22 outubro 2015

Do meu próprio inconseguimento (3)

Perplexidade crescente perante o desenrolar da situação política. Se antes das eleições não sonhava com a reviravolta do PCP e do BE, após as eleições não acreditei na hipótese de uma plataforma de apoio parlamentar a um governo liderado pelo PS, que se referisse a uma legislatura. Estamos a ser surpreendido pelo anúncio de um pré acordo entre o PS, BE e PCP, embora faltem (ainda) os detalhes e as necessárias formalizações.


 


A capacidade que tenho em absorver tanta novidade é limitada, tenho que o admitir. Tanta revolução em menos de 1 mês é difícil de digerir. Não sei muito bem se esta conversão à democracia e aos valores do compromisso da parte do BE e do PCP são mesmo para levar a sério. Não sei muito bem em que condições o PS conseguirá levar a bom porto um acordo com tantas incógnitas e detractores, dentro do próprio PS.


 


Por outro lado, sinto-me bastante desconfortável em ter um Primeiro-ministro que perdeu as eleições e não se relegitima como líder do seu partido. As opções tomadas são todas democráticas e constitucionais, mas seriam mais claras e dar-lhe-iam uma muito maior força política, de que muito necessita, para aguentar um governo de coligação inédito na nossa vida democrática, se fossem confirmadas pelos militantes e simpatizantes do PS.


 


Mais incomodada fico com os ataques viperinos que se fazem aos que, dentro do PS, não concordam com a solução de António Costa, assumindo-o publica e abertamente. Já li acusações ignóbeis a Francisco Assis, por exemplo, apenas porque não acredita nas boas intenções do BE e do PCP, recentemente convertidos à democracia. Convenhamos que há bastas razões para estarmos cépticos e descrentes num governo à esquerda, que não captura e não prenda o PS no seu próprio labirinto.


 


A democracia tem formalidades que se devem cumprir e eu sou totalmente a favor delas - é o partido que ganha que deve formar governo. Depois disso será o Parlamento a decidir e todos assumirão as suas responsabilidades. O agitar dos fantasmas e do regresso ao passado da troika, a fuga de capitais e o pânico das bolsas, são bem uma demonstração do nervosismo da direita.


 


Aguardemos a comunicação do Presidente Cavaco Silva, refém das suas palavras e condições. Enfim, inconseguimentos atrás de inconseguimentos, uma coisa é certa - nada será como dantes.

18 outubro 2015

"Danzón" nº 2 para orquestra


Arturo Márquez


Alondra de la Parra


Orquestra de Paris

The hidden Holocaust

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Holocaust by bullets


 


Acabo de assistir a um programa de reportagem da CBS news, através da SIC notícias. O Padre Patrick Desbois fundou uma organização - Yahad-In Unum - cujo objectivo é procurar os locais de enterramento ou valas comuns, não assinaladas, onde foram enterrados milhares de judeus durante a II Guerra Mundial, nos territórios polaco e da antiga União Soviética.


 


Ao fim de tantos anos começa a falar-se dos segredos proibidos e assustadores do lado negro da humanidade - estes assassinatos em massa não teriam sido possíveis sem a cumplicidade, por acção ou por missão, das populações locais. Assistiam aos massacres com se de um espectáculo se tratasse, levando a família e aproveitando para roubar os despojos.


 


Vale a pena ver e meditar.

17 outubro 2015

Um dia como os outros (164)

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(...) A maior das surpresas foi, no entanto, a mudança de atitude dos líderes do PCP e do BE. Antes das eleições, apenas se podia contar com o PS, o PSD e o CDS, os partidos do chamado arco da governação, para a formação de maiorias. Após as eleições, PCP e BE alteraram radicalmente este quadro ao declararem estar disponíveis para, com o PS, formar uma maioria parlamentar e viabilizar um governo de esquerda. Esta mudança alterou a relação de forças entre os partidos e abriu a possibilidade de mais escolhas de governo. (...)


