03 outubro 2016

O SNS promove a igualdade

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Leonardo da Vinci


 


Por muito que queiramos os doentes não são todos iguais. Não por causa dos seus corpos, todos constituídos pelos mesmos compostos orgânicos, com mais ou menos equilíbrio hidroeletrolítico. Não por causa da alma, aquela consciência que não sabemos localizar de forma precisa e que caminha do coração para o cérebro, mas pelos motivos inerentes ao continente, ao país, à cidade onde se nasce, vive e morre, pelos percursos de vida das famílias mais longínquas ou mais chegadas, pelo percurso das próprias vidas, pela existência ou não de emprego.


 


Mas o que mais diferencia as pessoas, para além da sua naturalidade e da sua genealogia é o seu status sócio económico e cultural. Especificamente em Portugal não é indiferente ser pobre – e cada vez há mais pobres e cada vez é mais fácil e frequente cair na pobreza.


 


Se um doente pertencer a um estrato social e económico mais favorecido e se não tiver rapidamente acesso ao SNS, tem possibilidade de recorrer ao sector privado e aí contar com os recursos necessários e indicados ao seu caso. E até pelo facto de pagar os serviços exige e assume que tem o direito ao melhor pois está a comprá-lo. Se um doente pertencer a um estrato social e económico menos favorecido fica dependente dos serviços que o SNS lhe oferece. Portanto todas as ineficiências, incapacidades, atrasos e constrangimentos se reflectirão de imediato no seu atendimento, no seu tratamento, no seu prognóstico e na sua qualidade de vida. Ou seja, o SNS é a sua única opção.


 


Se deixarmos que o SNS se degrade ainda mais, se não acudirmos às carências várias, de recursos humanos e de equipamentos, se não aproximarmos os cuidados dos doentes, se falharmos na oferta pública do que melhor há à disposição de quem sofre, nunca lhes poderemos assegurar o direito à saúde. Estão inexoravelmente condenados a esperar que haja vagas, a esperar que haja médicos, a esperar pelas tomografias, pelas ressonâncias, pelas biopsias, pelos médicos de família, pelos especialistas, pela radioterapia e por tudo o mais que a medicina moderna tem para oferecer.


 


Os doentes não são todos iguais e o SNS é a única forma de tentar reduzir essas desigualdades. Todos os corpos e todas as almas são constituídos pela mesma matéria orgânica e inorgânica, que se desloca inconscientemente entre o coração e o cérebro. o serviço público de saúde é uma excelente demonstração do uso de ambos.


 

02 outubro 2016

A Cor Púrpura




 



Faz hoje 30 anos que me debulhei em lágrimas a ver A cor púrpura. A minha irmã sofria há 2 dias na maternidade e a criança nunca mais nascia. Eu, Interna de tenra idade, sem coragem nem personalidade para incomodar as Senhoras Doutoras de Obstetrícia, gente antipática e distante, que olhavam para mim como para uma mosca, chata e cansativa, entrava e saía com o coração cada vez mais apertado.



 



Estava muito calor. Nessa tarde finalmente decidiram-se pela cesariana. Arranjei forma de me manter junto às Neonatalogistas, as únicas criaturas que me olharam com simpatia, e vi um embrulho trazido a correr para a mesa de observação, em que se identificavam dois pesinhos brancos. A rapidez e a cara ansiosa das Neonatalogistas não pronunciavam nada de bom e eu nunca mais ouvia o choro da criança. Assisti à aspiração, às massagens daquele ínfimo ser, a contar os segundos e a saber o que era um Apgar de 0 ou de 5.



 



Não me lembro exactamente de quanto foi, mas senti que muita coisa poderia correr mal e que tínhamos muitos meses, senão anos, sem saber as sequelas dessa dificuldade em acordar para o mundo a gritar. No dia seguinte, depois de uma noite de grandes insónias e angústias, quando a fui visitar, passei pela minha irmã num corredor da enfermaria e nem a reconheci, de tal forma estava lenta, alquebrada, entorpecida.



 



Foi sempre uma criança mais despachada que todas as outras da família. Aprendeu a andar, a falar, a pensar muito bem e muito depressa. Ultrapassou todos os medos da mãe e da família com um sorriso despreocupado e decidido. Há 30 anos eu fundia-me com a minha irmã e sofria as dores de saber o quanto uns segundos podem significar no começo da vida de alguém. E esses 30 anos passaram depressa, e foram cheios de novidades, supresas e desafios, para mim, para a minha irmã e para aquele ser que é hoje uma linda e fantástica mulher.

 

A cor púrpura é um dos filmes da minha vida.

 

Da incomodidade

Sempre me surpreenderam as pessoas que declaram não se importar nada como o que pensam delas. Eu não sou assim. Importo-me com o que as pessoas pensam de mim, principalmente se são pessoas que prezo e/ ou me são afectivamente próximas.


