27 dezembro 2013

Das ofertas recebidas (1)

 



 


Ellis Peters é um dos pseudónimos de Edith Pargeter, uma escritora inglesa que criou o Irmão Cadfael, um monge detective, cujas aventuras decorrem em Shrewsbury, entre os anos de 1137 e 1145, tendo como pano de fundo a guerra travada pela sucessão de Henrique I, entre Estêvão e Matilde de Inglaterra - The Cadfael Chronicles. Em Portugal estes livros, penso que a maioria, foi editada pela Europa-América.


 


Os livros desenvolvem-se na base de acontecimentos históricos reais. A figura de Cadfael [ˈkadvaɨl] é muito interessante visto que, antes de entrar para a vida monástica, foi combatente e marinheiro, o que lhe deu uma humanidade que, combinada com o conhecimento de ervas medicinais, lhe dá uma capacidade de entendimento, uma curiosidade e um raciocínio lógico que o leva a resolver os crimes e os mistérios que se lhe deparam.


 


Essa série de livros policiais foi adaptada para televisão, sendo o protagonista Derek Jacobi. É com um episódio por dia que faço durar esta maravilhosa prenda de Natal.


 

Monstros Antigos

 



 


Não é fácil falar de um livro de poesia. Pelo menos para mim, que gosto muito de poesia.


 


Monstros Antigos (Esfera do Caos Editores) de Porfírio Silva, é um livro belíssimo. De uma contenção, elegância, fluidez, musicalidade e ritmo que fazem com que as suas palavras se transformem nas nossas palavras. Transcrevo dois (de entre muitos) dos que mais gostei:


 


um desafio amoroso


 


Pássaro pesado sem asa


Navio ferido sem vela


Atravessas o deserto da casa


da primeira porta à última janela.


Forte a fome de fazer


Fraca a faca de cortar


É tarde:


Se ainda és de veras o homem que inventou as nuvens


Levanta-te e arde


 


 


a astúcia da razão


 


dez mil déspotas abrigados


à sombra do teu não.


tu resistes.


e na tua resistência está o seu pão.


 


É com a poesia que resistimos.


 


Nota: Ver também Eduardo Pitta


 

26 dezembro 2013

Das revoluções sem armas

 


Há uns dias discutia-se a importância do Maio de 1968, na perspectiva da cultura da sociedade europeia, nomeadamente no que diz respeito aos direitos da mulher e à sua libertação sexual.


 


Não me parece que a liberdade sexual da mulher e, consequentemente, do homem, tenha tido raízes ou sequer tenha sido catalisada pelo Maio de 68. Penso mesmo que a importância do Maio de 68 é muito hiper valorizada, tanto culturalmente como politicamente, dando lugar a um reforço do poder do General de Gaulle, tendo os partidos da esquerda francesa, que apadrinharam a crise estudantil e as greves que se lhe seguiram, sido pesadamente derrotados nas eleições para solucionar essa mesma criseque se lhe seguiram.


 


O grande marco civilizacional do século XX, que revolucionou e modificou a organização social no mundo ocidentalizado, foi a descoberta da pílula, a implementação dos serviços nacionais de saúde, com o pioneirismo do Reino Unido e o desenvolvimento do planeamento familiar com a massificação do uso da contracepção hormonal.


 


A liberdade da mulher nasce da capacidade que ela adquire em controlar, sem a dependência dos seus parceiros, o seu ciclo reprodutivo. E essa capacidade abriu-lhe as portas às ambições de trabalhar, de estudar, de ser economicamente sustentável e independente, de ultrapassar a culpa entranhada da cultura judaico-cristã que a não via como pessoa de pleno direitose desligada da função reprodutora.


 


Essa revolução alterou por completo a relação entre os dois géneros, a organização familiar e a demografia, lançando novos e complicados desafios à sociedade. Em Portugal, Albino Aroso foi um dos que ajudou a essa causa, tendo um papel preponderante na qualidade de vida das mulheres do nosso país. Todas nós lhe devemos uma boa parte da nossa forma de viver, com mais qualidade, segurança e responsabilidade. Ao contrário da geração que está agora no poder, em Portugal e em muitos países europeus, defendia a social democracia. Infelizmente, esta direita que nos governa, aqui e na Europa, não tem sabido honrar estas heranças.


 

Identidade

 



Jiyuseki


 


Afasto-me. Crio uma distância interior visão a preto e branco


de uma neve mais pura de um frio mais intenso.


