05 dezembro 2020

Presidenciais

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As próximas eleições presidenciais arriscam-se a ser uma desresponsabilização total, por parte da população, de um acto extremamente importante nos sistemas democráticos. Para isso contribuem as diversas crises que nos têm assolado e depauperado, a pandemia e o medrar dos populismos, que a abstenção alimenta.


A cerca de um mês do fim do prazo para a finalização das candidaturas, Marcelo Rebelo de Sousa vai fazendo campanha a coberto do seu cargo, sem ter ainda formalizado a sua recandidatura. Não havia necessidade.


Os restantes candidatos têm a árdua tarefa de mobilizar um eleitorado descrente, desmotivado e alheado, encolhendo os ombros a mais esta eleição, a que não dão qualquer importância.


E no entanto, prevendo as enormes dificuldades económicas e sociais, para não dizer políticas, que se avizinham, a legitimação de um Presidente com uma grande afluência às urnas seria fundamental para que os cidadãos se pudessem rever no seu representante.


A democracia não é um assunto dos políticos. É um assunto de todos. No momento em que deixarmos de acreditar nisso abrimos as portas à instalação de ditaduras e à entrega do poder a gente inqualificável.

Se o meu amor me deixar

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O abraço


Gustav Klimt


 


Se o meu amor me deixar


Perdida na imensidão


Serei mais terra que mar


Fogueira de solidão


 


Se o meu amor regressar


Mãos vazias de ternura


Já não me vai encontrar


Em suave e lenta fervura


 


Se o meu amor viajar


Pelas terras do além


E a um canto semear


Pozinhos de fazer bem


 


Hei-de limpar-lhe de medo


A cama onde se deitar


Faço uma trança em segredo


Dos sonhos que ele guardar


 

15 novembro 2020

Das terapêuticas anti-virais (reload)

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Não vá o diabo tecê-las


Obrigatória a prevenção


Maleitas temporãs nem vê-las


Afastamo-las com estadão


 


Panelas grandes a preceito


Há que manter a tradição


Descascar ameixas a eito


Para dentro do panelão


 


Do gengibre são conhecidas


As vantagens medicinais


Qualidades enaltecidas


E uns poderes fenomenais


 


Da canela não é segredo


Que cura gosmas e terçolhos


Contra enfartamentos e medo


Elimina até os piolhos


 


Juntar açúcar bem medido


Do branco ou do amarelo


A ser mexido e remexido


Como se enrolasse um novelo


 


As quantias serão as certas


Para adoçar o paladar


Menos ou mais verás que acertas


No gosto que mais te agradar


 

Dos modernos e tecnológicos contos do Vigário

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Ontem coloquei umas coisas a vender no OLX. Mal tinha acabado de publicar os anúncios recebo um telefonema de alguém com voz e sotaque bastante rústicos, para me dizer que estava interessado em comprar as peças. Muito surpreendida com a rapidez da decisão de compra, confirmei a minha disposição de venda não tendo sido questionado o preço, o eventual estado mais ou menos depauperado. Prometeu-me o levantamento das ditas peças em minha casa, no dia seguinte. Mais disse que queria pagar de imediato por MB WAY.


Apesar da rapidez e da aparente facilidade de tão inédita transacção, perguntei porque não pagava depois de ter as peças. A resposta veio despachada, dizendo-me que só precisava dos números para completar o pagamento.


Depois de perguntar várias vezes a que números se referia lá acabou por dizer que era o PIN.


Transacção de imediato cancelada com interrupção abrupta da ligação, da minha parte, depois de perguntar se estava a brincar comigo.


Imediatamente a seguir telefona outro rústico, dizendo que se tinha enganado no número do telemóvel para o pagamento, e que precisava dos números do PIN. Aí já não achei tanta piada.


Depois de desligar o telemóvel vi que tinha um sms do serviço MB WAY, avisando-me que tinha havido 2 tentativas de uso do PIN que estava errado e que me restava uma tentativa.


Ou seja, os rústicos tinham usado o meu número de telemóvel para tentar pagamentos com MB WAY e usaram um qualquer PIN, tentando engodar-me para lho dar.


