10 outubro 2015

Um dia como os outros (162)

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No domingo passado, o país teve uma surpresa. Mas permitam-me lembrar o contexto que antecipou o abalo. Durante semanas, as sondagens e as conversas tinham-nos levado a uma convicção geral: a coligação PAF ia ganhar com maioria relativa. Repito, a 3 de outubro o que se sabia era o seguinte: muitíssimo provavelmente, ganhava o PAF sem maioria absoluta. Era o que diziam as sondagens - repetidamente alargando a vantagem, mas com limites prudentes - e concordavam os cidadãos, dando conta da campanha de uns, sem percalços e crucifixo no bolso, e a de outros, com Carlos do Carmo a falar. No dia 3, pois, véspera devotada à reflexão do voto, os portugueses reconheciam essa inevitabilidade. Porém, às 20.00, o país foi assombrado: a PAF ganhou e ganhou sem atingir a maioria absoluta!


Hão de concordar que é difícil gerir um país onde acontece o que se espera. Os alentejanos têm aquele provérbio "chuva em novembro, Natal em dezembro", mas suspeito que o que eles, e os portugueses em geral, esperam, mesmo, é a Páscoa. No dia das eleições foi o coelhinho que nos surgiu no presépio. Para espanto de todos que haviam passado as semanas anteriores a dizer exatamente isso. Enfim, logo no dia 4, Passos foi entronizado. Esquecendo-se de que o dia seguinte era 5 de outubro e que há datas que podem tornar-se vingativas, sobretudo quando foram degradadas a não feriado.


Os portugueses vinham de um mandato governamental em que se passou todo o contrário do que se prometera na campanha anterior. Desta vez, a campanha eleitoral tinha indiciado um certo e determinado resultado e foi, pois, com o pasmo nacional que a CNE confirmou que sim, era mesmo esse o resultado. Incrível! O primeiro caso, de não cumprimento das promessas, os portugueses aceitaram com naturalidade. Já no segundo, espantaram-se quando lhes aconteceu aquilo de que estavam carecas de saber que ia acontecer. Ora, entre nós, quando as coisas se passam de forma tão insólita (porque esperada), é natural que descambem em situações cada vez mais naturais. Ou, se quiserem, surpreendentes.


Às primeiras horas, tudo se passou como é costume. Tendo o PSD e o CDS votos para governar relativamente, preparavam-se para governar absolutamente. O primeiro sinal de qualquer coisa de estranho surgiu quando o Presidente Cavaco Silva foi alertado pela sua assessora mais de fiar (uma calculadora Texas Instruments). De 116 deputados para governar de vento à popa, encontraram-se garantidos só 104, aos quais se podia, na melhor das hipóteses, somar os quatro da emigração - 108. Fizeram-se contas e recontas mas dava sempre um défice de oito. Ainda se fosse daquelas contas para volkswagenear o défice orçamental... Mas não, eram cabeças para serem postadas em hemiciclo, filmadas, com bancadas de jornalistas à coca e público a espreitar das galerias - um buraco de oito nota-se.


Em Belém, Cavaco olhou o Tejo, passou uma falua, e esse concurso de circunstâncias - a calculadora mais a vela latina - levou-o a pensar que se não se podia governar com vento à popa, podia-se bolinar, ziguezagueando. Isso levou-o direito à solução: "O PS!!!", explicou ele a Passos Coelho. Cavaco Silva serviu em África, mas só na Universidade de Lourenço Marques, não esteve na savana e não aprendeu a lei n.º 1 do caçador: nunca cutucar uma pacaça ferida. António Costa lambia as feridas de domingo quando foi despertado pela Pátria. Ninguém se sente mais vivinho da Costa do que encontrar, ao sair do bloco operatório, apelos ansiosos de ajuda...


