28 novembro 2011

Um dia como os outros (104)


(...) O caso é que o OE 2012 da República da Irlanda chegou primeiro ao conhecimento do Bundestag do que ao do Parlamento Irlandês. Assim, os deputados irlandeses só ficaram inteirados pelos jornais de que os deputados alemães estavam a analisar a possibilidade de um aumento do IVA na Irlanda.


Após algum embaraço inicial, a Comissão Europeia e o Governo alemão vieram a terreiro explicar nada haver de anormal no sucedido, visto que apenas foram seguidas as regras de funcionamento do FEEF impostas pela Alemanha.


Para quem ainda tinha dúvidas, fica defiinitivamente esclarecido que a união fiscal de que agora se fala consiste apenas e só na definitiva e completa transferência de poder dos parlamentos dos diversos estados nacionais para o parlamento alemão. Pergunto-me como podem os governos europeus ficar calados perante um tal atropelo à legalidade democrática tanto nacional como europeia, não suportado por qualquer tratado livremente negociado.


Estamos agora todos à espera que, no dia 9 de Dezembro, a chanceler Merkel apresente à União Europeia o seu ultimato político-financeiro: ou os países-membros da União Europeia aceitam submeter-se incondicionalmente à autoridade alemã ou não haverá euro-obrigações para ninguém e a zona euro será desmantelada.


(...) Entretanto, não entendo como os jornalistas dos vários países permitem que os seus governantes permaneçam calados.


Por que não perguntam a Passos Coelho o que pensa do que já se conhece da proposta franco-alemã que vai ser formalmente apresentada na cimeira de 9 de Dezembro? E por que não dirigem a mesma questão aos restantes dirigentes partidários, a começar por Portas e Seguro? E, já agora, não faria sentido inquirir também o sentimento dos sindicatos e associações patronais?


E o Presidente da República, a quem incumbe a defesa da Constituição, não deveria falar antes que seja tarde?


E não seria bom o parlamento português antecipar-se e suscitar de imediato a discussão da projetada limitação dos seus poderes? (...)


 


João Pinto e Castro


Era uma vez o euro

 


Aquela crise que era só portuguesa e aquele pedido de resgate, frutos da incompetência de Sócrates e Teixeira dos Santos, está agora a atingir a Itália, mesmo depois de ter havido uma substituição do governo.


 


A França, a Espanha e a Alemanha seguir-se-ão. Mas o nosso governo mantém o modelo da austeridade, assume o papel contristado de PIG penitente perante a Chanceler alemã e Os Mercados, que não reconhecem o seu fiel discípulo.


 


Hoje a maioria fez um pequeno teatro de preocupação com os pobrezinhos. Os contratos de trabalho assinados com o Estado já foram todos rasgados. Além dos cortes salariais que incluem a supressão do 13º e do 14º mês, o governo prepara-se para acabar com o horário laboral de 40h semanais, com a elevadíssima taxa de desemprego.


 


Deve estar tudo certo. Os grandes economistas da oposição que sabiam todas as fórmulas mágicas para acabar com o desemprego e com a dívida, relançando velozmente a economia estão, com certeza, cheios de razão. Nós é que somos todos ignorantes, incompetentes e negligentes, todos filhos da ala socrática do PS, que ainda recebem ordens do grande chefe, enviadas de Paris.


 


Estamos, portanto, cada vez mais gregos.


 

27 novembro 2011

A derrota da crise (1)

 



O património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é permanentemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio, da sua interacção com a natureza e a sua história, proporcionando-lhes um sentimento de identidade e de continuidade, contribuindo assim para promover o respeito pela diversidade cultural e a criatividade humana.


Convenção para a Salvaguarda do Património Imaterial da Humanidade, UNESCO, 2003 (Artº 2, alínea 1)


 


De acordo com Pedro Correia


 



Gaivota


Alexandre O'Neill & Alain Oulman


canta Amália Rodrigues


 

26 novembro 2011

Para combater a crise (5)

 



 


É difícil caracterizar a música de Rodrigo Leão. Com uma melancolia intrínseca, faz-me evocar uma viagem contínua, as roupas tristes de um circo que se quer alegrar, os ciganos andarilhos, uma quietude desinquieta de uma alma sem descanso.


 


O espectáculo de hoje, no CCB, foi excelente com a apresentação do novo cd e alguns temas dos anteriores, soberbamente tocados. Houve um momento menos feliz, em que Thiago Pethit entrou fora de tempo e fora de tom na maravilhosa canção Rosa. Pelo menos assim me pareceu. O écran com algumas cenas a ilustrarem dois ou três temas também me pareceram dispensáveis.


 


Tudo o resto foi excelente. Fica aqui uma canção do novo trabalho.


 



 

Igualdade

 



 


Há umas horas fui abordada por um vendedor da revista Cais. Lourinho, bonitinho, oriundo de algum dos países da Europa de Leste, pediu-me um pacote de fraldas para a sua criança de ano e 3 meses. Satisfiz-lhe o pedido.


 


Mas será que se fosse mulato, negro ou cigano, se fosse gordo e sem dentes, a minha disponibilidade era tão imediata? Gostaria de pensar que sim, estou tentada a ter a certeza de que responderia prontamente da mesma forma, mas não o afirmo assim, sem pestanejar.


 


O racismo e a xenofobia são-nos mais intrínsecos do que gostaria de admitir. Na verdade somos conduzidos por estereótipos e por imagens feitas, por muito que reciclemos aquilo a que chamamos valores de igualdade, fraternidade, solidariedade. E eu, que sei que todos somos exactamente iguais, filhos do mesmo número de cromossomas, com engenharias celulares semelhantes, que respiramos a mesma mistura de gases, que necessitamos dos mesmos alimentos, será que me despojei dos condicionalismos que, mesmo inconscientemente, subsistem arreigados no mais fundo de nós mesmos?


 

Para combater a crise (4)

 



 


À falta de uma gravação em directo, ontem, no CCB, durante o espectáculo que foi ouvir Mário Laginha, Pedro Burmestyer e Bernardo Sassetti, cada qual e em conjunto ao piano, deixo esta Rosa, de Pichinguinha, magistralmente interpretado, tal como o foi ontem, pelos três pianistas.


 



 

Para combater a crise (3)

 


 



Alexandra Malheiro


Geografias Dispersas


 


A queda


 


Sobrevive-se a tudo


ou quase tudo,


ao vento assobiando nos ciprestes,


à tempestade aquartelada


nos teus olhos,


às indecisões do teu corpo.


Tudo,


ou quase tudo,


apenas à queda da magnólia


não.


 


Nunca nenhuma flor


sobreviveu.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...