09 novembro 2012

Um dia como os outros (120)

 



(...) Quando a luta aquece, ainda ninguém sabe o que, neste ciclo, acontece. E seria terrível se aos malefícios deste governo sobre a economia e a sociedade se juntasse a colonização do espectro partidário da esquerda (e talvez a seguir da direita, mas falarei disso noutra altura) por correntes que, perdido o referencial revolucionário e sem projecto para Portugal como sistema democrático no quadro do capitalismo, são meramente oportunistas e populistas. Oxalá me engane, mas vejo no horizonte o espaço aberto para uma ofensiva populista sobre a esquerda que só um repensar sério dos seus papeis na sociedade portuguesa por parte das forças da esquerda democrática e dos movimentos sociais não radicalizados pode conter. A UGT pode estar a ser só e ainda, apesar de tudo ao de leve, a primeira vítima.


 


Paulo Pedroso


Da futilidade existencial

 



 


Não tenho dúvidas das boas intenções de Isabel Jonet nem do seu importante papel à frente do Banco Alimentar contra a fome, nem da indispensabilidade da existência da organização. Não é isso que está em causa, como nunca estiveram as boas intenções de todos quantos cuidaram, alimentaram e ofertaram as roupas que já não vestiam e os sapatos que passavam de moda aos pobres, uma palavra ressuscitada do léxico social e político.


 


O que está em causa é a noção da organização social subjacente. Porque quem diz que temos que empobrecer e não ser consumista nunca se está a referir a si próprio. Por inerência, os direitos de quem receita a contenção e a modéstia estão assegurados, os espectáculos, o viver com conforto e a largura de horizontes dessas pessoas nunca estão em discussão.


 


A moral vigente transformou todo um país num aglomerado de gente sem noção do que deve ser uma vida organizada, gastando o que tem e o que não tem em futilidades. Este governo assumiu o papel castigador e enaltecedor do viver dentro das suas posses, pobre mas honesto. O problema é que a alimentação, o ensino e a saúde, para não falar da investigação científica e do puro lazer, a que cada vez menos têm acesso, passaram para a categoria das futilidades.


 


Porque só para alguns estes bens estão assegurados. E porquê? Porque são melhores, porque se esforçaram mais, porque fizeram mais pela sociedade? Ou porque tiveram a sorte de ser bem-nascidos, de terem famílias com dinheiro e/ou poder?


08 novembro 2012

Dos castigos aos viciosos

 


É claro que há muitos hábitos consumistas que podem e devem ser mudados. Não haverá necessidade de as famílias irem aos restaurantes com frequência, como também se pode andar a pé em vez de usar o carro. Sempre se pode poupar o dinheiro da gasolina.


 


O problema está na escolha do que é indispensável e no escalonamento das prioridades. No mundo da Helena Matos, da Isabel Jonet e de muitos outros, assistir a um concerto, comer em restaurantes ou viajar é dispensável, pois há uma classe de pessoas que apenas podem financiar a sobrevivência modesta, sem alimentar ambições. Quem não tem dinheiro não tem vícios. E tudo o que extravase a missão de conseguir alimentar-se e pagar as contas, nomeadamente a enormidade de impostos a um Estado que já não assegura nem sequer a hipótese de uma radiografia grátis a quem parte um pé, passou a ser um vício.


 


A excepção é sempre a mesma: aquele grupo de gente que vive em condomínios fechados, que frequenta locais suaves e sofisticados onde as paredes e as peles respiram perfume, que conhece o mundo e viaja sem preocupações, que pode descansar a alma em concertos e galerias de arte pois as agruras de uma vida de negócios fazem subir a tensão e o colesterol, enrugam as faces e encurvam ombros.


 


Aproveitar a crise para criar bons hábitos alimentares seria uma oportunidade se a crise deixasse margem para poder comprar carne, peixe, leite, legumes, fruta, para fazer sopas e saladas, um bolo de vez em quando. Mas os ordenados de quem trabalha já não chegam para tanto. Não chegam sequer para dar o pequeno-almoço às crianças, antes de irem para a escola. E quem não trabalha nem isso tem.


 


A gestão desta crise já ultrapassou todas as oportunidades de renovar atitudes. A gestão desta crise é o regresso ao mais absoluto poder dos poucos que têm muito sobre os muitos que pouco ou nada têm. É o castigo ao povo atrevido, abusador e malcriado de que fala António Lobo Antunes. É a volta da tristeza, do cinzentismo e da desesperança.


 

Os Pobrezinhos

 


A concepção da vida em sociedade, da mobilidade entre classes sociais, de direitos e deveres das pessoas, mntém-se ainda em muita gente, que ocupa lugares de responsabilidade precisamente em organizações que se pretendem de solidariedade, que deveriam colmatar as gritantes desigualdades num país com as dificuldades crescentes que existem, ao nível das caridosas e pias senhoras que esmolavam e usavam os seus pobres.


 


O consumismo, a inversão de valores e prioridades, tudo isso é criticável e não sustentável. Mas neste momento, a moral vigente castiga a gente que se atreveu a ter as mesmas aspirações de uma escassa minoria que tinham e têm direitos e privilégios, adquiridos por nascença.


 


Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.


 


Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:


 


- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.


