31 janeiro 2008

Cíclico

Palavras rolam pelos dedos
pelas teclas pelas fontes
desta saudade funda
dormente calada
como ondas cíclicas
vagas de sonhos envolventes
rebentam na praia
da espuma que se desfez.


(pintura de Scott Rasmann)

Solto

Solta-se o mar
por dentro deste navio
sem noites a mergulhar.

Solta-se o vento
por dentro desta semente
sem terra a rebentar.

Solta-se o tempo.


(pintura de Betty C. Bowen: wind)

30 janeiro 2008

Da fraqueza

O mais triste da demissão de Correia de Campos é que quem a pediu clama agora que se viram sinais de fraqueza, quem a não queria ficou a saber que há fraqueza.

Tenho o maior respeito por Correia de Campos, que lutou por aquilo em que acredita, a remodelação e modernização do SNS, que prestou um serviço que não lhe reconhecem. Mesmo que em desacordo com algumas das suas medidas, mesmo não gostando dos seus modos desabridos e da sua queda para o disparate dizível, admiro-lhe a coragem e a frontalidade com que sofreu uma das maiores campanhas de assassinato político dos últimos tempos.

Desejo à Dra. Ana Jorge as maiores felicidades. Vai precisar de sorte, muita, assim como nós todos. Mas suspeito que as reformas estão condenadas, na melhor das hipóteses em banho-maria. A ordem deve ser acalmar as hostes.

Sócrates não actuou bem e demonstrou que o bem do país passou para um plano secundário. Agora quer ganhar as eleições.

27 janeiro 2008

Esquerda moderna

Gostava de saber exactamente o que significa ser da esquerda moderna.

Se ser da esquerda moderna é tentar transformar os serviços públicos em serviços de qualidade, exigentes e como o objectivo principal de servir o público, eu sou muito moderna.

Quais os motivos porque há descontentamento no PS em relação às políticas governamentais, que não aceitam essa fórmula de esquerda moderna?

Fazer reformas na segurança social e no sistema de reformas e pensões de forma a torná-la sustentável, garantir que ela continue a existir e a proporcionar um rendimento a quem chega ao fim da sua vida laboral, partindo do princípio da solidariedade entre as gerações, usando os impostos que se pagam?

Fazer reformas no sistema de educação com mais exigência sobre os agentes educativos, começando pelo combate ao absentismo, pela avaliação do desempenho dos professores e educadores, pela instituição de exames nacionais que controlam as aprendizagens e colocam todos os alunos e todos os professores em situação de igualdade, deslocando o objectivo da escola para a luta contra a indisciplina, contra a formação de guetos, contra o desinvestimento nos alunos com mais dificuldades, contra os tempos não aproveitados para investir na aprendizagem, pela concentração de recursos públicos e melhoria das condições de acesso a escolas com melhores condições?

Fazer reformas no sistema de saúde tentando tornar mais eficientes os serviços que existem, reorganizando e concentrando meios técnicos e humanos que garantam melhor qualidade de assistência, controlando o cumprimento dos horários dos seus funcionários, investindo nos cuidados de saúde primários e em atendimentos de situações agudas, reduzindo e melhorando os serviços de urgência e de emergência para aquilo que deverão estar verdadeiramente vocacionados, investindo na centralização da distribuição e aconselhamento de recursos, em redes de transportes especializados?

A esquerda moderna é deixar tudo com estava? Isso é que é ser socialista?

O investimento na exigência e na igualdade de tratamento e de oportunidades, independentemente da cor, da raça, do género, da classe social, do local de nascimento e residência, ao contrário do paternalismo para com as populações que precisam de ter a ideia de um acompanhamento de proximidade para se sentirem seguras, é o contrário de quem pugna pelas ideias socialistas.

