01 junho 2013

Hipermercado dos livros

 



 


Nada de novo neste cantinho do mundo. Pode parecer que há uma frente imparável entre centrais sindicais unidas, fundadores da democracia a levantarem as massas, manifestações diárias e desacatos na Assembleia da República.


 


Na verdade, é apenas a banalização da demonstração do descontentamento. O governo continua lá, com uma maioria parlamentar que ainda não se desmanchou. A execução orçamental continua a ser horrível, sobe o desemprego, o défice e mantém-se a desvergonha e o mau gosto inexcedível de pessoas como Vítor Gaspar, que nem percebe que é melhor não tentar fazer humor.


 


Nada há, portanto, a dizer de novo, que não se tenha dito já milhares de vezes. Como não se consegue continuar a aumentar exponencialmente a desesperança e a depressão, habituamo-nos. O ser humano adapta-se a tudo para sobreviver.


 


Hoje, pelo menos, São Pedro deu-nos algumas tréguas. Esteve um dia lindo. Por isso decidi ir à Feira do Livro. Arrependi-me ao fim de 10 minutos. A Feira do Livro transformou-se no Hipermercado do Livro, em que há uns cestinhos para ir tirando livros de estantes cheias, propaganda e promoções a autores e a livros, tal como no Jumbo e no Continente, filas de gente para as caixas, desgraçados autores sentados a escrevinharem autógrafos para os eventuais leitores, muitas barraquinhas de gelados, de doçaria regional, água, café e sei lá que mais, para além dos balões, palhaços e carrinhos de bebé porque hoje era o dia mundial da criança.


 


Tenho um problema cada vez mais grave com estas manifestações culturais. Fugi a sete pés.


 

30 maio 2013

Alongar

 


 



Tejo 


 


 


1.


Inclinada a cidade esvai-se


sangra pelas ruas em pedras rolantes


e passos cansados exausta


de mundo de inverno de pó.


 


2.


Ficamos sentados à beira do tempo


desistentes da vida assistimos


ao dobrar dos troncos


ao vergar das nuvens.


 


3.


Desenhei num mapa que só tu entendes


os cruzamentos em que alongamos


imensas e surdas despedidas.


 

19 maio 2013

As vozes dos outros (3)




(..) Para mim o poeta é alguém que está «em contacto». Alguém através de quem passa uma corrente. Mas, definitivamente, a poesia e a prosa têm enormes semelhanças. A prosa está cheia de ritmos subjacentes, que descobrimos muito rapidamente quando estamos atentos. Só que a poesia, e é aqui que acho que o poeta moderno se engana, assenta em efeitos de repetição, que são capazes de ter um papel encantatório, ou, pelo menos, de se impôr ao subconsciente. Uma poesia sem ritmos imediatamente perceptíveis não estabelece o contacto necessário com o leitor (...)


 


De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar - Conversas com Matthieu Galley


Relógio D'Água Editores, Junho de 2011


 

18 maio 2013

Vozes

 



Wendy Dunder


 


Sabia que a olhavam de lado, como a uma louca. Sabia que era louca, mas apenas por ser racional.


 


Começou a falar consigo desde muito cedo. O silêncio da casa, o enorme espaço vazio à sua volta, a todas as horas do dia, em todos os gestos que ecoavam a solidão. Parecia que as vozes dentro de si rebentavam, enchiam o mundo, entonteciam. Não conseguia distinguir os pensamentos dos sons exteriores a si, do mundo.


 


Falar consigo materializava alguém que lhe era intrínseco e que, no entanto, não conhecia. Não precisava de ter um interlocutor, não precisava que se sentasse ao seu lado, que anuísse ou discordasse, que lhe lesse passagens de um livro, que lhe apreciasse a comida, que necessitasse de companhia.


 


Falar consigo dava-lhe conforto e segurança. Era como uma cadeira que esperava pelo seu descanso.


 

Concerto para bandolim em dó maior (RV 425)

 




Il Giardino Armonico

 

Cortinas de fumo

 


São várias as notícias plantadas nos jornais. Umas para lançar o pânico, de forma a que a população aceite o menor dos males. Outras para acertar contas, não se sabe exactamente de quem. A Europa é um imenso parque de diversões. Infelizmente, a maioria das pessoas só tem direito a assistir.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...