(pintura de William Gropper: Politicos)
Há na sociedade portuguesa a crença generalizada que a direita representa a sobriedade, o rigor, a competência, enfim, a fase adulta de uma democracia responsável, enquanto a esquerda representará o entusiasmo pueril, o idealismo puro e sem realismo, a negligência e o compadrio, a anarquia e a falta de sentido do dever.
O governo socialista demonstrou a inadequação desse tipo de classificações, pois aliou o dinamismo, a competência, o sentido do rigor e do serviço público, aos objectivos de solidariedade, de melhoria da qualificação, da formação e da igualdade de oportunidades.
As forças políticas à sua direita tiveram que readaptar o discurso, criticando o rumo da governação, acenando com a estatização e governamentalização da vida pública, a falta de liberdade e a menorização de quem defendia as reformas, tentando esvaziá-las de conteúdo. Assim, tentando colar ao governo a imagem de publicidade sem execução, de coveiro da liberdade e da sociedade civil, colocaram-se ao lado dos protestos das corporações, chamando ao governo e aos seus ministros arrogantes, prepotentes e autoritários, nunca conseguindo ultrapassar este discurso nem apresentar alternativas.
Às forças políticas à sua esquerda só restava brandir os fantasmas do regresso do salazarismo, da repressão, da falta de liberdade, da reacção, pois um governo que se preocupava com avaliações de desempenho e cumprimentos de orçamentos só podia ser de direita, retrógrado e fascista.
Daí a extraordinária aliança entre os partidos à esquerda e à direita do PS a que se assistiu durante estes últimos quatro anos e que está ao rubro nesta campanha. Não interessa discutir projectos, apresentar alternativas, comparar resultados. Não interessa perceber qual a diferença entre as visões do mundo de quem se apresenta a votos. Apenas se discute o carácter dos intervenientes, transformando a pré-campanha em ataques pessoais mesquinhos, achincalhando-se órgãos de soberania, inaceitável numa democracia.
Nota: também aqui.