07 abril 2012

Instabilidade política

 



 


É muito importante que o PS, como partido de esquerda e garante de uma forma humanista de olhar para a sociedade, dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, obreiro da tolerância e do respeito democráticos, defensor da modernidade e do bem-estar social, se prepare para ser chamado a governar, de novo, em circunstâncias de grande revolta social e penúria económica.


 


A subida desta maioria ao poder foi resultado, para além de vários erros do governo anterior, como é óbvio, de campanhas de manipulação informativa, de coligações de interesses que se vai mostrando, à medida que se percebem as falsidades de que o governo se serve para impor o seu modelo económico e social. À medida que o tempo passa vão-se desvendando as consequências da política seguida. Se, tal como tantos tinham avisado e como, parece que já o Primeiro-ministro reconhece, o além do memorando não resultar, será muito provável que a agitação e a instabilidade, frutos do desemprego, pobreza e falta de perspectivas de futuro, provoquem a rotura da coligação governamental e a necessidade de novas eleições.


 


É indispensável que o PS se defina como alternativa, explique o que faria diferente, mesmo respeitando os acordos com os credores, o que reivindicariam e qual a capacidade para conseguir mudar, nacional e internacionalmente, esta Europa imperial.


 

Da poesia (edição) doméstica (pela metade)

 



 


Talvez porque só editoras quase domésticas se arriscaram a publicar o que escrevo, penso que o motivo da grande dificuldade dos novos (desconhecidos) autores passarem da clandestinidade não se prende apenas com a dificuldade de distribuição e exposição. Na verdade o mundo dos livros e da literatura é hermético e avesso às novidades. Aos autores que vão aparecendo é-lhes praticamente vedado o acesso à crítica e à discussão da sua escrita.


 


Sejam eles a autores consagrados, a estudiosos, académicos ou jornalistas, em blogues individuais, colectivos, dedicados à literatura ou generalistas, os pedidos à apreciação de obras a editar ou a solicitação para participar em tertúlias, colóquios, entrevistas ou outras formas de divulgação crítica das obras, autores ou projectos editoriais, são, na quase totalidade das vezes, pura e simplesmente ignorados.


 


É claro que há críticas incompreensíveis e livros que fariam melhor em reservar-se à intimidade dos pequenos núcleos sociais onde cada um de nós se insere. Por outro lado também há opiniões que será melhor ignorar, de tão descabidas, pela crueldade ou pelo exagero da lisonja. Mas os vários grupos de autores, editores, jornalistas e críticos vivem em círculos fechados, entrecruzando-se e falando para dentro, uns com os outros e uns para os outros, sem tolerância ou vontade de integrar quem não é do meio, seja pela qualidade ou pelos contactos estratégicos.


 


Serão as minhas ideias e palavras movidas pelo azedume, inveja ou despeito? Quem ler decidirá.


 

Dos limites

 



Motanka


Yulia Podolska


 


É uma questão de traçar uma linha limite. Há quem não a sinta necessária, quem nunca a tenha imaginado, quem a tenha presente em traço grosso e em relevo e quem a vá apagando, lentamente, dia a dia, até já não ser possível detetá-la. Hoje encontra-se justificação para uma mentira piedosa, amanhã defende-se uma história lendária, depois de amanhã não se distingue a realidade da ficção. A ética não é moralismo nem se exigem qualidades angelicais e férreas a quem é inteiro e vive a vida com as qualidades e os defeitos, os enganos e as vitórias, a dolorosa aprendizagem de errar e tentar acertar. Mas não se pode olhar permanentemente para o lado, transigindo naquilo que tem consequências, mesmo que mínimas ou apenas prováveis, não para o próprio mas para a comunidade.


 


A corrente populista que tentou fazer passar uma lei inconstitucional, que volta do avesso uma conquista civilizacional invertendo o ónus da prova, julgando culpado quem não é capaz de se provar como inocente, é o corolário da hipocrisia de uma classe política em que, cada vez mais, menos nos revemos. No Parlamento apena o PS votou contra a dita lei. Os nossos representantes fizeram eco da onda pseudo deontológica que varre a os valores da verdadeira justiça num retrocesso inquisitorial.