Depois de uma pesquisa pela internet com as palavras burlas e MB WAY, lá estava bem visível o esquema. Para quem não esteja familiarizado com o MB WAY, a rapidez e o despacho dos burlões podem baralhar os incautos e induzi-los a colaborar. Mesmo assim o pedido do PIN deve acender todas as campainhas e despertar todos os alarmes.


Mais um conto do Vigário. Esta nunca me tinha acontecido.

Respeito

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Vivemos tempos muito difíceis, a todos os níveis. A pandemia veio agravar e reacender problemas anteriores, colocando as populações perante dilemas impossíveis.


A cacofonia de opiniões, interpretações, descobertas reais ou fictícias, a disseminação da certeza de que todos sabemos de tudo e o fenómeno da proliferação de meios de manipulação, desde os tradicionais aos futuristas, transforma a decisão individual e colectiva numa tarefa hercúlea.


Por outro lado, a politização da pandemia vem baralhar ainda mais os cidadãos. Em vez de uma troca de informações e opiniões baseadas nas evidências científicas assistimos à divisão entre os bons e os maus, os certos e os errados, colando cada sector a uma área ideológica, o que é, por si só, a negação da evidência científica.


Acrescem as revoltas e incertezas quanto ao futuro, que se nos afigura triste e longínquo, o aumento das desigualdades, da pobreza, da marginalização dos mais fracos e indefesos e o crescer dos populismos e das tentações autoritárias. Trump é anterior a tudo isto, mas é bem o corolário da loucura instalada.


Por isso mesmo é preciso que tenhamos a noção daquilo que, apesar de tudo, mesmo com muitos erros e indecisões, mudanças de atitude e de orientações, nos é pedido. Vivemos numa democracia representativa e num Estado de Direito. Todas as decisões sobre confinamentos, recolheres obrigatórios, máscaras, etc., por muito penosas e discordantes das nossas próprias opiniões e (in)certezas, são tomadas pelos representantes das instituições que livremente elegemos, que mandatámos excatamente para estes fins.


Esta é uma crise global, que nos assusta e desafia a todos. Não nos devemos impedir de pensar e de partilhar as nossas opiniões e dúvidas, de debater as medidas uma a uma, de questionar e os poderes sobre as suas decisões e de os julgar, nas urnas. É assustador o espírito pidesco e de pensamento único que se está a impor nas nossas sociedades, apelidando todos os que não concordam com a linha oficial de negacionistas e divulgadores de fake news.


Mas nada disto deve diminuir a nossa vontade de fazer aquilo que está determinado pelo governo, assente nas promulgações do Presidente da República e pela aprovação do Parlamento. Nada disto deve colocar em causa a confiança na competência da DGS nem no SNS. Não há milagres e as mudanças nas orientações gerais são o espelho do que ainda há a descobrir sobre esta doença e este vírus, e do andamento das investigações internacionais que, comparando com outros momentos semelhantes, tem sido de uma rapidez notável.


Tenho imenso respeito por todos aqueles que, neste momento, têm nos ombros a tarefa de nos orientar. Imagino as infindáveis horas de reuniões, discussões, trocas de argumentos, indecisões, desespero, as insónias e as angústias antes de decisões com custos tão elevados.


Respeito por todos eles, um enorme respeito. Mesmo que não concorde, que me irrite, que me espante e me revolte, cumprirei as regras.

14 novembro 2020

Filhos

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Tommy Craggs


 


Crio filhos como quem cria árvores.
Deixo-as varridas pelas intempéries
descobrindo pássaros e revivendo almas
dos que às suas sombras se recolhem.
De vez em quando arrastam braços
e arrancam raízes numa ânsia de movimento.
Nesses dias aparo troncos com sangue e lágrimas
cavo mais fundo a terra para que
do meu corpo se equilibrem de novo.
Aí para sempre me deitarei um dia dormindo
entre o lodo e a eterna revolução de viver.

10 novembro 2020

Novembro

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Fracture


Jannick-Deslauriers


 


Em frente a mim sem espelho nem nuvens


apreendo o espaço que me rodeia


respiro as últimas gotas de passado


encerro o pó e a juventude.


Não sei das janelas do futuro


nem dos ninhos de águas revoltas


que me arrastavam pela vida.


Mas ainda me esperam as papoilas de Novembro


e o doce sabor da aventura.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...