10 novembro 2022

Memórias

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Memories, Dreams, & Reflections


Deirdre Doyle


 


Vou cantando em novelas de encantar


Embrenhada nas florestas invisíveis


Respirando como flor a despertar


Entre as pedras de caminhos impossíveis


 


Salgo o sangue com que tatuo o destino


Refluindo nas palavras que desenho


Mais fugazes que um poema repentino


Mais letais do que as espadas que não tenho


 


Forma um grito o teu nome que não vejo


Na candura da minha dedicatória


A presença mais ausente que protejo


Esculpida na cortina da memória

09 novembro 2022

Força Estranha


Caetano Veloso & Gal Costa


 


Eu vi um menino correndo


Eu vi o tempo brincando ao redor


Do caminho daquele menino


 


Eu pus os meus pés no riacho


E acho que nunca os tirei


O sol ainda brilha na estrada e eu nunca passei


 


Eu vi a mulher preparando outra pessoa


O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga


A vida é amiga da arte


É a parte que o sol me ensinou


O sol que atravessa essa estrada que nunca passou


 


Por isso uma força me leva a cantar


Por isso essa força estranha


Por isso é que eu canto, não posso parar


Por isso essa voz tamanha


 


Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista


O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece


Aquele que conhece o jogo, do fogo das coisas que são


É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão


 


Eu vi muitos homens brigando, ouvi seus gritos


Estive no fundo de cada vontade encoberta


E a coisa mais certa de todas as coisas


Não vale um caminho sob o sol


E o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol


 


Por isso uma força me leva a cantar


Por isso essa força estranha


Por isso é que eu canto, não posso parar


Por isso essa voz tamanha


 


Por isso uma força me leva a cantar


Por isso essa força estranha no ar


Por isso é que eu canto, não posso parar


Por isso essa voz tamanha

06 novembro 2022

Assim o amor

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Sophia de Mello Breyner Andresen


 


Assim o amor


Espantando meu olhar com teus cabelos


Espantando meu olhar com teus cavalos


E grandes praias fluidas avenidas


Tardes que oscilavam demoradas


E um confuso rumor de obscuras vidas


E o tempo sentado no limiar dos campos


Com seu fuso sua faca e seus novelos


 


Em vão busquei eterna luz precisa


 


Sophia de Mello Breyner Andresen


in Geografia, 1967

Permaneço

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wait for the promised


Peter Demetz


 


Permaneço nos simples gestos do viver.


O segurar da maçã o apertar dos olhos


o arrepiar da roupa o engolir do silêncio


gota a gota saboreando a dureza


e a maturidade das rugas


o aninhar do corpo o enrolar da toalha


somando os intervalos da respiração do mundo.

O sinal

The_Three_Wise_Monkeys,_Nikkō_Tōshō-gū;_April_


Três Macacos Sábios


Santuário Tōshō-gū


A mais subtil e invencível censura é a própria, tendendo a transformar-se em omnipresente. Impõe-nos um silêncio que se torna mais profundo e que abrange cada vez mais assuntos. E eu estou imersa na capacidade de me auto-censurar.


Ontem este blogue fez 17 anos. Tal como eu e tantas coisas que aprecio, nomeadamente a liberdade, está fora de moda. Discutir, trocar ideias, colocar opiniões à apreciação pública sem que estas sejam de imediato a razão de insultos, de assassinatos de carácter, do destilar de ignorância, preconceitos, ódio, desprezo, acusações, são conceitos datados e a cheirar a bafio.


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Pedro Silva


Mas quando me revolto e resolvo empunhar a metafórica pena da expressão livre do pensamento, quando decido que vou opinar sobre as minhas pequenas e pouco importantes preocupações, ouço o nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a demonstrar que o silêncio pode ser mesmo de ouro, que as palavras devem ser medidas e escrutinadas pela nossa censura interior, que a prudência e a possibilidade de causar mais turbulência e ruído esdrúxulo devem ser muito ponderadas, antes de as proferirmos.


Aliás o nosso Presidente é o exemplo vivo da verborreia cada vez mais perigosa, da falta de filtros, do desbragar do disparate. Não percebo bem se o objectivo é provocar ou se é apenas um destemperamento irreprimível de alguém que nunca foi muito contido.


E por isso, tal como um sinal dos céus, desce de novo sobre mim o manto da censura impelindo-me ao calar da boca, mas mantendo os olhos e os ouvidos bem abertos.

09 outubro 2022

Viver de outra forma

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Quando o confinamento nos foi imposto em 2020 e 2021, li extensos textos sobre o respirar da Terra exausta, a felicidade da paragem da vida, da interiorização e individualidade humanas, odes ao fim do consumismo e do desperdício, à vida saudável, simples e sustentável.


Foram dois anos em que a maior parte das actividades económicas pararam, em que os governos gastaram milhões de euros a apoiar as pessoas que, dentro de portas, não podiam sustentar-se. Não houve défices nem obrigações de pagamentos de dívidas.


Não sei o que esperávamos, mas era lógico que este tipo de situação geraria crises posteriores, com a obrigação dos Estados refazerem as suas economias. Como era de prever, a suspensão das regras europeias e os perdões dos endividamentos dos Estados não durariam para sempre.


Depois a guerra, a inqualificável invasão da Ucrânia pela Rússia, a crise energética, as sanções, o medo, o pessimismo europeu, o arrefecer das perspectivas de reanimação económica, as dificuldades que se avizinham e o desconhecido decorrente de mentes loucas como a de Putin em relação a uma possível guerra nuclear.


Para além disso, as alterações climáticas com as suas secas históricas, as suas cheias monumentais, tufões, etc., que alteram as colheitas, que modificam as estações do ano, que reactivam ou adormecem pragas e pandemias.


É óbvio que teremos de aprender a viver de outra forma, usando pouco, menos, cada vez com mais parcimónia, os recursos naturais. Teremos de racionar os nossos gastos de água, de electricidade, de gás. Teremos de usar menos os carros, as televisões, as máquinas. Teremos de andar mais a pé. Teremos de comer menos e coisas diferentes. Teremos de reduzir, regrar, reutilizar. Nós, mundo ocidental, cuja pequena parcela rica gasta tudo e ainda mais que a enorme maioria da humanidade.


Esperam-nos tempos difíceis, muito difíceis, mais ainda se o pior se concretizar. Olhemos para o futuro com a esperança possível, aproveitando para mudar o que pudermos e associarmos à sociedade uma outra dimensão – a sustentabilidade dos recursos, liderada por nós.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...