Entretanto, a semana avançava como se um estado de sítio - uma Lei de Murphy à portuguesa, "nada pode ser mais extraordinário por cá do que aquilo que é óbvio lá fora" - tivesse sido imposto a toda política portuguesa. Nada ficou imune, até o PCP. Jerónimo de Sousa, que fora interpelado durante a campanha por um garoto ("quando for grande quero ser primeiro-ministro", disse o menino), começou a pensar que na sua vida, até aí restringida a operário metalúrgico e líder do PC, ainda podia vir a ser político. Essa epifania, acrescentada ao acidente (uma Catarina de olhos azuis atropelou-o no dia 4), levou Jerónimo, já que tinha uns deputados, fazer com eles política. Falou com Costa, o tal revivido, e empurrou-o. "Vai", disse. A semana farta em ação tem tido ainda a vantagem de discursos breves.


Os portugueses, já espantados com os resultados óbvios, surpreendiam-se com as esquisitices que se podem fazer com o adquirido que afinal não é. Por exemplo, ainda ontem, o ganhador sentou-se com o perdedor e pôs cara de póquer. O outro limitou-se a dizer: "Pago para ver." Não viu nada, mas nós vimos que o ganhador teve de dizer: "Para a próxima vou ser mais atrevido." Para a semana há mais.


O que eu quero dizer-vos é que estou a gostar. Políticos a fazer política, nunca esperei.


 


Ferreira Fernandes

Sonata para violoncelo e piano, Opus 40, Allegro

 


Ouvi onte de manhã, na Antena 2, o II Movimento da sonata para violoncelo e piano de Dmitri Shostacovich tocada por ele próprio e pelo Mstislav Rostropovich (seu aluno).



Dmitri Shostakovich


Anne Gastinel & Roger Muraro


 


Aqui está, a sonata completa, tocada por eles próprios. 



Dimitri Shostakovich


Mstislav Rostropovich

Da novidade da (velha) política

 


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Desde a noite das eleições que viajámos através de uma espécie de buraco negro, como se 40 anos se mudassem de uma assentada. O que, ao contrário de muitos dentro do PS, considero positivo.


 


É extraordinário ouvir, após 40 anos, o PCP admitir que não é o mesmo ser governado pela coligação PSD/CDS ou pelo PS. Este volte-face permitiu que o PS, mesmo reconhecendo-se que este, pela mão de António Costa, se tivesse recusado a excluir o PCP e o BE da responsabilidade governativa, se transformasse no fiel da balança deste equilíbrio bastante instável..


 


Por outro lado o Presidente da República, apostado em não deixar qualquer saudade pelo triste exercício da sua triste função, tem ajudado bastante ao foco dado a António Costa, deixando-lhe a iniciativa política de fazer o papel de negociador. Em vez de ter chamado de imediato todos os líderes partidários de forma a pedir-lhes os compromissos que declarou exigir para dar posse a um governo, resolveu ignorar essa formalidade constitucional e indigitar Passos Coelho a iniciar as diligências para a formação do governo.


 


Neste momento está tudo em jogo:



  • Se a coligação não conseguir um entendimento com o PS, será que o Presidente vai dar posse a um governo minoritário de direita que busque apoios parlamentares à medida das necessidades?

  • Se o PS recusar apoio à coligação e conseguir um compromisso com os partidos à sua esquerda, será que o Presidente dará posse a um governo de maioria de esquerda?

  • Se não for possível viabilizar nenhuma das coligações, haverá governo de iniciativa presidencial ou governo de gestão?


 


O PS está entre 2 espadas - se apoiar a coligação, nas próximas eleições poderá ser canibalizado pela esquerda; se formar um governo com apoio de uma maioria de esquerda parlamentar, nas próximas eleições poderá perder o seu segmento mais à direita, que não lhe perdoará a guinada revolucionária, mas também poderá crescer à custa do BE e/ ou do PCP.


 


O BE está entre a espada e a parede - se não apoiar o PS ficará com o ónus de inviabilizar um governo de esquerda; se deixar cair as suas linhas vermelhas poderá estar condenado a desaparecer.


 


No caso da coligação: ou está completamente desnorteada, porque perdeu a liderança do processo político e não soube lidar com a reviravolta na esquerda, ou está a dramatizar, jogando a cartada da vitimização para conseguir uma maioria absoluta nas próximas eleições.