 


O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:


 


- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.


 


Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto


 


(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)


 


de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico


 


- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho


 


o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:


 


- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu


 


Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros


 


- O que é que o menino quer, esta gente é assim


 


e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.


 


Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse


 


- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar


 


e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.


 


Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.


 


Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.


 


António Lobo Antunes


 


Através da Rita Taborda Duarte


 


 

07 novembro 2012

The best is yet to come

 



 



Stacey Kent

Coleman & Carolyn Leigh


 


 


Out of the tree of life, I just picked me a plum


You came along and everything starting to hum


Still it's a real good bet, the best is yet to come


The best is yet to come, and babe, won't that be fine


You think you've seen the sun, but you ain't seen it shine


Wait till the warm-up's underway


Wait till our lips have met


Wait till you see that sunshine day


You ain't seen nothin' yet


The best is yet to come, and babe, won't it be fine


The best is yet to come, come the day you're mine


Come the day you're mine


 


I'm gonna teach you to fly


We've only tasted the wine


We're gonna drain that cup dry


Wait till your charms are right, for these arms to surround


You think you've flown before, but baby you ain't left the ground


Wait till you're locked in my embrace


Wait till I draw you near


Wait till you see that sunshine place


ain't nothin' like it here


The best is yet to come, and babe won't it be fine


The best is yet to come, come the day you're mine


Come the day you're mine


And you're gonna be mine


 

05 novembro 2012

Anuário

 


 


 


Vou acendendo velas, tantas quantos os anos que tenho passado a escrever neste blogue, com periodicidade irregular, à medida das fúrias, incertezas, estados depressivos ou de exaltação a que sou acometida. Escrevo para mim e muito me pergunto porque tenho esta necessidade de me afirmar publicamente, mesmo que o público seja tão minoritário como é a minha própria dimensão.


 


Quando leio os primeiros textos quase me não reconheço. Os sete anos que passaram assistiram a um envelhecimento e a um desencanto que me seria difícil aceitar como verdadeiro, se eles não fossem o testemunho indesmentível desse facto.


 


Atravesso um período de questionamento de muitos dos fundamentos que sempre me guiaram na minha vida. As crises servem para fazer balanços, análises e tomar decisões, escolhas difíceis mas indispensáveis.


 


Nunca me refugiei no desalento. Mesmo que apeteça. Mal ou bem, faço parte de um todo que começa pelo meu próprio corpo, se insere numa família, numa comunidade e num país, pelo menos. Mal ou bem, consequente ou não, aqui me vou expondo, em afirmações e contradições que me são inerentes.


 


A quem me lê, me ouve ou me sente, o meu muito obrigada pela companhia.


 

04 novembro 2012

Dos crentes em Belém

 



 


Desta vez a romagem à terra dos avoengos resulta numa miscelânea de fazer inveja a qualquer MasterChef: marmelos, abóbora, receita de borrachões e pudim de pão.


 


Na verdade não tem paralelo, este meu apego por cozinhar, provavelmente uma forma de compensação pela férrea dieta cumprida. A quantidade de programas de culinária a que tenho assistido, seguido de um crescente interesse pelo laboratório doméstico, acompanham-me há mais de um ano. As experiências das épocas natalícias não são inéditas. Este ano Novembro chegou e inicia-se a faina.


 


Mas a vontade de inovar é imensa e a tendência para o disparate ainda maior. Por muito que queira, as variações de compota de marmelos, pelo menos nas minhas parcas aptidões de chef, estão praticamente esgotadas. Talvez me incline para a simples e vulgar marmelada, que espera um toque de criatividade, algures entre a mistura de outro ingrediente ou o granulado da mesma. Quanto às abóboras ou botelhas, razões de dores musculares e grandes cargas de chuva pelo peso e noites chuvosas em busca e transporte das ditas, também aguardam inspiração.


 


Os licores, que estão em pousio - cascas de laranja a destilar na aguardente desde o ano passado - ficarão melhor que nunca. Quanto aos borrachões, serão a novidade do Natal 2012.


 


Preparemos pois o Natal, que se afirma ainda mais tenebroso e difícil que o de 2011. O ambiente político também se prepara para a época, e os sinais vêm de todos os lados. Paulo Portas, no discurso parlamentar aquando da discussão e aprovação do orçamento para 2013, deu a ideia daquilo que poderemos esperar: mal seja promulgada a lei do orçamento, o governo terá todas as condições para cair. As vozes que se vão ouvindo a favor de uma convergência entre CDS, PSD e PS, compondo a preparação para a renegociação do memorando já com outro governo, com a unanimidade das opiniões a pressionarem Cavaco Silva para um governo tripartidário.


 


O problema são os atores políticos, como disse Maria de Lurdes Rodrigues. A começar pelo Presidente, passando pelos líderes do PSD, do CDS e do PS. O luto a envergar deve ser por este governo, por esta oposição e por este Presidente. Angela Merkel defende os interesses alemães mas em Portugal não sse defendem os interesses portuueses. E a Europa não existe enquanto um agrupamento de países que se interligam e defendem um interesse comum.


 


O Natal aí está. Para Belém convergem as esperanças de muitos crentes. Feliz ou infelizmente, conto-me entre os incréus.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...