30 maio 2013

Alongar

 


 



Tejo 


 


 


1.


Inclinada a cidade esvai-se


sangra pelas ruas em pedras rolantes


e passos cansados exausta


de mundo de inverno de pó.


 


2.


Ficamos sentados à beira do tempo


desistentes da vida assistimos


ao dobrar dos troncos


ao vergar das nuvens.


 


3.


Desenhei num mapa que só tu entendes


os cruzamentos em que alongamos


imensas e surdas despedidas.


 

19 maio 2013

As vozes dos outros (3)




(..) Para mim o poeta é alguém que está «em contacto». Alguém através de quem passa uma corrente. Mas, definitivamente, a poesia e a prosa têm enormes semelhanças. A prosa está cheia de ritmos subjacentes, que descobrimos muito rapidamente quando estamos atentos. Só que a poesia, e é aqui que acho que o poeta moderno se engana, assenta em efeitos de repetição, que são capazes de ter um papel encantatório, ou, pelo menos, de se impôr ao subconsciente. Uma poesia sem ritmos imediatamente perceptíveis não estabelece o contacto necessário com o leitor (...)


 


De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar - Conversas com Matthieu Galley


Relógio D'Água Editores, Junho de 2011


 

18 maio 2013

Vozes

 



Wendy Dunder


 


Sabia que a olhavam de lado, como a uma louca. Sabia que era louca, mas apenas por ser racional.


 


Começou a falar consigo desde muito cedo. O silêncio da casa, o enorme espaço vazio à sua volta, a todas as horas do dia, em todos os gestos que ecoavam a solidão. Parecia que as vozes dentro de si rebentavam, enchiam o mundo, entonteciam. Não conseguia distinguir os pensamentos dos sons exteriores a si, do mundo.


 


Falar consigo materializava alguém que lhe era intrínseco e que, no entanto, não conhecia. Não precisava de ter um interlocutor, não precisava que se sentasse ao seu lado, que anuísse ou discordasse, que lhe lesse passagens de um livro, que lhe apreciasse a comida, que necessitasse de companhia.


 


Falar consigo dava-lhe conforto e segurança. Era como uma cadeira que esperava pelo seu descanso.


 

Concerto para bandolim em dó maior (RV 425)

 




Il Giardino Armonico

 

Cortinas de fumo

 


São várias as notícias plantadas nos jornais. Umas para lançar o pânico, de forma a que a população aceite o menor dos males. Outras para acertar contas, não se sabe exactamente de quem. A Europa é um imenso parque de diversões. Infelizmente, a maioria das pessoas só tem direito a assistir.


 

17 maio 2013

Das circunvoluções da memória

 



 


Depois de ouvir Lobo Xavier dizer que o PSD e o CDS precipitaram e queriam o resgate do país, na última Quadratura do Círculo, aliás secundado por Pacheco Pereira, pergunto-me até onde irá a capacidade de reescrever a sua própria história que certas pessoas têm. Eu também concordo, que se não tivesse havido resgate, se o programa de Sócrates e Teixeira dos Santos tivesse sido aprovado na Assembleia da República, se não tivesse havido a campanha e assalto ao poder, pela manipulação dos intervenientes que, agora, descobriram os malefícios da intervenção externa e a europeização da crise, talvez o país estivesse melhor. Foi o que Rajoy fez.


 


Há uma cronologia do resgate, publicado pelo Público, e um arquivo do resgate que vale a pena consultar. Para que seja preservada a memória colectiva.


 

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