 


Fiquei bastante incomodada com a polémica gerada pelo meu post sobre o último livro de José António Saraiva. Tenho algumas certezas, mas estas são cada vez em menor quantidade, sobre cada vez menos assuntos e cada vez mais incertas. As dúvidas sobre o que leio e o que ouço são crescentes, pois é frequente, ao aprofundar os assuntos tocados pelos títulos e frases assertivas que pululam pelo espaço público, encontrar motivos que me levem a concluir o exacto contrário daquilo que tinha sido a minha opinião na primeira abordagem. Por outro lado, não gosto de me envolver em polémicas em que se dizem coisas de uma dureza que, habitualmente, não se usa quando em presença do outro. A face inexpressiva do monitor desliga muitos dos filtros de auto-censura, pelas mais diversas razões. Além disso, talvez pela cautela e pela tentativa de ver o outro lado da questão (até por deformação profissional), arranjo sempre argumentos que podem justificar várias conclusões que muitas vezes são contraditórias.


 


Por isso, e porque fiquei com a sensação de não estar a ser compreendida ou, pior ainda, de não estar a ser justa, acabei por decidir voltar ao tema, após grande hesitação. A intimidação de que falava referia-se ao julgamento público violento de abjecção e nojo para quem tivesse a audácia de ler o livro. As palavras têm um poder que reconhecemos, racional e emocionalmente, pelo que ninguém gosta de se ver englobada no grupo dos abjectos. Mesmo que a intenção não seja essa, estas trocas de palavras intimidam e acabam por refrear quem discorda, que prefere não o assumir. A possibilidade de estar a dar visibilidade a um livro e a uma pessoa com quem não devemos perder tempo, foram outros aspectos que me levaram a ponderar não abordar de novo a questão.


 


Enviaram-me o dito livro por email e li-o. É um livro medíocre, mal escrito e totalmente desinteressante de uma criatura com idênticas características. O que mais me impressionou foi confrontar-me, mais uma vez, com a menoridade intelectual e a mediocridade das pessoas que ocuparam lugares de destaque, em áreas tão importantes como, neste caso, o jornalismo dito de referência. A ideia que este indivíduo provinciano, bacoco e deslumbrado tem de si mesmo é espantosa, ao elucidar os leitores que divulga histórias que contribuem para a História. Mas que pensará Saraiva que são contributos para a História? É quase anedótico se não fosse tão triste. No fundo o que ele mostrou, qual pavão sem penas, é que foi e é uma pessoa importantíssima porque privou com os ilustres deste País e porque lhes servia de confidente.


 


Os crimes de devassa de privacidade que lá estão são isso mesmo – crimes - e como tal devem ser tratados. O problema é que num País em que a Justiça é lenta e cara e em que os cidadãos sentem a impunidade como a norma, as vítimas ficam impotentes perante a chacota de quem adora e se alimenta destas notícias. Não se pode impedir nem regulamentar a indecência mas podemos não a propagar e reagir contra ela. No entanto só sabemos o que ela é se a conhecermos, é só a devemos combater da forma que, na nossa sociedade civilizada, se entende por combate – nos tribunais. A minha total solidariedade é, obviamente, para quem viu a sua privacidade devassada e que não desiste de lutar pelos seus direitos.


 


É muito fácil perorar sobre os princípios e os valores quando os problemas não nos atingem directamente. Confesso que não sei se a minha reacção teria sido esta caso fosse eu uma das visadas pelo Saraiva. Mas quero acreditar que sim.


 

01 outubro 2016

Qualquer uma

lee bul


Lee Bul


 


Uma qualquer janela que rasgue


inundando de mar o que surgir


uma qualquer onda que esmague


repetindo no olhar que se abrir


uma qualquer mão que afague


as pontes da casa que ruir.


 

Será que vai ser apenas o começo?

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Cavaco pagou metade do IMI que devia ter pago durante 15 anos


 

Das desigualdades nos direitos fiscais

Compreendo e comungo das críticas em relação ao facto de não ser lícito considerar criminosos fiscais todos os que tenham contas no banco com mais de €50.000.


 


Mas espanta-me que não tenha assistido a uma comoção tão grande de cada vez que se anunciam medidas de cruzamento de dados de todos os tipos e feitios para quem se habilita a receber qualquer apoio social, para ver se não está a ludibriar o Estado e todos os bons cidadãos pagadores de impostos.


 


Nesse caso vale (ou valia) tudo, até somar as remunerações da família inteira para ver se os magros rendimentos justificam o retirar de algum subsídio.


 

O drama, a tragédia, o horror...

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Depois de um ano a prever tragédias que ainda não ocorreram, as aves agoirentas tentam explorar todas as abundantes afirmações, declarações e opiniões do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa que poderão indicar desaguisados com o governo.


 


Eis senão quando Marcelo veta um diploma. Aí está - a guerra estala, António Costa resvalará pela indignação dos portugueses que comungam de tudo o que o Presidente diz, pensa, sonha.


 


O drama, a tragédia, o horror... Toca a encher o espaço público de fotos e de indícios da tão almejada instabilidade política. O ridículo não mata, mas faz mossa.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...