 


E no entanto todos temos conhecimento de situações pouco claras, de comportamentos reprováveis, de pequenas e grandes fraudes que, por interesse, compadrio ou corporativismo impedem os responsáveis de atuar, sendo cúmplices de situações que desmotivam, desmoralizam e impossibilitam a defesa das instituições, dos dinheiros públicos, da segurança, da tão propagandeada mas tão pouco servida causa pública.


 


A primeira e mais importante medida contra a corrupção não é perseguir pecadilhos de juventude mas sim, em cada pequena decisão que se toma, ter a obrigação e o cuidado de distinguir se o seu resultado serve ou prejudica os cidadãos. Exigir de cada um de nós, em todas as funções desempenhadas, em cada dia de trabalho, aquilo que queremos dos nossos representantes: rigor, competência, verdade e equidade. É ter presente o limite, essa linha imaginária que separa a tolerância da negligência, o erro da fraude. É saber que por muitos matizes que tenha o cinzento, há extremos de branco e de negro.


 

06 abril 2012

Stabat Mater Dolorosa


Margaret Walker & Jessica Dandy


 


Stabat mater dolorosa
juxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.


 


Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem
pertransivit gladius.


 


O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta,
mater Unigeniti!


 


Quae moerebat et dolebat,
pia Mater, dum videbat
nati poenas inclyti.


 


Quis est homo qui non fleret,
matrem Christi si videret
in tanto supplicio?


 


Quis non posset contristari
Christi Matrem contemplari
dolentem cum Filio?


 


Pro peccatis suae gentis
vidit Iesum in tormentis,
et flagellis subditum.


 


Vidit suum dulcem Natum
moriendo desolatum,
dum emisit spiritum.


 


Eia, Mater, fons amoris
me sentire vim doloris
fac, ut tecum lugeam.


 


Fac, ut ardeat cor meum
in amando Christum Deum
ut sibi complaceam.


 


Sancta Mater, istud agas,
crucifixi fige plagas
cordi meo valide.


 


Tui Nati vulnerati,
tam dignati pro me pati,
poenas mecum divide.


 


Fac me tecum pie flere,
crucifixo condolere,
donec ego vixero.


 


Juxta Crucem tecum stare,
et me tibi sociare
in planctu desidero.


 


Virgo virginum praeclara,
mihi iam non sis amara,
fac me tecum plangere.


 


Fac, ut portem Christi mortem,
passionis fac consortem,
et plagas recolere.


 


Fac me plagis vulnerari,
fac me Cruce inebriari,
et cruore Filii.


 


Flammis ne urar succensus,
per te, Virgo, sim defensus
in die iudicii.


 


Christe, cum sit hinc exire,
da per Matrem me venire
ad palmam victoriae.


 


Quando corpus morietur,
fac, ut animae donetur
paradisi gloria. Amen.


 


Jacopone da Todi - Stabat Mater Dolorosa


Calvário

 



Salvador Dali 


 


Temos uma Páscoa mais virada para sexta-feira que para domingo. Pouca a santidade e nenhuma ressurreição.


 


Esperam-nos longos meses de penúria, entristecimento e regresso à triste sina. O PS contorce-se em penitência de perdedor. Faltam ideias, faltam soluções, faltam alternativas. Esperam-nos longos meses de calvário.


 


Esta é a direita a governar. Esta é a direita que a esquerda deixa governar.


 

Paixão

 



Salvador Dali


 


Fria manhã de Primavera


no canto em que me encosto


no canto em que afundo


breves e secas sílabas partem cristais de gelo


derreto a espera em que me encontro


nesta fria paz de manto negro.


 

05 abril 2012

Avenida da Liberdade

 



 


Apetece-me muito ir desfilar para a Avenida da Liberdade este ano, no dia 25 de Abril. Não para me manifestar contra mas para me manifestar a favor da liberdade e da democracia. Apetece-me muito mostrar que não me conformo com a captura do simbolismo do dia pelos saudosos de uma noção de liberdade ditatorial que partidos como o PCP defenderam e defendem.


 


Apetece-me muito lembrar que temos o direito de nos manifestar contra ou a favor do que quer que seja, dentro dos limites da lei, repudiando os arruaceiros e provocadores que transformam manifestações em guerras campais, que temos o direito de nos manifestar em segurança e sem receio das forças policiais.


 

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...