Qual o objectivo da chamada ala esquerda do PS o colocar em causa estas reformas, acusando o governo de insensibilidade social? Quais as alternativas que propõem? Manter o SNS como está? Não mexer no sistema educativo ou manter a filosofia anterior, que ninguém sabe exactamente qual é, cujos resultados estão bem à vista?

E no sistema de pensões? Quais as alternativas socialistas e esquerdistas dessa ala mais progressista? E em termos económicos e de reforma da administração pública, o que fazer, concretamente, reduzir os funcionários públicos ou não; redistribuí-los e colocá-los onde eles faltam ou não? Como podemos reduzir a despesa pública? Ou não precisamos de o fazer?

É que, para mim, e por muito que me enervem as arrogâncias de Sócrates, aquela voz autoritária e os sorrisinhos desajustados de Correia de Campos, são políticas e alternativas que eu espero conhecer dos oponentes a esta forma de governar.

Frases bonitas e boas intenções todos temos, mas é preciso que digamos como vamos conseguir essas melhorias, essa manutenção das conquistas de Abril.

Era bom que nos deixássemos de retórica e discutíssemos o que de facto está em causa. Quais as opções da ala esquerda do PS, corporizada por Manuel Alegre, Helena Roseta, Maria de Belém, Ana Benavente, Constantino Saklarides, Manuela Arcanjo, e outros? Era muito bom que se discutissem seriamente estas matérias e não se caísse em populismos, porque os há de direita, de esquerda, do centro, corporativistas, e de todos os tipos.

Há muita coisa a mudar. O PS precisa de discutir as alternativas no seu interior, mas com seriedade. Apontar todos os dias as desgraças que se passam nas urgências, nas consultas, que já se passavam há anos, mas que só agora foram descobertas, e ouvir o Bastonário da Ordem dos Médicos dizer que nos sítios onde não há articulações da rede das urgências e emergências pré-hospitalares deveriam ser reabertos os SAPs, como se ele não tivesse obrigação de saber que em nenhuma daquelas circunstâncias a existência de SAPs modificaria alguma coisa, como se ele não tivesse obrigação de saber que a descoordenação e a falta de meios já existe há muitos anos, é triste, desencorajador, e dá vontade de desaparecer.

Porque assim, nem com alas esquerdas, direitas ou centrais, iremos a lado nenhum. Estamos condenados a recomeçar de 2 em 2 anos, mais desencorajados e mais incrédulos, mais velhos e descrentes na existência de boa fé de parte de quem nos manipula e nos convoca as emoções.

26 janeiro 2008

Coração hiperactivo

Gosto de andar sozinha, no carro, devagar, até à beira rio.

Gosto de me misturar com a gente que formiga no CCB, à frente dos Jerónimos, pelos jardins, gente com tempo de sábado, com faces tranquilas de quem descansa ou de quem descobre.

Gosto de observar os velhotes e as velhotas, de barretes e cachecóis, de cores sóbrias ou berrantes, entre jovens sem frio mesmo que o sol desapareça a o ar corte, eles em mangas de camisa, magros, esbranquiçados, de barbas ralas, elas de pescoços longos, casacos cintados e cinturas descidas. Uns falam, outros riem, outros calam. Há diálogos interiores e monólogos exteriores.

Gosto de olhar posters, quadros, cadernos, canetas, objectos bem desenhados, de papel, cartão, madeira, metal, com fins precisos ou apenas pela beleza dos contornos, das cores, pela ideia de quem os inventou.

Gosto de deambular sozinha, por entre o mundo que gira sem me ver, sem me ter, sem me querer, anónima e livre.


(Galeria Arte Periférica: Alexandra Mesquita: “corações com mau feitio” - coração hiperactivo)

Ruído de fundo

Sobre esta notícia do DN de hoje, vale a pena ler algumas considerações de Tomás Vasques.

A governação Socrática tem tido vários casos de autismo, de incumprimentos de promessas eleitorais, de tiques de arrogância e autoritarismo.

