25 dezembro 2022

Pequeníssimo conto de Natal

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Está em Portugal desde 2010.


O marido veio em 2000.


Os filhos nasceram cá.


Neste momento o irmão está na guerra, os pais não quiseram sair do seu país.


Depois de ser médica especialista na Ucrânia teve de repetir o internato da especialidade em Portugal, pois não lhe deram equivalência.


Por detrás da máscara e dos olhos, sorri e chora, e atende os meninos que, na noite de Natal, estão doentes.


Conforta os pais deles e pensa nos seus meninos em casa, nos seus pais numa terra destruída, em tantos dos irmãos que, como o dela, batalham, literalmente, por um país independente.


Um Natal de 2022.

24 dezembro 2022

Boas Festas

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Partilhemos a casa, a mesa, a paz, com quem está desabrigado, com quem é menos afortunado, com quem sofre.


Partilhemos a nossa companhia com todos os que prescindem do seu conforto para dar conforto, ajuda, socorro, com quem mantém as nossas casas quentes, as ruas desimpedidas, as comunicações a funcionar, com quem nos limpa o que tanto e cada vez mais desperdiçamos.


E sobretudo, partilhemos a alegria.


Bom Natal a quem passa!

11 dezembro 2022

Há pessoas

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Scott Jolman


 


Há pessoas que passam pela vida tão quietas, silenciosas e discretas, que a palavra que nos lembram é presença.


De corpo médio e sólido, de voz branda e palavras poucas, de olhar atento e sorriso fácil, aparecem sempre de mãos cheias sem que se lhes peça nada, aparecem sempre quando são precisas, sem que se façam lembrar.


Uma linha de continuidade, um barco à espera, um manto que aquece.


Há pessoas que passam por nós tão quietas e discretas que nos fazem lembrar como o ruído é desnecessário.

10 dezembro 2022

Quadras de Natal (9)

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Salvador Dali


 


Sem presentes nem lareira


Sem fé nem religião


Quero ter à minha beira


Uma luz de imensidão


 


Pode ser o teu olhar


Ou o quente de um abraço


O silêncio a estalar


No recanto do meu espaço


 


Mas se à porta for bater


Qualquer coisa de divino


A quem assim me quiser


Viajante ou peregrino


 


Faremos da companhia


A festa da Consoada


Carinho que se confia


À família ofertada


 

26 novembro 2022

Do Deslumbramento

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É fácil não pensar, engolir as imagens cada vez mais rápidas que nos passeiam pelos televisores, monitores de computador, ecrãs de telemóveis. Anestesiamos a voz interior, o cruzamento das ideias, a dor, a dúvida, o espanto. Acomodamos tão bem as desculpas do cansaço, do stress, do impossível reverter do tempo e da vontade adormecida.


Para que serve a arte? Para quê a cultura? Cada vez a entendemos mais como qualquer coisa que entretém, que nos desvia da dura realidade, que nos ocupa o cérebro e os poucos momentos que temos para respirar.


Esquecemos rapidamente que viver implica entrega, fracasso, sonhos, memórias, fragmentos que queremos e temos que procurar, encaixe das mais diversas sensações que não compreendemos, busca de prazer e esquecimentos selectivos, amores vários e de vários tipos, morte, ódios e desrazões, tanta contradição e nebulosas como instantes de beleza e deslumbramento.


Pois é Do Deslumbramento que falo. Fui ver esta peça domingo passado, um texto original de Ana Lázaro construído para a comemoração dos 30 anos do Teatro Meridional.


Confesso que não sei o que dizer, de tal forma me marcou.


O jogo de luzes, o espaço cénico minimalista, a depuração e simplicidade da representação, a música, a incrível sensação de que não estamos perante uma peça de teatro mas de cenas e de conversas interiores daquelas personagens.


Quem são elas? Elas como actores ou os actores como personagens? Estamos dentro de alguma coisa prestes a acontecer ou a recuperar fragmentos do que aconteceu? O que é um corpo, uma memória, uma verdade? O que faz o tempo? É o tempo que faz o corpo e a memória ou a memória que conta o tempo e constrói um corpo? De que nos lembramos verdadeiramente? O que desencadeia a sensação? A luz, a sensação de queda no abismo, a certeza do branco ou do escuro? A dúvida? A incerteza das lembranças, dos sons, dos pequenos acordares dos nervos, da água nas mãos, do inundar das perguntas?


Quem somos para nós? Quem somos para os outros? O que se esconde em cada memória refeita ou em cada corpo que retalha o tempo de que se recorda?


Teatro tão simples e erudito, que parte de cenas breves e de sensações, do trabalho do actor, de uma peça como Bruscamente no Verão Passado, em que é preciso apagar uma fatia de cérebro para cortar uma memória, para a recuperação de uma fatia de cérebro para recuperar uma vida, pela memória.


Do Deslumbramento. Das melhores peças que tenho visto no Meridional, e todas elas são soberbas.


Ainda têm uma semana.

17 novembro 2022

Se eu fosse à terra do bravo

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Fritz Bultman


 


Se eu fosse à terra do bravo


Se eu fosse à terra do bravo


Bravo meu bem


Sem a tua companhia


Bravo meu bem


Sem a tua companhia


 


E de lá viesse cravo


E de lá viesse cravo


Bravo meu bem


Para ver se alvorecia


Bravo meu bem


Para ver se alvorecia


 


Se as ondas que o mar estende


Se as ondas que o mar estende


Bravo meu bem


Nos braços da ventania


Bravo meu bem


Nos braços da ventania


 


No canto que se suspende


No canto que se suspende


Bravo meu bem


Com a tua valentia


Bravo meu bem


Com a tua valentia


 


Que seja de bravo e terra


Que seja de bravo e terra


Bravo meu bem


O amor que arrepia


Bravo meu bem


O amor que arrepia


 


No cravo da nossa guerra


No cravo da nossa guerra


Bravo meu bem


A espuma que nos sacia


Bravo meu bem


A espuma que nos sacia

Eu fui à terra do bravo


Canção popular dos Açores


Zeca Afonso


 


Eu fui à terra do bravo


Eu fui à terra do bravo


Bravo meu bem


Para ver se embravecia


Bravo meu bem


Para ver se embravecia


 


Cada vez fiquei mais manso


Cada vez fiquei mais manso


Bravo meu bem


Para a tua companhia


Bravo meu bem


Para a tua companhia


 


Eu fui à terra do bravo


Eu fui à terra do bravo


Bravo meu bem


Com o meu vestido vermelho


Bravo meu bem


Com o meu vestido vermelho


 


O que eu vi de lá mais bravo


O que eu vi de lá mais bravo


Bravo meu bem


Foi um mansinho coelho


Bravo meu bem


Foi um mansinho coelho


 


As ondas do mar são brancas


As ondas do mar são brancas


Bravo meu bem


E no meio amarelas


Bravo meu bem


E no meio amarelas


 


Coitadinho de quem nasce


Coitadinho de quem nasce


Bravo meu bem


P'ra morrer no meio delas


Bravo meu bem


P'ra morrer no meio delas


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...