26 agosto 2015

Das duplas realidades

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À margem das disputas entre cartazes e debates, vou deixando passar o tempo, totalmente alheada da política. Quando ouço resultados de sondagens e opiniões argumentativas de comentadores, traçando cenários sobre o futuro, com previsões mais ou menos assumidas, consoante o pendor das suas crenças, pergunto-me o que de real haverá nestes resultados e nestas opiniões.


 


A descrença em qualquer informação que leia ou ouça nos jornais é tal que me vejo a duvidar dos dados do INE, das notícias sobre empresas e empresários, dos resultados de execuções da execução fiscal, das extraordinárias e voláteis promoções de pessoas aparentemente desconhecidas, das informações sopradas para os jornalistas que reproduzem de forma acéfala o que se planta nas redes sociais.


 


Qualquer raciocínio que faça sobre a actualidade está condenado a ser desmontado por dados que entretanto surgem do mesmo nada e que demonstram que os primeiros estavam errados, eram parciais ou, pura e simplesmente, tinham sido inventados.


 


Não podemos confiar nas informações divulgadas pelo jornalismo clássico. Com o espectro do anacronismo a assustar a classe, não há nenhum jornal que se queira distinguir pelo rigor, profundidade e variabilidade de assuntos e casos – resolveram copiar as linhas editoriais dos blogues, do facebook e das caixas de comentários, desistindo do cruzamento de fontes, investigação de factos, utilização de motores de pesquisa da internet, já para não falar na mais básica utilização do respectivo cérebro, o que se tornou numa raridade, nos tempos que correm.


 


Vogo por isso no mar da intranquilidade abúlica e enevoada, sem confiar em nada nem em ninguém. A sensação que tenho é há duas realidades – a da imensa maioria da população, que não ouve as notícias, não lê jornais e tenta sobreviver o melhor possível ao quotidiano, sofrendo as dores da pobreza, do miserabilismo, do desemprego, do contar do tostão, todos aqueles que ainda se não aperceberam da grande melhoria do estado do País, e a de um escasso grupo de pessoas, que se considera uma elite que se alimenta de si própria, inventando e confabulando sobre tudo e todos, convencida da sua razão de que a ela que se deve a interpretação da nossa sociedade.

09 agosto 2015

Da culpa

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 Giuseppe Maria Crespi


 


Estamos inundados de culpa e moralismo. Os políticos não defendem ideias mas afirmam as suas qualidades morais de honestidade e seriedade, independentemente do ridículo e da hipocrisia reinantes. Refaz-se a História à luz dos moralismos actuais, com uma interpretação de factos e acontecimentos numa sociedade que já não tem nada a ver com a sociedade em que ocorreram. A moda e o politicamente correcto da assunção de culpa e dos pedidos públicos de desculpas destrói a discussão dos verdadeiros problemas para ir entretendo e distraindo as pessoas com a intoxicação do bem e do mal.


 


Em vez de se discutir o emprego e o desemprego discutem-se cartazes de propaganda política, apenas do PS, claro, que os outros não têm mácula. Transforma-se  aquilo que devia ser uma troca de ideias numa batalha de banalidades, numa tralha infame de palavras e pseudo sentimentos sem qualquer interesse ou sustentação.


 


O que mais me preocupa é que a esquerda, que tanto se apregoa de esquerda e dos valores da liberdade e da lei, foram e estão submersos por esta estranha amálgama de mediocridade, deixaram-se arrastar para o lodo e vão-se afundando. As máquinas de propaganda estão desligadas daquilo que verdadeiramente envolve e motiva o voto dos cidadãos.


 


Ao contrário de Viriato Soromenho Marques não me parece que o PS tenha que pedir desculpas ou assumir responsabilidades da Troika ou de políticas que vêm desde Cavaco Silva. Essas responsabilidades são assumidas e são julgadas politicamente pelos eleitorados aquando das eleições legislativas. O problema da justiça em Portugal vai muito para além de Sócrates e Sócrates é apenas um exemplo.


