18 abril 2026

A alarve má educação

A ascensão de Trump ao poder levou a sociedade a aceitar como normal as maiores idiotices, violências, más educações e loucuras dos líderes de extrema direita.

O desbragar da linguagem, a transformação de todos os palcos mediáticos em espaços mal cheirosos, sujos e apenas frequentados por gente ignorante e mal educada, parece agora a norma.

Não se debate, insulta-se, grita-se e interrompe-se para não se deixar falar mais ninguém. A desvergonha, a triste figura que fazem e o exemplo dado só pode conduzir a uma sociedade intolerante, obscena, retrógrada, que elogia e se compraz com a ignorância.

Está o mundo de cabeça para baixo.

O que eu não entendo é a conivência dos órgãos de comunicação com este género de políticos, comentadores, especialistas de coisa nenhuma.

Não compreendo como é que, por exemplo, após a má educação de Rodrigo Taxa, deputado do Chega, não foi de imediato suspenso o programa. E ainda, para cúmulo, continua a ser convidado pela RTP!

Lembro-me de um (pseudo)debate com a Inês de Medeiros onde, quando esta fala de Flaubert e de uma frase a ele atribuída – Madame Bovary c’est moificou abespinhado e acusou Inês de Medeiros de tiques de intelectual de esquerda, exclamando – vem com a madame de Bauvoir, ou que é.

Enfim, para Rodrigo Taxa, Gustave Flaubert, Madame Bovary e Simone de Bauvoir são figuras totalmente desconhecidas. A satisfação alarve da ignorância.

A cidadania é da responsabilidade de todos. Se os órgãos de comunicação social, nomeadamente a RTP, pactuam com estes desmandos, é porque se demitiram do seu papel.

Pela estrada com podcasts


As longas viagens para o trabalho ensinaram-me a ouvir podcasts.

Há muitos, de temas e qualidades diversas. Tenho procurado os do Expresso, os do Público e outros de que vou ouvindo falar.

Um dos que mais gosto é o podcast 45º, de José Maria Pimentel. Os convidados são muito interessantes, das mais diversas áreas do conhecimento, e as entrevistas têm tempo para se desenvolver, sem atropelos nem interrupções constantes. O entrevistador - José Maria Pimentel - está sempre bem documentado, de forma a conduzir uma conversa fluida e inspiradora.

O último episódio que ouvi é de outubro do ano passado, com Cátia Batista, professora catedrática de Economia na Nova SBE e diretora científica do centro de investigação NOVAFRICA, sobre imigração e emigração. Fiquei a saber que os países de origem e de acolhimento têm ganhos muito positivos com este fenómeno, ao contrário do que podemos pensar. Desmonta mitos e desinformações de uma forma serena e com dados e estudos científicos.

Ouvi ainda um podcast com Ana Domingos, neurocientista e professora na Universidade de Oxford, sobre biologia, fisiologia e fisiopatologia da obesidade, interessantíssimo, com Maria João Afonso, professora aposentada de Psicologia na Universidade de Lisboa, sobre inteligência, e muitos outros.

A informação científica de qualidade existe e é tão fácil de encontrar. Não é preciso ouvirmos inanidades nem programas de e para indigentes.

16 abril 2026

Da casa sobra o teto

Turning the World Upside Down

Anish Kapoor


Começar a vida pela pintura

Terceira segunda demão

Primeira o branco do luto

As janelas são dispensáveis

Pois o sol procurou outras almas

Ao olhar o abismo

Algo de redentor aparece

14 abril 2026

A democracia precisa de ser defendida

 


Durante muito tempo achei que não se deveria dar palco a André Ventura e aos seus apaniguados. O que dizem é de tal forma idiota, mentiroso, manipulador, desonesto, etc, que qualquer pessoa com o mínimo de decência conspurcar-se-ia se se misturasse com essa gente.

