15 fevereiro 2020

Da finitude

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Daphne Wright


Swan, 2007


 


Há uns meses, numa das sessões clínicas a que assisti, o director da unidade de cuidados intermédios, chamou a atenção da assistência da incapacidade que temos em falar com as pessoas sobre se queriam e o que queriam caso estivessem com uma doença incurável e a aproximar-se da morte. Ou mesmo com os nossos familiares e amigos mais velhos, com quem nos é mais próximo e com quem mais amamos.


E disse-nos que, na maioria das vezes, as pessoas mais velhas e doentes queriam falar disso, esclarecer que não queriam determinado tipo de tratamentos, que queriam que os deixassem morrer em paz, sem idas repetidas aos serviços de urgência, internamentos, medicamentos, entubações, acessos vasculares, bombas de oxigénio, etc. Que, quando o conseguiam fazer, ficavam mais serenos e compensados, tinham a certeza que a sua finitude era uma inevitabilidade que eles próprios já tinham aceite e que nós nos recusamos a ver.


E perguntou mesmo quantos de nós sabiam o que queriam os nossos pais quando a morte se aproximasse. Se sabíamos dos seus preparativos e anseios, da sua preocupação com a nossa própria dor, da sua tristeza ao perceberem que fugíamos do assunto como se ele não existisse. E que essa fuga os acabrunhava mais que a decisão de deixar a morte chegar.


Nesta discussão da eutanásia ouço muitos pronunciarem-se mas pergunto-me se, dentro de si mesmos, já terão tido a coragem de enfrentar este tipo de conversas. Se, no fundo, todos esperamos que por algum decreto divino tudo seja revelado e resolvido sem que tenhamos que nos envolver.


E isso é impossível. E os nossos receios são aqueles que mais nos assombram e mais nos impedem de deixar que as decisões não sejam as nossas, mas de quem está verdadeiramente em causa.

12 fevereiro 2020

O descongelamento pontual corrosivo

cavaco_campanha_pr11.jpg“Os deputados não podem tratar com leviandade o bem mais precioso de cada indivíduo, a VIDA. Não procurem enganar os portugueses dizendo que é uma questão de consciência. É sim, um retrocesso no nosso sistema de valores” (...) “os portugueses que defendem o primado da vida humana devem registar o nome daqueles que, na Assembleia da República, votaram a favor da eutanásia” (...) “para o futuro, é importante não esquecer quem são os responsáveis por tão grave erro moral”.


 


Cada vez que sai da torre de gelo onde se esconde, Cavaco Silva descongela e corrói com o seu azedume qualquer debate sério sobre qualquer assunto - neste caso a despenalização da eutanásia.


Do alto da sua grandeza moral, que os restantes pobres mortais só terão se nascerem várias vezes, sai a lingua viperina condenando a moralidade dos deputados, exortando os fiéis a identificarem aqueles que, em nosso nome (como os eleitos numa democracia representativa), decidirem sobre este assunto.


Tal como quando se falava da despenalização do aborto, lembrando-se a indispensabilidade da educação sexual e do planeamento familiar, para além do perigo do aumento em flecha do número de abortos que se iria transformar num método contraceptivo, já se reúnem os mesmos grupos para prever a horda de assassínios de gente abandonada, lembrando a importância dos cuidados paliativos.


É um assunto difícil pois mexe com as mais íntimas concepções de vida e de morte, com o sofrimento e com a dignidade de cada um de nós. Cavaco Silva levou a discussão para o campo da culpa - exactamente aquilo que se não deve fazer.


Nota: vale a pena ler esta opinião de Alexandre Quintanilha.

30 janeiro 2020

Informação, rigor, ciência, partilha

(...) "Devemos acelerar o desenvolvimento de vacinas, terapias e diagnósticos; combater os rumores e a desinformação; rever os planos de preparação, identificar lacunas e avaliar os recursos necessários para identificar, isolar e cuidar de casos de impedir a transmissão; e partilhar dados, conhecimento e experiência com a OMS e o mundo. A única maneira de derrotar este surto é que todos os países trabalhem juntos num espírito de solidariedade e cooperação. Estamos todos juntos nisto e só podemos parar juntos" (...)


(...) "A OMS não recomenda a restrição de viagens, as trocas comerciais e os movimentos [de pessoas] e opõe-se mesmo a todas as restrições de viagens." (...)