 


A angústia que permanece, com a consequente desertificação da mobilização eleitoral, é a falta de clareza e a coragem de assumir riscos - falar de inconveniências que podem levar à vitória ou à derrota eleitoral - o PS fez coisas erradas e certas ao longo da sua História. A direita conseguiu empurrar o PS para o canto da defesa permanente, não tendo este sido capaz de explicar as vitórias e de explorar as desastrosas políticas da direita. Na verdade o PS tem o caminho totalmente minado pela manipulação informativa. Mas o PS tem que marcar a agenda política e ter a coragem de falar de tudo o que for preciso, sem complexos de culpa, não aceitando a política do genuflexório, confissão e penitência perpétuos.


 


Que voltem os valores republicanos e da liberdade para que termine este deprimente retrocesso civilizacional.

02 agosto 2015

Em Outubro, nas mesas de voto

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Faltam cerca de 2 meses para as legislativas. Cavaco Silva demonstra ciclicamente a irrelevância e a parcialidade de alguém que nunca percebeu o significado do cargo que ocupa, tendo tido a audácia de apelar implicitamente ao voto na coligação.


 


Teremos que decidir se vamos canalizar toda a nossa frustração e revolta para as mesas de café, para os ansiolíticos, para a estupidificação dominante que nos obriga a trabalhar em vez de pensar, ou se nos vamos empenhar em votar no dia 4 de Outubro, de forma a infligir uma estrondosa derrota à direita retrógrada que nos governou durante os últimos 4 anos.


 


Não só o país regrediu décadas no que diz respeito aos níveis de pobreza, desigualdade, desemprego, emigração e desesperança, como temos uma tentativa de punição moral nos costumes, regressando a retórica do direito a nascer e da menoridade mental, social e psicológica das mulheres, traduzidas na legislação sobre a IVG que esta maioria fez aprovar na Assembleia da República.


 


Continuam os tempos difíceis: a propaganda e a manipulação da opinião pública é constante e desavergonhada. Ouvimos boquiabertos o ainda Primeiro-ministro desresponsabilizar-se do Memorando quando foi ele que forçou a intervenção da Troika e se ufanou da preponderância do PSD para o êxito do mesmo, por intermédio de Eduardo Catroga. Ouvimos o Primeiro-ministro sugerir a culpa própria de quem está desempregado (aos 29:49 da entrevista) depois de contribuir para uma recessão que fechou milhares de empresas e de ter amputado os serviços do Estado. Ouvimos os seus propagandistas a inventar números e a alterar os seus discursos confiantes na distracção e no cansaço de quem os ouve.


 


Que ninguém se engane. Se o PS não tiver maioria absoluta está aberto o caminho para governos e coligações instáveis. O PSD e o CDS têm centrado a discussão na disputa eleitoral de 2011. Mas são estes 4 anos de Vítor Gaspar com o colossal desvio e o enorme aumento de impostos, de Mota Soares e das preocupações sociais com a delapidação dos apoios aos desempregados e aos mais necessitados e com a política de assistência caritativa, de Nuno Crato com o desinvestimento na Escola Pública e a contracção do ensino universitário, de Paula Teixeira da Cruz com uma justiça que desmente o seu próprio conceito, de Paulo Macedo com o desinvestimento e a desigualdade no acesso ao SNS, enfim, da incompetência, incompetência e nulidade reinantes.


 


Têm sido ultrapassados limites de decoro e de decência nunca antes vistos. Por isso mesmo não nos podemos negar a participar mas próximas eleições de 4 de Outubro. Parafraseando António Costa, a melhor maneira de garantir que a direita não se mantenha no poder é dar uma maioria absoluta ao PS. Somos nós a solução. Não há propaganda nem mentiras que mascarem 4 anos de uma política que não se preocupou com a vida dos cidadãos nem com a administração da esperança.


 


Por isso nos encontraremos nas mesas de voto, a 4 de Outubro, para mudarmos de vida.


 


Nota: Após a chamada de atenção de um comentador (Assis), o texto foi rectificado.

