14 abril 2018

Da incerteza das certezas

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Depois do embuste que levou à guerra no Iraque, de que já aqui falei mais de uma vez, como nos podemos sentir seguros perante a afirmação de Macron sobre as provas do uso de armas químicas pelo regime Sírio?


 


Que elas foram usadas, parece não haver dúvidas. Inaceitável e muito suspeito é o facto da Rússia vetar investigações independentes, patrocinadas pela ONU, impedindo que as decisões sejam totalmente suportadas por provas colhidas por uma Comissão que não esteja manipulada por qualquer das partes.


 


Mas tudo isto me angustia e alarma. A credibilidade dos actores políticos é nenhuma e qualquer passo dado pode desencadear tempestades impossíveis de controlar. Infelizmente, as Nações estão pouco Unidas e a força que têm para se fazerem ouvir é nenhuma.

09 abril 2018

Nem mar nem terra

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Comet


LaPaso


 


 


Nem praia nem vento


nas mãos o tépido sentimento


que abriga e constrói.


Nada que o mundo negue


na vida um pouco de neve


lume do tempo que destrói.


Nem mar nem terra


nesta angústia que encerra


o silêncio no grito que dói.

08 abril 2018

Domingo chuvoso

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Neste domingo chuvoso, em que as notícias do Brasil, da Alemanha, da Síria, da Catalunha, da nossa própria falta de prioridades e de estratégias para um desenvolvimento económico e social assente no conhecimento, na inovação, nas artes, no património, na natureza, nos deixam tão escuros e frios como o tempo, resolvi dedicar-me à confecção do jantar.


 


Entretida a usar as mãos, a mente fica livre. Aproveito o silêncio e a conversa comigo própria, preparando a semana, lembrando-me do que falta fazer, dos compromissos e das decisões a tomar. O calor do fogão é um excelente contraponto à saraivada que fustiga a janela e os cheiros apaziguam as preocupações e as ansiedades.


 


Inspirando-me numa receita que vi no canal 24-Kitchen, mas com as minhas pequenas alterações, coloquei oito lombinhos de pescada congelada num tacho, sentados numa cama de cebola, alho, pimento vermelho (picados fininhos) e azeite, temperados com sal, pimenta e salsa (também picadinha). Enquanto a pescada guisava, deitei uma mandioca e uma batata doce cortadas aos pedacinhos num tacho com água e sal, para cozerem.


 


Quando estavam bem cozidas, retirei-lhes a água e esmaguei-as com um garfo, misturando bem. Depois desfiz os lombinhos da pescada e juntei, com o molho todo, ao puré de batata doce e mandioca. Mexi muito bem com dois ovos inteiros, para ficar uma papa, rectifiquei os temperos, e moldei uns pastelinhos idênticos aos de bacalhau. Fiz como a minha avó fazia, com duas colheres de sopa. É demorado mas ficam bem. No fim foi só fritar os bolinhos em óleo. Bem sei que se devem evitar os fritos, mas eu não os comia desde o Natal!


 


Acompanhei com salada de várias alfaces, precedidos de uma sopa de couve-flor, abóbora e courgette, temperada com sal, cominhos e salsa. Também com as sopas adoptei um truque que aprendi com o Chefe Avillez: deixar os legumes amolecerem em cebola, alho e um fio de azeite e, só depois, cobrir com água e cozer; a seguir pode-se triturar e rectificar a consistência e os temperos. Ficam bastante saborosas.


 


Convenhamos que foi trabalhoso. Mas cá em casa gostaram. Penso que até respiraram de alívio, pois as minhas incursões culinárias são sempre motivo de grande apreensão familiar...


 


Não percebo muito bem porquê, devo acrescentar.

07 abril 2018

Apesar de você


 Chico Buarque


 


 


 


Hoje você é quem manda


Falou, tá falado


Não tem discussão, não


A minha gente hoje anda


Falando de lado


E olhando pro chão, viu


 


Você que inventou esse estado


E inventou de inventar


Toda a escuridão


Você que inventou o pecado


Esqueceu-se de inventar


O perdão


 


Apesar de você


Amanhã há de ser


Outro dia


Eu pergunto a você


Onde vai se esconder


Da enorme euforia


Como vai proibir


Quando o galo insistir


Em cantar


Água nova brotando


E a gente se amando


Sem parar


 


Quando chegar o momento


Esse meu sofrimento


Vou cobrar com juros, juro


Todo esse amor reprimido


Esse grito contido


Este samba no escuro


 


Você que inventou a tristeza


Ora, tenha a fineza


De desinventar


Você vai pagar e é dobrado


Cada lágrima rolada


Nesse meu penar


 


Apesar de você


Amanhã há de ser


Outro dia


Inda pago pra ver


O jardim florescer


Qual você não queria


Você vai se amargar


Vendo o dia raiar


Sem lhe pedir licença


E eu vou morrer de rir


Que esse dia há de vir


Antes do que você pensa


 


Apesar de você


Amanhã há de ser


Outro dia


Você vai ter que ver


A manhã renascer


E esbanjar poesia


Como vai se explicar


Vendo o céu clarear


De repente, impunemente


Como vai abafar


Nosso coro a cantar


Na sua frente


 


Apesar de você


Amanhã há de ser


Outro dia


Você vai se dar mal


Etc. e tal


Lá lá lá lá laiá

05 abril 2018

Retratação

O Governo explicou-se mal e as pessoas compreenderam mal


 


Não. Mesmo que as desilusões sejam grandes e que o governo tenha gerido muito mal este assunto cultural, ainda bem que já não é a direita que está ao leme deste país, com uma retórica que não muda. Tenho que me retractar.

31 março 2018

Prece


 Amália Rodrigues


 



Catarina Wallenstein


Pedro Homem de Mello & Alain Oulman


 


Talvez que eu morra na praia


Cercada em pérfido banho


Por toda a espuma da praia


Como um pastor que desmaia


No meio do seu rebanho.


 


Talvez que eu morra na rua


E dê por mim de repente


Em noite fria e sem luar


E mando as pedras da rua


Pisadas por toda a gente.


 


Talvez que eu morra entre grades


No meio de uma prisão


Porque o mundo além das grades


Venha esquecer as saudades


Que roem meu coração.


 


Talvez que eu morra de noite


Onde a morte é natural


As mãos em cruz sobre o peito


Das mãos de Deus tudo aceito


Mas que eu morra em Portugal.

Desilusões

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O grande problema é que nos iludimos. Acreditámos que, desta vez, ia ser diferente.


 


Mas não. Apenas há a promessa da diferença, bem aconchegada no preconceito que temos de que a esquerda ama as artes, a cultura, o povo, e de que a direita é ignorante, imprópria para consumo, descartável.


 


Afinal são ambas - a esquerda e a direita - e o nosso preconceito estende-se à fantasia de que este país um dia perceberá que é na cultura que está o nosso motor de desenvolvimento.

Galos na Praça da Fruta

Ontem, depois do concerto, caminhei calmamente de regresso ao hotel passando pela Praça da Fruta, àquela hora já ao lusco-fusco, ainda com v...