O problema é que não resulta. Não é o desprezo e a consciência de que não é possível falar em níveis minimamente aceitáveis com esses fascistas que os faz desaparecer. Muito pelo contrário, essa minha crença, comungada por tantos outros, não se deu conta de que os deixámos a falar sozinhos, pois retirámo-nos da equação.

Ao assistir ontem ao frente a frente absolutamente inacreditável entre Pacheco Pereira e André Ventura, com vómitos, felizmente metafóricos, permanentes, que percebi que não poderíamos manter este distanciamento higiénico.

Ao contrário de tantos comentadores, que apelidaram Pacheco Pereira de ingénuo, espantando-se com o que o terá levado a fazer o repto que fez a André Ventura, só posso agradecer-lhe pela coragem de rolar na lama, na pocilga em que André Ventura transforma qualquer hipótese de conversa.

Temos de ir à luta, sim, custe o que custar, e não nos calarmos de nojo perante aqueles que avançam sem medo, que mentem sem vergonha, que distorcem, que caluniam, que insultam, que misturam e comparam o que não é miscível nem comparável.

Temos de estar sempre presentes, provocar-lhes a ira, provocar-lhes a fácil e rápida falta de educação, a ignorância contente, a empáfia dos alarves que se comprazem com o ódio e a crueldade.

Não é possível mantermos esta atitude de democratas tolerantes e condescendentes. Democratas e tolerantes perante opiniões sim, mas sempre irredutíveis no que diz respeito à negação daqueles que utilizam mentiras para desculpabilizar uma ditadura férrea, irascíveis na não aceitação de insultos a quem lutou toda a vida pela democracia e pela liberdade. Não é mais possível ignorar o desrespeito, a grosseria, o bulling deste grupo.

Hão de falar tanto, gritar tanto, espalhar lama por tanto lado e por tanta gente, que ela acabará por lhes cair em cima. Nunca devemos desistir de o mostrar, de os apelidar de mentirosos, ignorantes, racistas, xenófobos, mal educados, grosseiros, misóginos, corruptos, tudo o que, de facto, são.

Estes aprendizes de Trump não nos podem calar por falarem mais alto. A coragem é mesmo enfrentá-los. Não é mais possível suster a respiração e tentar olhar para o lado.

Pacheco Pereira fez o que todos devemos fazer – mostrar que não admite os epítetos que aquele beato mentiroso usou.

Não nos enganemos. A democracia precisa de ser defendida.

04 abril 2026

Páscoa

Salvador Dalí

Não estou tanto nem tão pouco

Do aqui do que fugi

Culpados os sonhos

Que não vivi

 

Não estou tanto de mim mas de ti

Se me quiseres em paralelo

Neste modelo

De mim

 

Não estou para qualquer morte

Nem para qualquer vida

Tão real e definida

Como a dor

Os 50 anos da Constituição da República Portuguesa


Ouço a gravação em arquivo da RTP, da Aprovação da Constituição da República Portuguesa e da Sessão Solene de Encerramento da Assembleia Constituinte, a 2 de abril de 1976.

É inevitável a comparação cm a cerimónia dos 50 anos deste dia, no Parlamento.

A degradação da palavra, da retórica, dos comportamentos, da tolerância, da democracia, são evidentes.

Bem sei que tudo muda e tudo mudou, mas nem sempre para melhor.

A democracia está sob ataque, como diz Pacheco Pereira, por dentro. Cabe-nos a nós não o permitirmos. Cabe-nos a nós defendê-la. Cabe-nos a nós não querer voltar atrás.

A liberdade tem de continuar a passar por aqui.

27 março 2026

Espaços

Rosário

Os espaços rearrumam-se misteriosamente

como se as peças de um puzzle mudo e desconexo

se movimentassem em aves noturnas e enternecidas.

Um casulo de janelas entreabertas

móveis onde o corpo se aconchega e encosta.

Se os espaços se moldam ao nosso mundo

faremos dos espaços o nosso mundo.

Talvez se aclare e esclareça.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...