Em tudo isto o PS responde dando vivas ao mestre, sorrindo em contínuo, justificando o injustificável e descansando numa maioria absoluta. Dentro do partido está tudo lambuzado e satisfeito.

Pois seria melhor que acordassem da modorra e iniciassem as discussões ideológicas e a luta pelas próximas eleições, em vez de olharem desdenhosamente para a oposição partidária que não existe, em vez de agitarem as águas com o perigo de um novo partido liderado por Manuel Alegre. É dentro do PS que tem que haver discussão.

Por outro lado, há uma oposição torpe, populista e demagógica que assentou arraiais à porta dos hospitais, das urgências e dos centros de saúde, para a campanha feroz que se arrasta já há alguns meses para a demissão do ministro da saúde.

É bom que não nos esqueçamos destas campanhas mediáticas, que parecem demonstrar que estamos no início do apocalipse. Há algum tempo era o problema das Juntas Médicas que obrigavam professores com cancro a trabalhar, não lhes dando as reformas que mereciam. Com o mesmo rigor com que se tratam sempre estes assuntos na comunicação social, e com o mesmo barulho com que se anunciam mortes de bebés pelo fecho de SAPs, quedas de macas em meio hospitalar, falta de formação de bombeiros e escassez de médicos e enfermeiros, como se tudo isso, por muito horrível que seja, só acontecesse desde que este ministro começou a reestruturar as urgências e a fechar blocos de parto, com a mesma rapidez e superficialidade, deixou de haver problemas com as Juntas Médicas. Acabaram as Juntas Médicas? Passaram a reformar toda a gente? Deixaram de perseguir os professores?

Também me lembro das manifestações das populações indignadas contra o fecho das escolas do ensino básico com muito poucos alunos. O que se passou entretanto? Não seria de tentar perceber se os transportes para as crianças apareceram, se as escolas onde foram colocadas as tratam bem, têm boas condições, cantinas, etc.? Os encarregados de educação fazem uma avaliação positiva ou negativa? E o poder local?

É muito fácil levantar acusações, falar indignadamente da corrupção, dos políticos, dos governantes, das figuras públicas, fica bem no figurino. Mas tentar ir ao fundo dos problemas, ter perseverança, perseguir objectivos e ideias, assumir as responsabilidades do que se diz e do que se faz, é muito mais difícil.

Não sei se o Bastonário da Ordem dos Advogados tem razão, se calhar até tem, mas levantar suspeitas sobre tudo e sobre todos sem especificar, é demagógico e não adianta nada. Este país vive de suspeitas e de insinuações. O estado de direito é uma farsa alimentada pelos seus próprios agentes.

Mas assim temos mais umas horas de notícias, de acusações subtis e subliminares, de grandes comentários por grandes comentadores. Faz-se mais um pouco de ruído.

Adenda: ouvi as declarações de Marinho Pinto à SIC Notícias. Foram casos concretos e não vagos. Já são conhecidos e ninguém actuou - porque não há motivos para actuar? Porque ninguém quis averiguar? Sabe ele mais qualquer coisa? A denúncia pública é importante, mas não basta, pelo menos não tem bastado.

24 janeiro 2008

Ladainhas

A utilização e generalização da unidose e da prescrição por denominação comum internacional (DCI) é das tais coisas que são tão obviamente necessárias e benéficas, para os doentes e para o estado, não tanto para a indústria farmacêutica, claro, que é patético o esforço que o PS fez na Assembleia da República para demonstrar que aquela iniciativa do CDS era demagógica.

Claro que é demagógica mas não pela bondade da ideia. Aliás não me lembro do CDS ter tido essa iniciativa quando esteve no governo, e não foi assim há tanto tempo. Mas a culpa é apenas e só do PS que ainda não regulamentou uma lei que está aprovada desde 2006. Que espera? A ladainha dos estudos já não se aguenta. O que parece é que interesses que se sobrepões ao interesse dos cidadãos e do estado.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...