(...) estamos perante uma mudança de fundo no funcionamento do nosso sistema político, e em particular do Parlamento. PCP e BE, por decisão dos seus dirigentes, autolimitavam as possibilidades da sua participação e responsabilização nas escolhas de governo e na governação. Essa não era uma situação normal, nem desejável. No momento em que os líderes partidários declaram a sua disponibilidade para participar plenamente na vida parlamentar, incluindo na constituição de soluções de governo, não tem sentido serem outros a limitar essa participação e a destruir a normalidade agora alcançada. (...)


(...) Cerca de 20% de eleitores, do PCP e do BE, passam a poder ver concretizadas, pelo menos em parte, as propostas políticas dos seus partidos. Estes, por sua vez, passam também a poder ser responsabilizados pelas soluções que preconizam, pelos seus êxitos ou insucessos. (...)


(...) dizer que falta legitimidade ao PCP para participar numa solução de governo porque 90% dos eleitores votaram noutros partidos, exige lembrar que também 90% dos eleitores não votaram no CDS e que tal não foi, nem é, obviamente, impeditivo da sua participação em coligações de governo. Enfatizar as posições críticas do BE e do PCP sobre a União Europeia e o euro exige recordar que também o CDS foi (e não sabemos se ainda o é) profundamente eurocético e isso não impediu que fizesse parte de soluções governativas comprometidas com o projeto europeu. (...)


(...) argumentar que PCP e BE são partidos radicais (de esquerda) requer que se recorde que o Governo que agora cessa funções se deixou capturar por uma agenda ideológica radical (de direita), afastando-se do centro político. (...)


(...) dizer que o PS é mais próximo do PSD do que do PCP ou do BE, e que, portanto, seria mais “natural” uma aliança com a Coligação, esquece os efeitos do afastamento do centro político protagonizado pelo PSD nos últimos anos. O PSD que conhecemos no passado já não existe, está transformado num partido de direita, e já não de centro-direita, radicalizado, que não negoceia nem se aproxima das forças partidárias à sua esquerda. Hoje, exceção feita a alguns dos grandes objetivos macroeconómicos, é quase impossível encontrar pontos de convergência nas agendas políticas dos dois partidos em matérias como a educação, a saúde, a ciência, a proteção social, a modernização administrativa ou o investimento público. Não foi o PS que se tornou mais radical nas suas propostas. O PS mantém, para as principais áreas de política e de intervenção do Estado, uma posição de centro-esquerda. Foi antes a coligação PSD/CDS que se radicalizou à direita alienando o apoio de muitos militantes históricos dos dois partidos e afastando-se de tal forma do centro que tornou praticamente inviável qualquer aliança com o PS. (...)


(...) defender que o PS não tem legitimidade para negociar com outras forças partidárias à sua esquerda porque o seu eleitorado não lhe deu esse mandato, exige que se recorde que ninguém tem o dom de adivinhação das intenções dos eleitores. Apenas existe o dever de, com humildade, as interpretar. Mas uma coisa é certa: António Costa afirmou repetidamente na campanha eleitoral que recusava tanto o prosseguimento de políticas de austeridade como a ideia de que haveria partidos do arco da governação e partidos excluídos do exercício de funções de governo. E coligações pós-eleitorais, que se formaram depois das eleições, sem ser previamente sufragadas, aconteceram já, por mais de uma vez, na história recente do nosso Parlamento. Por exemplo, as coligações de governo PSD/CDS lideradas por Durão Barroso e Pedro Passos Coelho.


 


Maria de Lurdes Rodrigues

15 outubro 2015

A sorte protege os audazes

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É nas alturas de crise que podem surgir as grandes rupturas e que se podem afirmar os líderes.


 


Ao contrário do que aconteceu durante a campanha eleitoral em que o PS não conseguiu mostrar fibra, em que a componente do risco esteve arredada das múltiplas intervenções dos protagonistas, António Costa revigorou-se com a derrota eleitoral tomando a dianteira e rompendo o desânimo que se espalhava, ao revelar-se um líder que não tem medo de assumir posições polémicas.


