06 abril 2023

Cordeiro

 


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Mosaico


Museu Glencairn


 


Nesta roda mal rodada


Que com penas nos depena


Pelo tempo depenada


Com suspiros mas sem pena


 


Hora agora que rezamos


Aos fiéis de pacotilha


As mãos postas que mostramos


Santa cruz na gargantilha


 


Não nos chegam os pregões


Nem os joelhos no chão


Amealham-se os sermões


p'ra futura redenção


 


Toca o sino e o badalo


Pasta o cordeiro de leite


Dorme o burro e canta o galo


Não há deus que se respeite


 

27 março 2023

Jardim Zoológico de Cristal

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Jardim Zoológico de Cristal


Há momentos que nunca esquecemos e que regressam mesmo sem que nos apercebamos.


Há muitos anos, estava eu a passar uma ou duas noites em casa de uma amiga minha, coisa que muito enervava a minha mãe muito pouco habituada a estas liberdades habituais em gente que vinha de África, quando senti a irmã dessa minha amiga chegar a casa, vinda do teatro.


Vinha a chorar desabaladamente, de uma forma que me impressionou e tocou profundamente. A peça que tinha ido ver era o Jardim Zoológico de Cristal, de Tennessee Williams. A sequela de uma poliomielite fazia-a coxear e (penso eu, pois nunca o verbalizei, tal o pudor que tive de falar de algo tão íntimo e doloroso), isso fê-la identificar-se com a protagonista.


Eu conhecia a peça pois tinha visto, uns anos antes, o filme de 1950 - Glass Managerie, de Irving Rapper, a preto e branco, de que tinha gostado muito. E a cena que mais me impressionou foi a que se passava na escola de datilografia, em que se via Laura a coxear e o ruído do aparelho da perna omnipresente e ensurdecedor.


Depois li mais do que uma peça de Tennesse Williams, que considero um extraordinário escritor.


 


Ontem fui ver O Jardim Zoológico de Cristal, encenado por Natália Luísa, do e no Teatro Meridional.


É sempre uma experiência diferente. O foyer espelha o clima do Teatro, as opções estéticas do Meridional, o carinho e o cuidado que põem na construção das peças, os cenários, as cores, a luz, os objetos, os tecidos, tudo que o que descobre a propósito de um texto, de uma época, o envolvimento com outros grupos, escolas, etc.


O café, o chá, os bolos, o som do espanta-espíritos que nos deixa de imediato arrepiados e expectantes. A sala com as cadeiras ocupadas por mantinhas, a penumbra e o perfume.


Sempre me espanto pela intrínseca qualidade e sofisticação de tudo quanto o Meridional faz. A escolha dos atores é sempre certa, de tal maneira que não nos ocorre nenhuma outra. A entrega de todos, a dicção perfeita, as emoções que despertam, o respeito pelo autor, pelas palavras, pela história, pela memória, a música presente-ausente.


Absolutamente emocionante. Um clássico com uma interpretação sublime de todos os atores, uma cenografia simples, sem que nada falte nem seja supérfluo.


É difícil descrever o turbilhão de sentimentos que me assaltaram. Fui para casa muito mais rica.


Obrigada, Natália, por mais esta peça inesquecível.

19 março 2023

Pais e Filhos

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Fatherhood as Described by Paul Beatty


Rashid Johnson


2011


 


Acabaram de sair de casa. Contentes e serenos, lado a lado.


Vou arrumando minimamente os desarrumos. E recordando outros dias, outras refeições, com os mesmos ou mais protagonistas.


Tenho saudades de mais lugares ocupados, particularmente um, que de vez em quando me dói como se me faltasse um bocado. Que falta.


Uma mesa de família, naqueles momentos em que as famílias são o aconchego e a razão do nosso equilíbrio, naquelas horas em que apenas as boas memórias nos assaltam.


Eu tenho muito boas memórias. E a mesa tem sempre o ruído das vozes, os cheiros da comida, o prazer da companhia.


Ficamos os dois. Ficamos bem.

25 fevereiro 2023

A paz será a derrota de Putin

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Antena 1


Há um ano começou uma guerra que não pensava possível.


O regime russo, encimado pelo ditador Putin, que mantém os seus súbditos na indignidade do silêncio, que mata quem se lhe opõe, sejam eles adversários políticos ou não, mantém-se surdo à mínima razoabilidade. Em nome de uma grandeza mirífica, de uma auto-imagem distorcida, de uma Rússia regressada aos tempos da guerra fria.


Cidades calcinadas, milhares de mortos e de feridos, milhões de refugiados, um país destroçado. Felizmente, e até agora, a Europa e os EUA têm sido cúmplices e aliados na guerra.


Ontem, na Assembleia da República, multiplicaram-se as homenagens de Portugal ao esforço ucraniano. A solidariedade de um país livre e democrático para com outro país que o quer ser. Mais uma vez, é lamentável que forças políticas que se dizem democráticas, apoiem o regime russo e Putin, mesmo reclamando que são contra a guerra e a favor da paz.


Todos somos a favor da paz - de uma paz que não seja provisória, de uma paz que defenda a autodeterminação dos povos, a liberdade e a democracia. De uma paz que defenda os valores pelos quais a Europa se bateu e se bate, pela afirmação dos Direitos Humanos e do primado do Direito Internacional.


Não há fim à vista. Sabemos como começou, mas nunca como e quando acabará.


 

12 fevereiro 2023

E nós vamos aceitando

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E nós vamos aceitando.


Porque não queremos ser insultados nas redes sociais, porque não queremos ser olhados de lado ao usarmos palavras malditas, ao defendermos aquilo que até há bem pouco tempo, era considerado liberdade artística, criação, multiculturalismo, tolerância pela aceitação da diferença.


Policiamos a linguagem, o desenho, as opiniões, o teatro, o cinema. Não há lugar a debates, a discussão e trocas de ideias. Há barricadas, o lado certo e o lado errado.


Os factos deixaram de o ser. As interpretações do mesmo são, neste momento, aquilo a que temos direito não só nas redes sociais, como nos media. A manipulação do que se escreve, do que se diz, nem que seja para que os títulos sejam tremendistas, mesmo que as notícias digam o contrário, são a informação contemporânea. Não interessa se é verdade ou não.


O discurso corriqueiro, alarve, terrorista, inunda opinantes, políticos, gente que vive e actua pela imagem. Deixou de haver privacidade pois já não distinguimos o espaço público da nossa casa. Tudo se mostra nas redes sociais, tudo se diz em alta voz, tudo é público e não privado, pois o privado levanta teorias da conspiração.


E nós, vamos calando.

God Give Me Strength


Burt Bacharach


Elvis Costello

Nova morada - do Sapo para o Blogger

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