28 fevereiro 2015

A Literatura é um poço de liberdades

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As palavras fazem parte da liberdade, palavras duras ou meigas, palavras de luta e de amor, de intimidade e de exposição, de drama e de comédia, silenciosas ou em vulcão, as palavras são dedos abraços ou pedras, rasgam e saram feridas, mais perigosas que veneno, ou santificadas como bálsamo divino.


 


A liberdade individual e colectiva, a liberdade como fuga de temas políticos, como se a política fosse peste peganhenta que conspurcasse os mais elevados pensamentos filosóficos, a liberdade como afirmação da identidade e da diferença, a liberdade como uso do poder e definição de opções, fora da mediocridade e da mediania cinzenta de uma só dimensão da cidadania.


 


Usam-se todos os tipos de liberdade, até a liberdade de quem não é livre a não ser dentro de si próprio, de quem a si se censura para poder estar.


 


Leonardo Padura, Manuel Rui e Martinho da Vila, à conversa com José Carlos Vasconcelos, onde se falou do conceito da falta de liberdade pela ausência de escolhas, ou porque não existem pela imposição de uma verdade, ou porque existem mas são inatingíveis.


 


...que a vida vai melhorar...


Reviver o passado em Brideshead

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O distanciamento temporal em relação aos acontecimentos garante uma certa aproximação ao que de facto aconteceu. O espaço de uma vida é pouco e aquilo que se passou desde que nascemos parece-nos muito mais actual do que na realidade o é.


 


Quando olhamos para as mudanças sociológicas que se observaram durante todo o século XX, parece-nos impossível igualar as revoluções e as notáveis alterações que partiram o século grosseiramente em três partes: antes da I Grande Guerra, entre a I e a II Guerras Mundiais e o pós-guerra, se ignorarmos o fim da guerra fria e a extraordinária descoberta das novas tecnologias de informação, que já entram pelo século XXI.


 


Reviver o passado em Brideshead é uma série televisiva que se baseia no romance homónimo de Evelyn Waugh (Brideshead Revisited, The Sacred & Profane Memories of Captain Charles Ryder), escritor britânico que atravessou grande parte dos tumultos a que me refiro. A história que conta é passada precisamente no período entre as duas Grandes Guerras, uma recordação melancólica do fim de uma determinada época.


 


O estilo de vida das elites inglesas, umas relacionadas com a aristocracia decadente, outras representando o novo poder económico, sem passado mas com futuro, as bolhas aparentemente algodonosas em que existiam os pobres meninos ricos, Oxford, o ócio, a intelectualidade e a boémia da vida estudantil dos poucos afortunados que a ela podiam ascender, os problemas religiosos num mundo em constante mutação, os costumes, o amor nas suas várias facetas – homossexual, heterossexual, sufocante e manipulador, delicado e superprotector, a estratificação social. A própria recordação, como se fosse um encantamento anterior aos duros tempos da Guerra, encarnado pela personagem de Charles Ryder (talvez até um pouco autobiográfico), que já no fim da mesma regressa mentalmente ao conforto e às inquietações da juventude.


 


O livro é excelente e a série cola-se-lhe como uma segunda pele. Não me lembro de a ter visto quando por cá passou, já há vários anos. Ou se, pura e simplesmente, não tinha idade, estofo ou profundidade para gostar dela. Mas para quem tenha oportunidade não perca o livro e, depois, a série. Não me posso pronunciar sobre o filme de 2008 porque não o vi. Mas confesso custar-me a entender como se condensa o livro em duas horas. Uma das razões pelas quais me deleito com as séries inglesas é o seu ritmo, o seu rigor e a sua espantosa veracidade.


