Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
16 setembro 2012
Vivemos em democracia
Não estava em Portugal a 1 de Maio de 1974, portanto não posso fazer comparações entre o número de manifestantes dessa época e o de ontem. Nem percebo muito bem a comparação. Porque mesmo que tenha sido menor, a quantidade de pessoas nas de ontem foi gigantesca. Considero, no entanto, que as semelhanças acabam mesmo aí.
As manifestações do 1º de Maio de 1974 aconteceram após quatro décadas de um regime ditatorial, num Portugal liberto que reencontrava a capacidade de se expressar sem medo. As manifestações de 15 de Setembro de 2012 foram um grito de revolta e uma demonstração do desespero de um país que se vê no meio de uma crise que não acaba, governado por uma coligação que não o mobiliza, que não lhe dá esperança, que reaviva o que há de mais conservador na ideia do estado, que substitui, como dizia Maria de Belém, o primado do direito e do contrato social pelo primado da economia.
Mas Portugal vive em liberdade e é uma democracia pluralista. Há uma Constituição e um Tribunal Constitucional, há uma Assembleia da República para a qual o povo elegeu representantes, há um governo legítimo e um Presidente da República. Até agora, as Instituições democráticas têm funcionado. Mesmo que não concorde com o governo, mesmo que não tenha votado neste Presidente, nada no meu país pode ser comparável com o que existia antes do 25 de Abril, portanto nada pode ser comparável ao que representou, para os que então se manifestaram, a possibilidade de o fazerem.
Não sei se o dia de ontem foi histórico. Parece-me muito cedo para se saber o que fica ou não na História. Também as manifestações dos professores, na altura de Maria de Lurdes Rodrigues eram históricas, tal como a da geração à rasca. Foi seguramente um dia em que milhares de pessoas saíram à rua para gritarem contra a troika, o governo, a austeridade. Não devemos, no entanto, confundir o direito de manifestação e o desejo de mudança com o desencadear da queda de um qualquer governo.
A comunicação de Paulo Portas, a entrevista de António José Seguro e a declaração de Jorge Moreira da Silva demonstram que ainda não é desta que o governo cai. E não cairá tão cedo porque não há oposição. Não devemos confundir as manifestações, por grandes que sejam, com a vontade expressa do povo. É através de eleições que se renovam os governos. E para isso são necessárias alternativas. A este, infelizmente, ainda não há.
Um dia como os outros (119)
(...) Há ocasiões em que a intermediação política às vontades de um poder exterior acaba por se revelar um logro em que só o próprio acredita. (...)
15 setembro 2012
Ambivalência
Olho para as imagens das várias manifestações com um misto de emoções. Por um lado a satisfação de ver que tanta gente se mobilizou. Por outro a certeza do meu divórcio com a repetição destas palavras de ordem, com a mescla de razões e motivações, com o apelo ao que de mais primário nós temos, com o uso e abuso do conceito de sociedade civil. Comovem-me as histórias que ouço, revolta-me a estupidez e a crueldade da política deste governo. Mas lembro-me muito bem das últimas eleições legislativas em que o povo, livremente, deu a maioria a esta coligação. E se fosse chamado a votar agora, muito provavelmente o resultado seria semelhante.
Não tenho a ilusão da mudança do governo. Tenho é esperança que tenha algum respeito pela que pode acontecer - a resistência passiva, a pequena fuga diária aos impostos, o aumento do desespero que leva aos desacatos e à violência primária a que temos assistido ultimamente, a desistência total que quebre os ânimos, o afundamento da economia e o aumento da recessão.
O Presidente resolveu dar um sinal ao convocar o Conselho de Estado. Perante a gravidade da situação aguardo uma centelha de bom senso por parte de Passos Coelho. E espero que o Presidente nos surpreenda e assuma as suas responsabilidades. A troika não pode ser a desculpa do descalabro a que assistimos.
Os partidos políticos são os veículos para a representação dos cidadãos. Diabolizar os políticos, os militantes e o regime pluripartidário é perigoso. As acusações populistas de gatunos que se ouvem e se usam como bandeiras, as manifestações agora conhecidas como inorgânicas, tão aplaudidas por responsáveis políticos, jornalistas e anónimos cidadãos, não são mais puras do que as convocadas por partidos ou por centrais sindicais e não são alternativas aos partidos. Até hoje, e apesar de todos os seus defeitos, este é o melhor regime, com assembleias constituídos por deputados eleitos, com formação de governos por gente que venha dos partidos, ou das empresas, ou das academias, ou dos sindicatos.
Olho para o dia de hoje com um misto de pena por ter perdido a capacidade de acreditar que esta revolta signifique mudança.
Outras vias
Ouvi Nuno Ramos de Almeida explicar à SIC notícias o percurso da manifestação, que passaria em frente à sede do FMI para protestar contra a troika e o memorando. Que era uma manifestação em consonância com outras noutros locais da Europa e que era preciso mudar de políticas.
A minha manifestação é contra o governo, não é contra a troika, nem contra o memorando, nem a favor de um internacionalismo manifestante, por muito interessante que seja. Não vou engrossar uma manifestação com objectivos que não subscrevo, por muito que me apeteça manifestar-me. Esta não é a minha manifestação. E não aceito apenas duas vias: ou se está connosco ou se pertence à reacção. Eu ainda acredito em terceiras, quartas, enésimas alternativas.
13 setembro 2012
Das reticências crescentes
Não é contra a troika que me manifesto mas contra o governo. Não me revejo nas palavras demagógicas do BE e desconfio das suas motivações. Não concordo com as irrelevâncias das indignações do PCP, idênticas a todas as indignações contra todos os governos desde 1975.
Mas não posso acomodar-me no desconforto que me causam estas companhias, não posso assustar-me com as inaceitáveis atitudes de arremessos de ovos, tomates, pedras ou seja o que for aos governantes, nem com a hipocrisia e a encenação das manifestações caçadoras de ministros, não posso esperar que todos sejam iguais e tenham exactamente os mesmos sentimentos que eu, todos os sentimentos.
Não poderei alhear-me da revolta que tenho e que temos. Com todas as reticências do mundo, cada vez estou mais reticente em ficar em casa no próximo sábado.
Tudo exactamente na mesma
Resumindo:
- O Presidente da República não vai fazer nada.
- António José Seguro salvou a face, mas nada me convence que ele não conhecia as medidas anunciadas.
- Ou Passos Coelho está a mentir ou Paulo Portas está completamente entalado.
- Vai ficar tudo na mesma.
Resta aos Deputados assumirem a sua responsabilidade. É preciso que o Tribunal Constitucional tenha oportunidade de se pronunciar, instado pelo Presidente ou pelos Deputados.
Não é possível que estejamos reduzidos a um Primeiro-ministro que se lamenta pelo facebook, a um Ministro que se exila no Brasil e se permite enviar recados para Portugal, a um Ministro das Finanças que é o único a ver a luz. Em democracia tem que haver alternativas.
Continuo à espera que este governo se desmorone. Talvez espere um milagre.
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