10 novembro 2018

Um dia como os outros (188)

UmDiaComoOsOutros.jpeg


 (…) Mas estes homens têm uma corte, porque o poder autocrático tem uma capacidade enorme de atrair a degenerescência da virtude, de poder ser usado para comprar e vender interesses e para dar aos pequenos da mesma espécie a ilusão de que também são grandes, porque estão à sombra dos gigantes. Aqueles a quem tenho chamado os nossos bolsonarinhos e trumpinhos desdenham Bolsonaro e Trump e não quereriam ver-se em sua companhia à mesa. (E daí não sei... Talvez, depende, não é impossível, podia ser, e se for uma selfie, não ficava mal, para pôr na mesa de cabeceira...) Por isso juram a pés juntos que não gostam deles. MAS GOSTAM DO QUE ELES ESTÃO A FAZER. Vai em maiúsculas por que é isso mesmo. (…)


 


(…) E não se iludam com as aparentes reticências e com as explicações rebuscadas, que não “reticenciam” nada, nem “explicam” nada, porque lhes falta o sentimento de nojo. E o nojo é o sentimento exacto. Eu vi a conferência de imprensa de Trump, em que ele disse que se os democratas investigarem os seus impostos, ele vinga-se investigando os democratas, coisa que ele diz que faz muito melhor. Senti nojo. Ponto.


 


Pacheco Pereira

06 novembro 2018

A tentação do abismo

tancos.jpg


André Carrilho


 


 


Andamos numa vertigem de fabricação e exploração de casos, sem distinguir a sua gravidade e importância e sem cuidar de preservar as Instituições. O caso do desaparecimento/ reaparecimento das armas de Tancos é disso um exemplo. Na corrida para a visibilidade e para o protagonismo, mastigam-se os actores políticos e as Instituições. Responsáveis partidários, comentadores e jornalistas, na ânsia de se fazerem notados, baralham e envolvem ministros, militares, polícias e, como já é pouco, também o Primeiro-.ministro e o Presidente da República.


 


Cada vez é mais difícil tentar perceber o que se passou e o que se está a passar - houve ou não roubo? Se sim quem foram os ladrões, onde estavam e onde estão as armas que faltam? Vendidas, traficadas, destruídas, emprestadas? Se não, qual o objectivo da farsa? Quem a criou e com que fim? A sua restituição foi negociada para encobrir os criminosos ou não? Se sim, porquê? Quem é que se quis encobrir? Se não, porque se falou em encobrimento? A sensação que tenho é que nada disto é real e que tudo é uma manobra de diversão para distrair do foco principal - e qual é o foco principal? Voltamos ao princípio - houve ou não roubo?


 


O que mais destrói a confiança dos cidadãos no regime democrático são estas graves palhaçadas, em que a corrida para alcançar a fama vai destruindo e atropelando tudo o que aparece. As pessoas vêm-se perdidas, sem perceberem o que se passa, e cansam-se da repetição até à náusea das mesmas coisas. O novo mote, lançado por Marques Mendes, é o atrito entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, que se vai repetindo por todos os media.


 


No dia em que há eleições nos EUA, país que tem como Presidente uma criatura inominável que apela aos nossos piores instintos, deveríamos pensar bem no perigo do descrédito das Instituições que, por acção ou omissão, estamos a incentivar.

05 novembro 2018

Dos anos que passam

13 anos DQ.jpg


 


 


 


 


Dei-me conta, quase sem querer, de que hoje este blogue faz 13 anos de vida.


 


Mudei muito, nestes 13 anos. Estou mais velha, mais amarga, mais silenciosa. Muito me desiludi das ilusões que tinha (e algumas ainda tenho). Nessa altura confiava na Justiça, tinha das nossas sociedades ocidentais uma onírica e ingénua visão, achava que a globalização do acesso fácil e barato à informação iria tornar os cidadãos mais exigentes, mais maduros e mais democráticos, porque mais conhecedores de factos, porque mais estimulados, porque menos ignorantes e preconceituosos.