 


Uma coisa parece quase certa - qualquer que seja a solução governativa encontrada não será duradoura. O próximo Presidente terá que convocar eleições em início de mandato.


 


Isto sou eu a arriscar-me a novos inconseguimentos, que já se transformaram numa tradição. A que somei a minha crença, que se provou errada, de que Marcelo Rebelo de Sousa não seria candidato à Presidência. Sempre defendi que não trocaria o seu papel de entertainer com o da função institucional. Mais uma vez, enganei-me.


 


ADENDA: Esqueci-me de dizer que Paulo Portas é um actor político... irrelevante.

07 outubro 2015

Peeling Off The Layers


Wildbirds & Peacedrums


Fortitude


 



Uma excelente série televisiva que acabou ontem na RTP2. Sóbria, gelada, pesada, assustadora, melancólica, sofrida, como todos nós. Uma música mesmo a condizer. Obrigada a quem ma encontrou.

05 outubro 2015

Do meu próprio inconseguimento (2)

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Já por diversas vezes ficou bem provado a minha total ausência de clarividência política. Confesso a minha incapacidade para perceber vários fenómenos na sociedade portuguesa.


 


O primeiro é o fato de uma enorme percentagem dos meus concidadãos pura e simplesmente se absterem de votar. O alheamento e o encolher de ombros, a par do permanente ruído dos queixumes, são uma marca identitária que me custa a aceitar.


 


O segundo é o sentido de voto que resulta destas eleições, após quatro anos de empobrecimento e retrocesso. Escusamos de versejar e tentar relativizar a perda de maioria absoluta da coligação de direita. Para mim é mesmo incompreensível que tenha ganho, por muito ou por pouco.


 


O terceiro é a atitude de António Costa que, desde a primeira hora, teve o meu apoio. Após tão estrondosa derrota – não esqueço que defendi que era ele que poderia levar o PS ao governo, substituindo António José Seguro da sua liderança invertebrada, não tem uma palavra para o combate interno que, fatalmente, se seguirá. Mesmo que não se demitisse, e admito que até seja importante manter a serenidade neste período imediatamente anterior às presidenciais, o que estaria à espera era que, pelo menos, anunciasse a realização de um Congresso extraordinário onde poderia reforçar (ou não) a sua liderança. O PS vai precisar de ter um líder incontestado e, neste momento, ou António Costa assume o risco de pedir que o desafiem e lhe disputem o lugar de Secretário Geral, ou o PS vai continuar em lutas internas enfraquecendo-se e esboroando-se.


 


Mas claro, isto sou eu que não entendo o resultado das eleições. Uma coisa é certa – teremos PAF por mais uns belos tempos. Este modelo foi sufragado e o PS terá que ter força para conseguir negociar algumas das suas bandeiras eleitorais.


 


Quanto às presidenciais – e que tal o PS repensar também a sua estratégia? É que se anuncia mais uma estrondosa derrota, seja ela com Sampaio da Nóvoa ou com Maria de Belém.

04 outubro 2015

A escolha do povo

Não foi a minha escolha. Mas foi clara e inequívoca. A coligação de direita, a confirmarem-se estes resultados, tem uma vitória estrondosa.


 


António Costa terá que se demitir. Fui sua apoiante desde a primeira hora e continuo sua apoiante. Mas a verdade é que esta é uma derrota muito expressiva.


 


É à coligação de direita que compete governar. Espero que o PS honre o seu lugar na oposição e não se perca em somas e cálculos que desvirtuem o resultado das urnas.

Ao voto!


 


Não se esqueça


não se lamente


não se crispe


não se encolha


não se chore


não se arrepele


não se desgoste


não se desgrenhe


não se ajoelhe


não se arraste


não se atrase.


 


O dia é de erguer


os olhos


o corpo


a mente


o dia é de alegria


de renovação


de liberdade.


 


O dia é de votar!

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...