Nunca me preparei para as ausências.
Nas gavetas do meu corpo gestos
de carícia ou separação
guardados num qualquer quarto alugado
da alma em permanência
de gelo e paixão.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Nunca me preparei para as ausências.
Nas gavetas do meu corpo gestos
de carícia ou separação
guardados num qualquer quarto alugado
da alma em permanência
de gelo e paixão.
Querido Pai Natal,
Querido Menino Jesus,
Penso que não tenho nenhum pedido especial. Também me parece que já devem estar bastante cansados dos pedidos da humanidade, daquela parcela da humanidade que pede e se queixa, pois a outra parte nem sequer tem força para se lembrar das épocas natalícias, ocupada que está a sobreviver.
Por isso esta carta serve apenas para vos dizer que compreendo a enorme vontade que devem ter de despachar esta quadra o mais depressa possível, para que regresse o silêncio e se refaçam as forças para enfrentar mais um ano de penúria, revolta e tristeza perante o que se passa no país e no mundo. E para que o grande intervalo entre este e o próximo Natal seja aproveitado para devolver alguma esperança a quem já desesperou, alguma decência e dignidade a quem a perdeu ou a quem delas foi obrigado a separar-se. E mais que tudo, antes que tudo e a propósito de tudo, que não nos percamos uns dos outros.
Boa Consoada.
PS – Ajudava IMENSO a eleição do PS com maioria absoluta e de um Presidente que nos restaurasse a vontade de resistir.
A solidariedade e o carinho cristãos deixaram de ser sentimentos da intimidade de cada qual, um amor ao próximo íntimo e modesto, apenas conhecido desse próximo e de Deus inspirador de tão santas tendências e convicções, para passar a ser um acontecimento social, propagandeado e apregoado pelos media, com fotos das benfazejas criaturas adequadamente vestidas - ou como se fossem para a ópera ou com a fluorescência dos bombeiros. Alvos de grandes e oportunas reportagens, os desgraçados que tiveram a infelicidade de ser sem-abrigos, novos e envergonhados pobres ou outra qualquer marginalidade, são exibidos sem qualquer pudor para os consumidores de big brothers, condoídos candidatos a qualquer coisa ou empresários com enormes consciências sociais.
Tal é a quantidade de iniciativas para ajudar os desfavorecidos que a noite de Natal não chega para tanto ardor de ajuda e amor, pelo que as ceias começam a 14 de Dezembro, para que as santas e os santos ajudantes de Cristo possam ter a noite de 24 para consoarem na paz do Senhor, nas suas quentinhas casas e com as suas famílias mais ou menos funcionais, tranquilizadas as consciências pelo bem espalhado, deixando os sem-abrigo e as famílias carenciadas com o seu Natal minguante.
Johann Sebastian Bach
Amsterdam Baroque Orchestra & Choir
Kyrie eleison,
Christe eleison,
Kyrie eleison.
Em abono da verdade deve dizer-se que, embora estejam deliciosos, os licores de ameixa e de pêssego não se distinguem muito bem um do outro e não sabem grandemente a qualquer das frutas. Até a cor é muito parecida.
Há apenas um pormenor que os separa - o de pêssego está bastante mais forte que o de ameixa! Mas não há desânimo que me chegue, neste tema (palavra bastante em voga) dos licores. Este fim-de-semana foi a vez de acabar o último, que aguardava pacientemente a sua vez.
Esse foi uma excelente surpresa, porque a fé que tinha nele era escassíssima. É de folha de figueira. Não uma novidade, porque já o tinha feito, mas as folhas que gentilmente me deram não tinham um perfume muito acentuado e eu estava bastante céptica quanto ao resultado final.
Pois está mesmo muito bom. Tem mesmo a cor da folha de figueira, um perfume e um sabor que lembra o figo, está excelente e é fácil de fazer.
Colocam-se as folhas de figueira partidas aos bocadinhos (com as mãos) num frasco de boca larga com a aguardente do costume. Depois de macerar pelo menos 1 mês (eu deixei-as a macerar desde Setembro), côa-se a aguardente (num pano de algodão ou de linho), faz-se um xarope com água, açúcar e raspa de laranja (para 1 litro de água, 750 g de açúcar a ferver durante 15 minutos). Depois junta-se o xarope à aguardente (para cada litro de aguardente, 8 dl de xarope) deixa-se ferver, enfrasca-se e só se rolha quando está frio.
O problema começa a ser a falta de imaginação para tanto verso de pé quebrado!
Nunca percebi muito bem a razão da atitude céptica e desesperançada que a maioria das pessoas adquire à medida que envelhece. Não são só os cabelos que embranquecem, mas também os olhos perdem o brilho, os ombros encurvam, os sorrisos abreviam. A nostalgia e o culto da inocência demonstram bem a certeza de a perderem, se bem que o exacto significado dessa expressão tardava em revelar-se.
Mas agora olho para o que era e para o que sou, e vou entendendo que a secura da vida se apropriou de mim. Muito do que eram as minhas crenças e do que eram os meus princípios, férreos e inamovíveis, nobres e escorreitos, limpos e directos, parecem cada vez mais esbatidos, a perder nitidez. A relativização dos limites e dos comportamentos perante as desilusões e as evidências a desmentir tudo o que pensava certo e inquestionável, o mover do chão onde me implantei, fazem com que me desgoste de mim.
E no entanto não quebrei nada a que me tivesse comprometido, cumpro devotadamente os meus deveres, apregoo aos quatro ventos a procura da felicidade, a existência desse local mítico que nos faz viver, dia a dia, ano a ano. Mas algo se vai quebrando em mim, essa capacidade de olhar para o mundo e o ver cintilar, essa radiosa certeza de que se nos dermos à vida ela nos será gentil e pródiga.
Na verdade, para uma total agnóstica como eu, acredito de mais na providência e no retorno das boas acções. Só existem acções, nem boas nem más, mas apenas inconsequentes, rituais e inconscientes, uma roda de actos e emoções que se modelam entre si e se habituam a tudo. E a nada.
Como não posso descansar nestes períodos febris… e fabris, também já está pronto o licor de pêssego. A receita é a mesma do de ameixa, é só substituir a palavra (e o fruto) ameixa por pêssego. Agora é preciso arranjar as garrafinhas, os rótulos e as rolhas, o que não é propriamente fácil.
No domingo consegui convencer uma parte da família a ir contemplar as iluminações da Avenida da Liberdade. Não sei que me deu este ano para ter tanta necessidade de impregnar-me de Natal a partir do frio e das cores das luzes penduradas nas árvores, do amarelo cintilante dos desenhos pós modernos que encimam as ruas, dos modelos de sinos e oferendas que nos adoçam os humores, como se a esperança dependesse da encenação de felicidade e de paz.
E lá fomos, numa fila de gente que teve a mesma original ideia, numa lentidão irritante mas que permitiu ver as iluminações com todo o vagar e detalhe, de tal forma que poderia ter contado as lâmpadas de cada um dos enfeites, a todo o comprimento da avenida.
As decorações de casa esperam melhores dias: continuam dentro do saco de compra, bonitas e abandonadas, em perigo de lá adormecerem até Dezembro do próximo ano, tal como as pobres abóboras que minguam dia a dia, sem que me motive a dar-lhes uso.
Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...