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Nha morninha


Pierre Aderne & Sara Tavares


 


Ao lembrar de você
E tentar não sonhar
O sonho não atende
Não me entende a falar


 


Ao lembrar de você


E tentar acordar
O sonho me prende
E me ensina a esperar
O sonho me acende
Pra eu poder te guiar

Ao lembrar de você
A tentar me esquecer
Com seus olhos abertos
Pra esse sonho não ver

Ao lembrar de você
Quantas vezes duvido
Se no meio da noite
Não lhe acordo o vestido
Pra dançar essa morna
Que eu havia perdido

Oi! Oi! Vem…

Serenata na boca de coração
É cadencia di morna mansinho
Ta sussurra baixinho
Té tchiga perto
Cola nha ouvido
Um sabor perfumado

Ao lembrar de você
Quantas vezes duvido
Se no meio da noite
Não lhe acordo o vestido
Pra dançar essa morna
Que eu havia perdido

Quem tem medo da cultura?

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E deixei-me levar nesta Corrente que há tantos anos me chamava, me arrulhava como ruído de cascata e de mergulho.


 


Quem tem medo da cultura? - perguntou Guilherme d'Oliveira Martins ao auditório do Cine-Teatro Garrett, totalmente repleto. Lá de cima do galinheiro, completamente colada às costas da cadeira tal a vertigem das alturas, olhei para a figura de contornos pouco precisos e permiti que as palavras ecoassem e me relaxassem da minha fobia.


 


"É quem tem medo da economia" - respondeu o próprio orador. E discorreu sobre a sociedade do saber e do rigor, das avaliações e das igualdades, do desenvolvimento e do conhecimento, das humanidades e das ciências, das diferenças e da tolerância, da educação e da língua, da mais extraordinária língua do mundo, citando Luísa Dacosta entre muitos outros - a única língua que é capaz de incluir o tu no eu - amar-te-ei.


 


Guilherme d'Oliveira Martins é um homem de cultura e da cultura, enquanto entendermos a palavra cultura com a amálgama de uma comunidade, naquilo que a faz amálgama e naquilo que a transforma em comunidade - o outro como a outra metade de nós, o civismo, o serviço público, o uso do conhecimento, do património como alavanca para o futuro, sustentável em direitos humanos e em termos materiais. Mais uma citação de Luísa Dacosta, muito presente nestas Correntes d'Escrita - a língua portuguesa é das únicas, se não mesmo a única em que existem os verbos estar e ser - "amar e ser amada, na passagem do estar ao ser".


 


Alertou para os perigos do facilitismo, da mediocridade e do imediatismo, essa moda da modernidade apressada e superficial que se atém às frases-feitas e aos pensamentos fast thought. E conclui:


 


"(...) eis porque devemos dar à sociedade civil um papel mais ativo nos valores, se soubermos contrapor uma ética de cidadania, aliada à qualidade na educação, formação, ciência e cultura. A defesa das humanidades tem de corresponder à recusa da facilidade e do novo-riquismo e ao apelo à vontade e à criação. Como poderemos defender a cultura que nos foi legada sem mobilização dos cidadãos e sem democratização do Estado? Medo da cultura é, afinal, medo da liberdade e da democracia”.


 


Encafuada entre a vertigem e a indizível satisfação ao ouvir alguém afirmar tão claramente que devemos caminhar no sentido inverso ao da arenga contabilística e pseudocientífica desta pseudo elite europeia, não consegui ultrapassar a timidez de lhe perguntar como enquadra ele o fenómeno do desaparecimento do emprego como parte integrante da cidadania, da menorização do valor da participação e contributo cívicos através do serviço ao outro com o trabalho, nesta nossa sociedade que se esquece que a integração também se enraíza na sensação e capacidade de ser útil e necessário ao bem comum.


 


É tão bom sentir que alguém nos acorda. Era tão importante que acordássemos.

Dos detritos aproveitados pela ausência de excedentes

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Caius Detritus


 


É claro que o espalhafato que se está a fazer em relação às declarações de António Costa, numa cerimónia que, de outra forma, não teria tido provavelmente mais que umas linhas de fundo de página num jornal, não tem a ver especificamente com o que António Costa disse mas com o que António Costa (e o PS) não diz e deveria dizer.