30 julho 2015

Os Tais


Carlão


 


Um e um são três podiam ser quatro ou cinco


Se não fosse a crise não era preciso um trinco


Fazia-se uma equipa eu era o ponta de lança


Marcava golos em pipa a minha ponta até faz trança


 


Quem diria que iamos chegar aqui


E ter uma vida séria como eu nunca previ


E é tão bom acordar de manhã olhar para ti


Antes de ir bulir naquilo que eu sempre curti


 


Ai há bebé


Somos os tais


Ai há bebé


Que viraram pais


Ai há bebé


Firmes e constantes


Ai há bebé


Produzimos diamantes


 


Ai há bebé


Somos os tais


Ai há bebé


Que viraram pais


Ai há bebé


Firmes e constantes


Ai há bebé


Produzimos diamantes


 


E a nossa filha já vai ter um mano ou mana


Ainda ontem mal abria a pestana


Quero uma ilha catita com uma cabana


Porque amor já tenho a montes o algodão não engana


 


Foi contigo que eu matei tantos demónios


Foi contigo que salvei tantos neurónios


Vejo-nos felizes citadinos ou campónios


Não fiques muito triste por não gostar de matrimónios


 


Tens o anel não precisas do papel


Fazemos nós a festa até te canto o Bo Te Mel


Desta vez eu tiro a carta nem que leve um ano ou dois


Por enquanto continuas conduzes pelos dois


 


Ai há bebé


Somos os tais


Ai há bebé


Que viraram pais


Ai há bebé


Firmes e constantes


Ai há bebé


Produzimos diamantes


 


Ai há bebé


Somos os tais


Ai há bebé


Que viraram pais


Ai há bebé


Firmes e constantes


Ai há bebé


Produzimos diamantes


 


Às vezes não é facil (2x)


Mas bebé, nós damos a volta damos sempre a volta a tudo (4x)


Nós damos a volta


 


Ai há bebé


Somos os tais


Ai há bebé


Que viraram pais


Ai há bebé


Firmes e constantes


Ai há bebé


Produzimos diamantes


 


Ai há bebé


Somos os tais


Ai há bebé


Que viraram pais


Ai há bebé


Firmes e constantes


Ai há bebé


Produzimos diamantes


 


Ai há bebé (7x)

19 julho 2015

La Belgique Gourmande

Várias foram as iguarias que me sugeriram não perder, na terra dos belgas. E ninguém como eu, que não posso dar largas à minha gula, para não perder nenhuma delas.


 


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Por isso, depois da madrugada inicial destas miniférias, o avião aterrou numa Bruxelas de tempo fresco, com céu nublado. Enquanto não chegava a hora para entrar no Hotel, a cidade abriu-se à nossa curiosidade. A pé deambulámos pelas ruas, com algumas das características da calçada portuguesa na irregularidade do piso. As fachadas dos prédios têm janelas altas e esquadrias, de tijolos pequenos avermelhados ou acastanhados, telhados pontiagudos - Bruxelas combina os traços austeros com a bonomia da burguesia média.


 


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Desembocámos na Grand-Place, lindíssima praça com edifícios bordados a ouro que brilham mesmo com a luz baça que pinta as muitas esplanadas separadas por canteiros de flores. Respirava-se bem estar. Dependendo das horas e da altura do dia, há grupos sentados no chão a conversar, vendedores de aguarelas, turistas a descansar.


 


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Aproveitámos para conhecer o Musée Oldmasters Museum (Musée Royaux des Beaus-Arts de Belgique) onde tive a oportunidade de ver obras de Hieronymus Bosch e de Pieter Bruegel o Velho, dois dos mais extraordinários pintores dos séculos XV e XVI. Junto ao museu, Bruxelas espraiava-se no horizonte, cinzenta e ocre, uma verdadeira calmaria para quem precisava dela.


 


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Nada como um almoço numa das esplanadas de Bruxelas, em que a tarte tatin chaude foi uma glória, e a visita nocturna ao icónico A La Mort Subite, lindíssimo café - brasserie do início do século XX que deve o seu nome a um jogo de cartas, onde se bebe uma maravilhosa cerveja mort subite framboise, para começar a degustação da Bélgica Gourmande. Os chocolates e as moules ficaram para depois. No entretanto palmilhámos Les Galeries Royales Saint-Hubert, ruas cobertas que se entroncam umas nas outras com numerosos espaços comerciais - chocolatarias, joalharias, livrarias, lojas de bordados, um museu de cartas e manuscritos, um Teatro de Vaudeville e um Cinema Royal, entre outros.


