07 junho 2022

Nesta carta que te escrevo

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Ivan Djidjev


 


Nesta carta que te escrevo


Com tantas letras de espanto


Abro os dedos com enlevo


Como os versos que te canto


 


Mas a voz que me emudece


Numa angústia esculpida


Confiança que estremece


Como folha ressequida


 


Não aprende a esvoaçar


Enfrentando a ventania


Que pressinto nesse olhar


Que desfaz a poesia


 


Recolho então de mansinho


E dissolvo-me no ar


Das palavras faço um ninho


No vazio que é amar


 

16 maio 2022

Coral

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Conheci alguém que, de cada vez que fazia anos de casada, aparecia com uma joia nova, com muito ouro e muitas pedras preciosas, predominantemente brincos e anéis, que eram a prenda que o marido lhe dava pelo aniversario de casamento. Outra conhecida, bastante bem humorada e verrinosa, lançou o boato de que era a própria aniversariante que comprava as joias e não o marido, que não parecia nada o género comprador de ouros e que, para além do mais, tinha toda a pinta de nem se lembrar sequer da data.


Isto vem a propósito de hoje fazer 35 anos de casamento. É obra! 35 anos é já uma eternidade!


A internet diz-me que aos 35 anos se celebram as bodas de coral, nos sites brasileiros a que fui parar nesta importante pesquisa científica. E coral porque os corais marinhos levam anos a formar-se. Bem, de facto 35 anos já deve dar um belo coral terreno, já um ecossistema bem organizado e estável.


Decidi que este ano, para comemorar tanta construção e maturidade em união casamenteira, era a altura certa para o meu espantado marido me ofertar um colar, um anel ou uns brincos de intenso, duro, e intrincado coral. E decidi ainda que, tal como o boato que circulava em relação à pessoa que conhecia, seria eu própria a comprar as ditas joias, já que o meu querido marido achou que eu tinha endoidecido, pois nunca em 35 anos de casamento me viu querer qualquer adorno desse tipo, sendo mesmo militantemente contra as arrecadas e semelhantes.


Ao passar em frente a uma loja que vendia artefactos com cristais coloridos, comprei um colar, uns brincos e um anel, não de coral mas multicolores, para compensarem todos os outros anos, para além de anteciparem todas as próximas bodas até às de ouro.


Ele gostou e eu estou muito contente.


O resto do dia foi típico de um casal com 35 anos, resolvendo assuntos domésticos e empresariais, sempre a dois, amparados pelos intervalos gastronómicos, olhares e cantaroladas de paz e harmonia, pois que em dia de aniversário outra coisa não se espera.


Céu azul com algumas nuvens, numa viagem sem grandes sobressaltos, com exceção daqueles que mantém o coral vivo e a crescer.

25 abril 2022

Este lugar

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Parlamento


 


Se estes 48 anos fossem um lugar, uma paisagem, um país de terra e mar com gente que vive, sofre, luta, ama e morre, ao lado de um país anterior, de terra e mar com gente que vivia, sofria, lutava, amava e morria, eu abriria as minhas fronteiras para que essa gente do país anterior pudesse viver no país de Abril.


É a mesma gente, a mesma terra, mas é uma outra paisagem, um outro clima, uma outra natureza. Há ventos e maremotos de liberdade, culturas de democracia, prados vermelhos de cravos e poemas.


Estes são os 48 anos do meu país, do meu país de Abril. Temos ainda parcelas de eternidade até ao próximo lugar, que construiremos com esta gente, desta terra, que vive, sofre, luta, ama e morre, colhendo com esforço e leveza alguns momentos de felicidade.

23 abril 2022

Proibido por inconveniente

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No antigo edifício do Diário de Notícias, ao cimo da Avenida da Liberdade, junto ao Marquês de Pombal, está a exposição Proibido por inconveniente, organizada a partir do espólio Ephemera de José Pacheco Pereira.


Simples, sóbria e muito eficaz, damo-nos conta de todas as áreas aonde, durante 48 anos - a sociedade, as ideias, os filmes, as notícias, os livros, os filmes, as opiniões, desde as políticas às religiosas, da Guerra Colonial aos direitos das mulheres, da sexualidade à moralidade e costumes - eram passadas a pente fino pelos olhos dos inquisidores, mantendo um povo anónimo, cinzento, sem sobressaltos sentidos e sem alma visível.


Junto o exemplo da avaliação do livro A Criação do Mundo, de Miguel Torga, e Jesus de Nazaré, de José da Felicidade Alves.


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Miguel Torga - A Criação do Mundo


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José da Felicidade Alves - Jesus de Nazaré


A liberdade e a democracia são nossa responsabilidade diária. Convém que nos lembremos do que era antes de 25 de Abril de 1974.

17 abril 2022

Desamor

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Erosion


Penny Hardy


 


Nunca será demais a palavra que se cala


perante a dor do desencontro


o fundo e inexplicável vazio do desamor.


 

Da eternização em círculo

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A propósito de um artigo que apenas li hoje, no Expresso, de Joana Ascenção e Sofia Miguel Rosa, sobre a partilha da licença de parentalidade, fui reler algumas coisas que eu própria tinha escrito sobre o mesmo tema, em 2008! Passaram-se 14 anos.


Depois, porque estava no mesmo grupo de artigos que apareceram com a palavra licença, li também um texto sobre as notícias da saída de médicos do SNS para o privado. Esse texto é de 2009, portante de há 13 anos.


É extraordinário como os problemas se eternizam, sempre com grandes artigos cheios de opiniões, sentenças e, supostamente, novidades, que têm tudo menos o facto de serem novas. Catorze e treze anos depois, continuam as mesmas discussões, sem que nada de diferente se tenha realizado, sem que qualquer solução se tenha implementado.


Estamos condenados a uma ruminação permanente. De quando em quando regurgitamos as nossas doutas sapiências.

13 abril 2022

Páscoa

Lamentación_sobre_Cristo_muerto,_por_Andrea_Mante


Andrea Mantegna


Cristo morto


 


Cristo vai morrendo serena


e diariamente sem remédio nem retorno


dos pecados que o mundo lhe oferece


na eternidade da paixão que ressuscita.


Entre pedras tumulares e gritos de espanto


Cristo morre e levita


sem sentido nem perdão


atraiçoado pela fé que em si e em nós


deposita.

Nova morada - do Sapo para o Blogger

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