 


Fui perdendo a ingenuidade e as esperanças, fui desacreditando das pessoas e dos sistemas políticos. Percebi que as minhas angústias e pensamentos não interessavam a ninguém e perdi a suprema arrogância de tentar mudar alguma coisa. À minha volta vejo muitos que, como eu, estão mais empalidecidos e menos certos das certezas que nos amparavam. Cheguei à conclusão que deixei de perceber o mundo, se é que alguma vez o percebi.


 


Mudei em muitos aspectos, pessoais e profissionais. Mudei de locais de trabalho, mudei de funções, tive algumas belas e estimulantes pequenas vitórias, outras tristes e estrondosas derrotas, aprendi muito com ambas, mas mais com as últimas. Conheci gente fantástica com quem tive oportunidade de trabalhar e que considero, para além disso, minha amiga, pude experimentar ideias que tinha e que me deram um enorme prazer implementar. Conheci também gente inqualificável, que me transtornou e me entristeceu, que não merece ser sequer mencionada. Creio que, apesar de tudo, consegui fazer o meu trabalho, com dedicação e empenho, catalisando, de algum modo, o despertar do melhor que há em nós.


 


Publiquei 4 livros de poesia, contando com algumas editoras que foram acreditando minimamente na qualidade do que escrevo. Deram-me muito gozo e, independentemente das apreciações que possam ser feitas por quem entende destes misteres, orgulho-me de todos eles, agradecendo a quem os ajudou a concretizarem-se. Por outro lado, descobri música, teatro, cinema e exposições, partilhei viagens, receitas e estados de alma, troquei impressões com pessoas que nunca encontraria se não fosse esta aventura blogueira.


 


Não sei por quanto tempo ainda manterei o blogue. Os desenvolvimentos políticos e sociais a que assistimos, com a ascensão de uma turbamulta autoritária, racista, xenófoba, intolerante, que apela ao ódio e à violência, deixa-me atarantada e sem saber bem como reagir. A forma como se discutem os textos, retirando do contexto frases e expressões, crucificando as pessoas que se expõem, inventando factos e transformando insignificâncias em dramas e motores de transformações estranhas, não são bons augúrios.


 


O caminho faz-se caminhando, dia a dia, mês a mês, e este continuará a ser um espaço de reflexão, pois a possibilidade de expressar o que temos dentro de nós é um exercício de liberdade que não devemos descurar. Até porque a Liberdade é frágil e fugidia, se não a cuidarmos. O meu quadrado, o nosso quadrado, pode sempre contar comigo.


 

28 outubro 2018

Escolher a democracia

bolsonaro.jpg


 


 


Alastra a onda de neofascismo, radicalização dos valores de direita ditatorial, xenófoba, racista, com desprezo e marginalização das minorias, pela liberdade de expressão e pela democracia. Não só nos EUA, como no Brasil, também em Portugal, quando ouvimos e lemos que há pessoas que têm menos direitos que outras, devemos perceber que a democracia não é uma conquista eterna.


 


Ao contrário do que se pensava, a globalização e democratização do acesso à informação, a facilidade de divulgar ideias e pensamentos, não nos fez mais cultos e mais críticos, apenas aumentou exponencialmente a nossa capacidade de nos entrincheirarmos e de multiplicarmos preconceitos, raiva e medos, desaparecendo o pudor e a vergonha de explorar e expor os nossos mais escuros pensamentos. O que era indizível passou a ser bandeira.


 


Sempre fui contra o politicamente correcto, no que isso significa de patrulha autoritária de comportamentos e no que isso leva a bulling social. Fui ultrapassada pelos que, aproveitando esse posicionamento ideológico, o reverteram e travestiram de ataques de ódio e de raiva, apelos ao racismo e à xenofobia, com discursos de incitamento à violência.


 


A eleição de Trump parece ter aberto uma caixa de Pandora, apesar de não ter sido a primeira nesta onda de extremismo de direita. Mas de alguma forma destapou-se uma nuvem de pragas para que muitos de nós não estavam preparados. E não podemos ignorar o que isso diz de nós próprios, como a mole humana que aceita e elege estas criaturas como representantes e motores das nossas sociedades.