 


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17 julho 2015

Começo pelo fim

Começo pelo fim: aeroporto de Lisboa finalmente; caminhada de quilómetros à uma da manhã sem se perceber porquê; a sorte da cuspidela imediata das malas pela barriga da aeronave (como lhe chamava um passageiro); a chegada a casa depois de uma espera de 2 horas pela descolagem, dentro do avião, num lugar absolutamente claustrofóbico que quase não permitia uma respiração mais profunda.


 


Último dia em Bruxelas. Pagar a quantia de 18,00 € (!!!) pelas taxas e taxinhas da cidade. O final deste interlúdio com o que poderia ser uma alegoria à Europa, na cidade das Instituições Europeias – a Mini Europa, uma espécie de Portugal dos Pequeninos sobre a União Europeia, com aquilo que distingue as diversas culturas e economias, arquitecturas, Histórias e símbolos, sem se esquecerem os hinos nacionais.


 


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 Somos todos gregos


 


É quase comovente visitar aquele parque de diversões para crianças e adultos, e ler o que foram os princípios e os valores fundadores da união dos povos da Europa. Tudo o que os deveria unir em complementação e respeito pelas diferenças, a democracia, a liberdade, o respeito pelos direitos do Homem, o estado social e o desenvolvimento sustentado. Depois do que se passou nas últimas semanas com a Grécia, com a derrota estrondosa de Tsipras (para mim uma surpresa) e de todos os que ainda acreditam naquilo que era o projecto europeu, o melhor é não esperar muito para visitar esta (Mini) Europa pois parece-me que não faltará muito para que pertença ao passado.


 


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Também o Atomium, uma gigantesca estrutura que ficou da Exposição Universal de Bruxelas (1958) é lindíssimo, a lembrar a Torre Eiffel, também resultado da Exposição Universal de Paris (1889). Fico sempre maravilhada pela grandeza de quem imagina e de quem constrói estes monumentos que se transformam em símbolos de cidades, de culturas, de Nações.


 


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Durante o voo de regresso descobri a enorme mancha iluminada vista dos céus que representa o aglomerado humano de Paris com a referida torre Eiffel, perfeitamente identificável mesmo a cerca de 9000 metros de altitude. Literalmente, a cidade da(s) luz(es).

11 julho 2015

Le plat pays

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 La Tour de Bruxelles


 



Jacques Brel


 


Avec la mer du Nord pour dernier terrain vague


Et des vagues de dunes pour arrêter les vagues


Et de vagues rochers que les marées dépassent


Et qui ont à jamais le cœur à marée basse


Avec infiniment de brumes à venir


Avec le vent de l'est écoutez-le tenir


Le plat pays qui est le mien


 


Avec des cathédrales pour uniques montagnes


Et de noirs clochers comme mâts de cocagne


Où des diables en pierre décrochent les nuages


Avec le fil des jours pour unique voyage


Et des chemins de pluie pour unique bonsoir


Avec le vent d'ouest écoutez-le vouloir


Le plat pays qui est le mien


 


Avec un ciel si bas qu'un canal s'est perdu


Avec un ciel si bas qu'il fait l'humilité


Avec un ciel si gris qu'un canal s'est pendu


Avec un ciel si gris qu'il faut lui pardonner


Avec le vent du nord qui vient s'écarteler


Avec le vent du nord écoutez-le craquer


Le plat pays qui est le mien


 


Avec de l'Italie qui descendrait l'Escaut


Avec Frida la Blonde quand elle devient Margot


Quand les fils de novembre nous reviennent en mai


Quand la plaine est fumante et tremble sous juillet


Quand le vent est au rire quand le vent est au blé


Quand le vent est au sud écoutez-le chanter


Le plat pays qui est le mien

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...