DN


OMS - Conselhos ao público


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OMS - relatórios da situação


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mortalidade até 30/Jan/2020 - 2,17%


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OMS - conferência de imprensa 30/Jan/2020

29 janeiro 2020

Um dia como os outros (190)

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"(...) Que, entre nós, o Livre o tenha decidido fazer em sede de orçamento sem uma discussão enquadradora e propondo que o grupo de especialistas a constituir integre “activistas anti-racistas”, levanta genuínas dúvidas se se trata de uma medida que procure ser consequente ou só mais um espúrio agitar das águas.


Que o deputado e líder do Chega, André Ventura, tenha reagido de forma abjecta à proposta, defendendo “que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país”, mostra que mesmo que a discussão seja importante, ela dificilmente será profícua se for travada pelos extremos."


David Pontes


 


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"André Ventura sugere devolver "ao país de origem" Joacine Katar Moreira, que por sua vez quer devolver às ex-colónias bens culturais dos nossos museus que lhes pertençam. Francisco Rodrigues dos Santos quer devolver ao CDS a posição de partido que não caiba no táxi, mas sem ter Joacines e a tentar não se aproximar muito do Chega. Que, entretanto, também tem afastamentos a fazer e se demarca da saudação nazi feita por um participante no jantar do partido no Porto.


Parece anedota, mas é o resumo das últimas horas no país político dos pequenos, que vai mostrando poucos motivos para graças. (...)


(...) Por contraditório que possa soar, a afirmação racista, intolerante e completamente intolerável de André Ventura acaba por ter uma vantagem. Se até há pouco o deputado do Chega tentou usar de um tom manso e negar que seja extremista, xenófobo ou nacionalista, deixá-lo falar à vontade é a melhor forma de mostrar claramente quem é e as pessoas que abriga no partido. A saudação nazi vista durante o hino nacional não é um acaso de que Ventura possa realmente demarcar-se. É uma consequência do que o Chega defende e dos ódios de que se alimenta. (...)"


Inês Cardoso


 

28 janeiro 2020

Da distorção dos princípios

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Sempre eles, os princípios, aqueles que todos juramos defender, observar, sermos escravos de e por, mas que rapidamente são esquecidos e eliminados em nome de uns quaisquer valores que, circunstancialmente, sejam mais interessantes, estejam na moda ou sejam sexys, palavra e conceito político introduzido por Pires de Lima e glosado pelo novo líder do CDS.


O facto de haver corruptos e corruptores, da craveira e potência de Isabel dos Santos, não nos deve fazer abandonar a estrita defesa da essência da justiça. Qual ou quais os métodos utilizados por Rui Pinto para expor as provas documentais das operações de Isabel dos Santos? Qual ou quais as contrapartidas que quis ter, ou teve, para essa exposição?


Pelo pouco que vou sabendo, Rui Pinto é um pirata/ladrão informático (hacker é mais sexy), para além de ter tentado extorquir dinheiro de alguns dos visados no caso do football leaks, ou seja – fez chantagem. Portanto, é um criminoso, caso se prove que isto é verdade. Não é um herói, não merece uma medalha, mas sim ser julgado e, caso se prove a sua culpa, condenado como ladrão e chantagista.


É claro que a ajuda de ladrões e chantagistas sempre foi usada para perseguir piores ladrões e piores chantagistas, assassinos, etc. Mas não devemos perder de vista a essência, nem sequer aplaudir a forma e os métodos usados para chegar a casos a que seria difícil chegar de outra forma. Nem sequer este é um bom exemplo. Ou é uma grande surpresa o que se passa no mundo do futebol? E no caso de Isabel dos Santos, a razão da falta de investigação e actuação judicial não será mais política que qualquer outra?


A isto se chama não olhar a meios para atingir os fins. Ana Gomes é corajosa e sempre denunciou a eventual teia de corrupção de Isabel dos Santos e família. Mas a actuação que agora se pretende heroica e quase abnegada de Rui Pinto é uma distorção perigosa e populista de princípios que deveriam nortear a nossa justiça e os nossos valores.

20 janeiro 2020

Sem juros

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Calvin & Hobbes


 


Fui ao banco do carinho


depositar excedentes


de juros nem um cheirinho


a nenhum dos componentes.


 


Ficaram lá bem guardados


para dias de amargura


poderão ser transformados


em misturas de ternura.


 


Um abraço apertado


aquece a alma carente


e devolve em redobrado


amor puro e resistente.


 


O carinho não se explica


sobra cobra ou esmorece


o carinho multiplica


o que de amor estremece.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...