquanto produtores de informação, tantas vezes insuficientes, enviesados e mentirosos, com dados errados, inventados ou interpretados à luz de opiniões próprias ou alheias que incorporam sem qualquer crítica.


 


Basta vermos as reacções às críticas de Gabriela Canavilhas a uma reportagem do Público sobre a manifestação em favor da escola pública, em contraste com a que foi feita relativamente à das escolas com contrato de associação, para nos darmos conta dos tiques ditatoriais dos jornalistas que, façam o que façam e digam o que digam, não podem ser contrariados.


 


Cristiano Ronaldo cometeu o erro de sair da imagem de plástico que associamos às figuras mediáticas, com explosões de raiva, frustração e asco por um grupo com quem tem um contencioso judicial há anos, grupo esse que pratica um tipo de pseudo jornalismo alicerçado na devassa da vida privada daqueles que considera propriedade pública, por estarem mais expostos ao público. Não o devia ter feito? É verdade, pelo menos mandaria a prudência bem educada que o não fizesse.


 


Mas atentado à liberdade de informação? Mas ninguém se dará conta de tanto ridículo e de tanto disparate?


 


(*) Nota: Ando definitivamente com falta de imaginação para títulos e para assuntos. Vale a pena ler (juro que não plagiei).

O (in)esperado resultado do referendo Britânico

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The Spectator


 


Ao contrário do que tenho lido e ouvido em vários comentários, feitos pelos habituais políticos, economistas e jornalistas, não estou nada surpreendida com o resultado do referendo no Reino Unido. E tenho muita dificuldade em perceber a surpresa generalizada quando, até ao assassinato da deputada inglesa, todas as sondagens davam maior expressão ao resultado favorável ao BREXIT.


 


Por outro lado, há anos que se ouvem vozes muito críticas à deriva tecnocrática, neoliberal e austeritária da União Europeia, à incapacidade das instituições europeias de lidar com as crises humanitárias dos refugiados, demográfica, das dívidas soberanas nos países periféricos, da anemia do crescimento económico, com a divisão entre uma Europa a várias velocidades, com a hegemonia da Alemanha, com o aumento das desigualdades e da pobreza, enfim, com a previsão de que havia cada vez mais possibilidade de desagregação europeia.


 


Outro ângulo de análise a que tenho assistido é a discussão da oportunidade e das motivações do referendo, que todos sabemos ter sido uma manobra de Cameron para garantir a sua sobrevivência política, para desvalorizar o seu resultado. Ou discutir a pertinência de se referendarem assuntos tão complexos, em que a resposta dada pelos cidadãos seja motivada por motivos circunstanciais (como ouvi Helena Garrido defender).


 


Por outro lado, tenho ouvido análises em que se colocam de um lado os defensores do BREXIT como velhos, xenófobos, ignorantes e racistas, do outro lado os defensores do BREMAIN como jovens, informados, livres, tolerantes e solidários. Tenho mesmo visto defender a repetição do referendo, com difusos argumentos de escassa participação ou de campanhas populistas e de medo - será que aceitariam o argumento caso tivesse ganho o BREMAIN?


 


Penso que estamos todos a não querer ver a realidade. O referendo é um instrumento democrático e o maior problema foi o de ter sido parcas vezes usado no que diz respeito à integração europeia. Lembro-me perfeitamente da promessa não cumprida de Sócrates quanto ao referendo ao Tratado de Lisboa. A menorização dos cidadãos, assumindo-se que não compreendem as questões ou as implicações das respostas, de serem manipulados pelas campanhas populistas, etc., pode servir para qualquer tipo de consulta popular, desde as eleições autárquicas às do Presidente da República.


 


As diversas crises que se instalaram na Europa, levando à perda de qualidade de vida, de esperança e de perspectiva de futuro, o descrédito no projecto de solidariedade europeia, o empobrecimento e a sensação de injustiça associada às desigualdades galopantes, a arrogância e pesporrência das Instituições Europeias, com o alheamento dos cidadãos em relação à política, patente em todos os actos eleitorais, predominantemente nos europeus, criaram levam ao aumento do sentimento anti União Europeia, sem que necessariamente se seja xenófobo ou racista.


 


O simplismo da divisão entre os bons (europeístas) e os maus (secessionista) só fará aprofundarem-se as desconfianças e o sentimento de exclusão dos povos. Infelizmente, as Instituições europeias reagiram com o despeito de virgens ofendidas, em vez de permanecerem calmas e de assumirem o resultado do referendo como uma decisão respeitável e democrática, que urge entender, ameaçando e fazendo voz grossa exigindo uma saída rápida.


 


Quero crer que estas situações não se podem resolver rapidamente nem com atitudes de ultraje pessoal. Será a melhor forma de incendiar os sentimentos de rejeição à União Europeia por parte de outros países.


 


É urgente que a União Europeia se remodele e se auto critique, de modo a que os cidadãos dos países que a compõem sintam que a sua existência lhes garante uma vida melhor, mais próspera e mais segura. As pessoas que constituem os povos são soberanas para decidirem. Se deixarmos de acreditar nisso, deixamos de defender a democracia. E os resultados das votações livres são para respeitar, mesmo que sejam o contrário do que gostaríamos que fossem.


 


Continuo a acreditar que a União Europeia foi e é uma organização que nos dá mais garantias de paz, de solidariedade, de crescimento, de tolerância e de interligação cultural. Mas para que continue tem que evoluir e transformar-se, reassumindo esses valores numa União de países soberanos e iguais entre si, que pugnam pelo respeito e consideração mútuas. Para que esse desejo seja uma realidade precisamos de refundar as Instituições, sem medo nem vacilações.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...