 


A falta de iniciativa política, sejam quais forem os motivos, faz com que os pormenores mas disparatados sirvam para desviar as atenções do inexcedível desgoverno desta direita que nos governa (António Costa elogiou os chineses e a sua capacidade de permanecer num país em grande depressão económica; a diferença foi interpretada por Nuno Melo como para melhor, porque convém ao Nuno Melo que assim seja). Estamos todos à espera das ideias do PS e de António Costa, sobre os mais diversos assuntos e, como político que é, António Costa deve saber que a melhor atitude é ser ele próprio a lançar uma agenda de discussão. Por muito que se compreendam as cautelas e o sentido de Estado, que até são de elogiar, pois promessas miríficas e futuros risonhos já todos conhecemos, o PS e António Costa estão a perder o timing e estão a deixar o palco para os Caius Detritus que se multiplicam e aguardam ao canto de cada sala, escrevinhando palavras separadas ou não do contexto para chicana.


 


António Costa não tem que se queixar - por muito más que sejam, ele sabe que são estas as regras de um jogo muito viciado e muito sujo. A alternativa é ser ele a marcar a discussão com as ideias que vai lançando, sem esperar complacência da parte de uma comunicação social inculta e trivial, para quem as discussões semânticas são muito mais importantes que os conteúdos. E por isso tem que avançar, explicar, perguntar, não usando sms a tentar minimizar males interpretativos, mas a usar a tribuna de todas as maneiras que puder e souber com as suas propostas, o seu rigor, a sua exigência e a sua clareza - em todas as áreas. E não faz mal nenhum se elogiar algumas medidas do governo - rezemos para que, em 4 anos, alguma medida tenha sido positiva - mas para o dizer exactamente nesse sentido e nessa medida, com o tal sentido de Estado de que se apruma, e bem.


 


Enquanto o PS não impuser a sua agenda política continuaremos em banho Maria e a perder esperança, a perder eleitores, a perder o sentido da democracia. Que não se desculpe e não se justifique, que nos interpele e nos enfrente, que nos entusiasme e nos faça pensar.

27 fevereiro 2015

Comboio

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Comboios e viagens, livros e histórias, o doce prazer do lazer, fortuito sabor inocente mas perverso saber de estar só, entre cidades, uma espreitadela ao rio que se atravessa, casas ao fundo numa paisagem amodorrada e ligeiramente iluminada, veloz como o tempo que nos repassa e nos gasta.


 


Pequena suspensão do universo.


 


Murmúrios e respirações, olhares perdidos ou focados, a humanidade que se desloca fisicamente parada, em sintonia de tantas vidas diferentes quantas as liberdades unas e dilatadas, patrimónios irrepetíveis, desconhecimentos e desmemórias que não chegam a ser notáveis. Nada se nota nestas genialidades pequenas mas que nos aconchegam o ego e a mente, que nos libertam do cansaço da monotonia e das crises, todas, pessoais e intransmissíveis mas tão iguais às do todo colectivo.

22 fevereiro 2015

Um dia como os outros (152)

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 (...) Terceiro, e muito importante para o futuro, é que o governo grego terá de dizer que reformas vai fazer para melhorar a situação do país. E, aqui, a direita acha sempre que sabe quais são as reformas: destruir os serviços públicos, cortar salários e precarizar trabalhadores, privatizar. Mas a esquerda tem que ter outra visão das reformas. Por exemplo, no caso da Grécia, é claro que é importante combater a enorme evasão fiscal, tal como é necessário promover a eficiência do Estado e combater a corrupção. E o governo grego quer fazer isso. E é de esquerda fazer isso. Parte importante das próximas batalhas está mesmo aí: promover uma ideia alternativa de reformas estruturais, para acabar com o mito de que as reforma da direita é que fazem bem à economia e aos povos - porque não fazem, como vemos. (...)


 


Porfírio Silva

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...