 


No entanto, tal como a sua eleição para Secretário-Geral se legitimou pelo voto de militantes e simpatizantes, penso que o mesmo deverá acontecer com as suas opções estratégicas em relação à hipótese de formação de governo com apoio do PCP e do BE. António Costa deverá fazer aquilo que não fez na noite eleitoral: relegitimar-se e colocar a sua linha de actuação em voto, seja ela à esquerda ou à direita (o que é cada vez menos provável). Só assim poderá calar as vozes de dissidência interna e ganhar fôlego para lidar com um governo em que a instabilidade será, muito provavelmente, a norma.


 


António Costa é audacioso e sabe o que quer pelo que terá toda a vantagem em surgir reforçado perante o partido e perante o País. Convinha ainda que se acalmassem as vozes de indignação e insulto que se têm ouvido em relação aos críticos da plataforma de esquerda. A democracia e a diferença de opiniões não deveria ser apenas uma intenção nuns dias que se esquece de imediato quando dá jeito. As hostes aguerridas compostas por trauliteiros existem em todos os partidos e é com enorme pena que as vejo dentro e à volta do PS, umas demonizando os apoiantes de António Costa,outras - mais ruidosas - fazendo o mesmo a quem o critica.

14 outubro 2015

Das funções institucionais

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A confusão que Cavaco Silva permitiu que se armasse está lançada. Não nos esqueçamos que foi Cavaco Silva que avisou que só daria posse a um governo com maioria absoluta.


 


António Costa está a fazer exactamente o que deve - encontrar uma solução alternativa para um governo que pode querer chumbar na Assembleia da República. O que não significa que a coligação não deva tentar passar o seu orçamento e o seu programa no Parlamento. É aí que os governos se fazem e caem.


 


Ou seja, aguardo que o Presidente indigite Passos Coelho a formar governo para poder assistir à assunção de responsabilidades políticas de todas as forças parlamentares.


 


Não vale a pena argumentarmos que quem votou no PS não votou numa aliança PS/PCP/BE. Na verdade também não votou numa aliança CDS/PSD/PS, muito pelo contrário - António Costa avisou que não aceitava a ideia do arco da governação limitado ao PS, CDS e PSD. Além disso as motivações dos votos não são interpretáveis. As negociações e os compromissos deverão ser feitos com a realidade dos deputados eleitos.


 


Penso que convém mantermos a serenidade tanto à esquerda como à direita. O PS está a fazer o que deve. Espero que o Presidente também assuma as suas responsabilidades e nomeie Passos Coelho como Primeiro-ministro. Caberá à Assembleia da República decidir os compromissos e as maiorias que quer. E se não for possível a solução de um governo minoritário da direita com apoio parlamentar do PS, então deverá ser tentada outra solução à esquerda, caso ela exista.


 


Não me esqueci do passado bastante recente dos dois partidos à esquerda do PS, a esquerda grande, pura e dura, com raízes e posturas antidemocráticas. Mas quando finalmente esses mesmos partidos desenquistam e percebem que têm que evoluir, não me parece lógico não acolher essa alteração. Com cautela e exigindo um verdadeiro compromisso, mas de boa fé.


 


Passos Coelho ficou de tal forma estupefacto que demorou a reagir. Neste momento é claro que rompeu as negociações, recusando-se a responder às perguntas do PS. Terá que ir a jogo, no Parlamento.


 


É isto a democracia: quem ganha as eleições deve tentar formar governo - o Parlamento é soberano.

12 outubro 2015

Chuva

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Rain or Shnine


Wu Guanzhong


 


 


Longa noite de chuva que abriga corpos


sedentos de intempérie. As mãos que fogem


escondem a cegueira do silêncio


e sensatas recolhem a doce melancolia


presa fácil dos que espreitam pelo dia.

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...