 


Os meios de comunicação tradicional têm, neste momento (como ouvi alguém dizer na RTP3), uma oportunidade para recuperarem da quase extinção, se souberem ser o esteio da informação rigorosa, se souberem fugir à facilidade e mediocridade do recurso às redes sociais e semelhantes, sem confirmação de fontes fidedignas, sem manipulação de factos inventados, para que os cidadãos possam ter a possibilidade de fazer escolhas informadas.


 


A mais que provável eleição de Bolsonaro é um susto e uma tragédia. Não consigo compreender como é que entre o alinhamento dos horrores, as pessoas elejam a corrupção, por muito destrutiva que seja, como um mal pior que o assassínio e a tortura, defendidos por aquele personagem. Resta-nos trabalhar para que tudo mude, todos os dias e incansavelmente, denunciando mentiras e manipulações, discutindo ideias, confrontando o que é diferente, apurando factos verdadeiros e não alternativos, percebendo que apenas o conhecimento e a luta contra os preconceitos, filhos dilectos da ignorância, nos liberta dos monstros em que todos nos podemos transformar. E nunca nos demitirmos nem alhearmos, nunca sermos silenciosos apoiantes do que nos destrói.


 


expresso editorial 28_10_2018.JPG

21 outubro 2018

Destino partido

Yuichi-Ikehata1.jpg


Yuichi-Ikehata


 


 


Parti o destino em tantas partes


que não o consigo cumprir.


Pés para um lado cabeça para outro


dedos dispersos numa outra direcção


nada se reencontra nem cola.


 


E eu de tanto me desdobrar


acabei por desaparecer e descobrir


que não sei por onde me procurar.


 

17 outubro 2018

A nova Ministra da Saúde

marta temido.JPG


Nuno Ferreira Santos


Público


 


Se tem propostas polémicas é bem vinda. Com algumas delas concordo, já há bastante tempo. Espero que as possa colocar mesmo em prática.


 


É urgente mudar e adaptar o SNS às novas realidades. Já o era há uma década, agora é ainda mais.


 


(17.01.2015)


(...) Continuo à espera que o PS, como partido que procura uma maioria absoluta para governar este desgoverno, proponha uma reforma, reestruturação, ou outra qualquer palavra que tenha um significado semelhante, com as seguintes prioridades:



  1. Investir nos cuidados primários de saúde – descentralizar o sistema deslocando a porta de entrada dos doentes para os seus centros de saúde, afastando-as do sistema hospitalar;

  2. Prover esses centros de saúde com meios de diagnóstico de rotina, próprios ou contratualizados, para que possam tratar e seguir doentes com patologias crónicas;

  3. Prover os centros de saúde de consultas de especialidade por especialistas, que possam acompanhar os doentes na comunidade, em vez de terem que sobrecarregar os hospitais, incluindo pequenas cirurgias, estomatologia, oftalmologia, etc, para que permitisse a saudável e indispensável convivência interdisciplinar com os médicos de medicina geral e familiar;

  4. Rever e providenciar para que as carreiras de enfermagem e de técnicos de diagnóstico e terapêutica possam assumir determinadas funções que, ao contrário de retirarem competências aos médicos os ajudam e os preservam para actos e funções que só eles podem fazer, com a respectiva formação e recertificação de competências;

  5. Rever e reestruturar as redes e os serviços hospitalares, começando por definir as prioridades de atendimento e de serviços oferecidos, com base no conhecimento das patologias e realidade/ dimensão das populações – investir em centros de estudo epidemiológico, estatístico, como o registo oncológico nacional, etc.

  6. Reajustar e renovar os quadros de recursos humanos, em todas as vertentes, mantendo uma estrutura que permita a formação dos mais novos e a optimização e eficiência do funcionamento dos serviços

  7. Alterar as remunerações do pessoal de saúde, com uma avaliação do desempenho real e rigorosa, adaptada a cada área e a cada função, motivando e premiando o mérito

  8. Apoiar e incentivar a formação contínua, a recertificação e a acreditação dos serviços e dos profissionais, numa cultura de verdadeira aposta na qualidade – redução dos riscos. (...)


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...