Afasto-me do silêncio abrupto e gelado deste inverno


de todos os invernos acumulados que transbordam


de todas as solidariedades redondas como ornamentos


de todos os sorrisos desenhados a pincel


de todas estas harmonias amarrotadas


de todos os abraços de ocasião.


 


Afasto-me. De tudo de todos numa ingratidão egoísta


em luta pela sobrevivência de alguma sóbria


e resgatada identidade.


 

25 dezembro 2013

Do pecado da gula (2)

 



 


Pois todo o conceito de peru recheado foi desconstruído. Do peru comeram-se as pernas e o recheio foi exterior e não interior, como parece indicar a palavra. Mas todos sabemos, desde a decisão irrevogável de Paulo Portas, que as palavras ganharam outra vida e outros significados.


 


Não foi fácil colocar as pernas de peru, de uma dimensão dinossáurica, dentro do tabuleiro do forno, mas lá ficaram elas, um tantos atafulhadas, pouco elegantes, convenhamos. Escorridas do molho em que estavam há 2 dias, foram barradas e amassadas com uma pasta de 6 dentes de alho (altura ideal para descobrir que o esmagador de alhos estava partido), 2 colheres bem cheias de pimentão doce, alecrim, louro, piri piri e azeite. Espalhei um pouco de sal e reguei com um pouco de azeite, vinho branco (este generosamente) e as rodelas da laranja. Cobri com uma folha de alumínio e foi a assar durante cerca de 3 horas, em lume brando.


 


Quanto ao recheio, foi uma inspiração de momento. Fritei bacon (2 caixinhas), uma grande cebola, castanhas, tâmaras, passas de uva, nozes, azeitonas e cogumelos, tudo cortado aos bocadinhos, e fui temperando com um pouco de sal, piri piri e vinho (usei Porto seco e aguardente). Vai-se mexendo até ficar tudo cozinhado. Se não apreciar muito o sabor adocicado não junte as passas de uva.


 


Acompanhei com arroz branco e esparregado, uma iguaria gentilmente preparada por um dos comensais, e vinho tinto (Quinta do Portal 2007). A seguir foi a panóplia de doces que sobraram de ontem, com o respectivo café e seu licor, pelo que terei que caminhar vários quilómetros nos próximos dias, para digerir e reduzir a enorme quantidade de calorias que ingeri neste dias.


 


A operação Natal 2013 está encerrada. Iniciar-se-á, brevemente, a operação ano novo 2014.


 

24 dezembro 2013

Da decadência das rabanadas à revolução do bacalhau

 



 


A calda para os sonhos e as rabanadas está... miam... glup... miam...


 


Para 400g de açúcar adicionam-se 300ml de água, 3 paus de canela e casca de 1 laranja (pequena). Quando ferver junta-se um bom cálice de vinho do Porto... seco, e deixa-se ganhar ponto (cerca de 15 minutos). Já está numa taça funda, onde irão mergulhar os sonhos; o restante está noutra taça, para quem quiser regar as rabanadas.


 


O ano passado discutiu-se a lateralidade política das couves. Sim, cá em casa é tudo muito assumido em termos de debate democrático, e todos os gestos tradicionais são revirados, numa dialéctica comprometida e engajada. Temos que urgentemente decidir se comer bacalhau cozido com batatas e grão é considerado revolucionário e herdeiro de Abril, ou se o Natal em si, com a sua decadência doce e pegajosa, ou não houvesse açúcar que baste a lambuzar os pratos e os dedos, não é a mais pura e reaccionária expressão da direita ultraliberal fashion e caritativa.


 


Neste caso, a singeleza do bacalhau e as horas de escravidão que se passam a preparar o Natal bem podem ser assumidas como solidariedade operária, objecto de gente reivindicativa, como eu. A justa luta não tem tido grande resultado, acabando habitualmente na mais abjecta confraternização entre os representantes do capitalismo, que se levantam tarde e a más horas, e os defensores do trabalho e dos valores da liberdade, que mourejam todo o dia entre panelas. Nesta mesa a consertação acontece por entre os ruídos dos talheres e os perfumes que despertam os mais empedernidos dorminhocos.


 


A todos os companheiros e companheiras, camaradas de consoadas e réveillons, que passem um excelente natal, dignificando a causa em manifestações e comícios nocturnos porque, como sempre, a luta continua!


 

Continuar

 



Baemikkumi


 


Qualquer que fosse o esforço que fizesse


arrasar esta inquietação esta inamovível tristeza


qualquer que fosse a caminhada


a extensão da estrada que me esperasse


qualquer que fosse o longínquo obscuro lugar


que me quisesse talvez lá encontrasse


a força que me falta para continuar.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...