05 outubro 2011

Balada para un loco

 







 Astor Piazzola


 


 


Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese que se yo, viste?
Salgo de casa por Arenales, lo de siempre en la calle y en mi...
Cuándo, de repente, detras de un árbol, se aparece el.
Mezcla rara de penultimo linyera
y de primer polizonte en el viaje a Venus.
Medio melón en la cabeza,
las rayas de la camisa pintadas en la piel,
dos medias suelas clavadas en los pies
y una banderita de taxi libre levantada en cada mano.
Parece que solo yo lo veo,
Porque él pasa entre la gente y los maniquíes le guiñan,
los semáforos le dan tres luces celestes
y las naranjas del frutero de la esquina
le tiran azahares.
Y así, medio bailando y medio volando,
se saca el melón, me saluda,
me regalo una banderita y me dice:


 


Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
No ves que va la luna rodando por Callao,
que un corso de astronautas y niños, con un vals,
me baila alrededor... ¡Bailá! ¡Vení! ¡Volá!


Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao...
Yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrión
y a vos te vi tan triste... ¡Vení! ¡Volá! ¡Sentí!...
el loco berretín que tengo para vos.


 


¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sábana vendré
con un poema y un trombón
a desvelarte el corazón.


 


¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Como un acróbata demente saltaré,
sobre el abismo de tu escote hasta sentir
que enloquecí tu corazón de libertad...
¡Ya vas a ver!


 


Y asi diziendo, el loco me convida
a andar en su ilusión super-sport
Y vamos a correr por las cornisas
¡con una golondrina en el motor!


De Vieytes nos aplauden: "¡Viva! ¡Viva!",
los locos que inventaron el Amor,
y un ángel y un soldado y una niña
nos dan un valsecito bailador.


Nos sale a saludar la gente linda...
Y loco, pero tuyo, ¡qué sé yo!:
provoca campanarios con su risa,
y al fin, me mira, y canta a media voz:


 


Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Trepate a esta ternura de locos que hay en mí,
ponete esta peluca de alondras, ¡y volá!
¡Volá conmigo ya! ¡Vení, volá, vení!


Quereme así, piantao, piantao, piantao...
Abrite los amores que vamos a intentar
la mágica locura total de revivir...
¡Vení, volá, vení! ¡Trai-lai-la-larará!


 


¡Viva! ¡Viva! ¡Viva!
Loca el y loca yo...
¡Locos! ¡Locos! ¡Locos!
¡Loca el y loca yo



Camisa de rã

 



 


Meias de lã


camisa de rã


sapato bicudo


sopé da manhã


olho sisudo


terra de fada


laço desfeito


aperta cintura


afia caneta


que bela figura


fundo decote


sem que se note


alva tremura


suspiro rasante


sorriso de lado


leque arejado


cala o tratante.


 


Meias de rã


sapatos de lã


deixa o cigano


cantar violino


pendura a manhã


na corda do sino.

Res publica

 



Stuart Carvalhais


 


A República - res publica ou coisa pública), seja ela entendida como um regime político, em que o chefe de Estado pode ser qualquer cidadão, desde que seja eleito por voto livre e secreto, seja ela entendida como uma forma de governo e de administração do bem comum, é um princípio de organização política que tem como valores basais a igualdade entre os cidadãos e a responsabilização deles mesmos perante si e perante todos, assim como a ética da obediência à Lei e a obrigatoriedade de prestar contas pelos bens à sua guarda.


 


Nestes 101 anos de comemoração da implantação do regime político, olhamos para estas ideias básicas e estranhamos a distância a que delas nos encontramos.


 


O primado da igualdade, em que as diferenças entre os cidadãos se medem pelo que têm, pelo que auferem ao fim do mês, pelo poder directo ou indirecto, exercido de formas muitas vezes pouco lícitas, pela eternização de privilégios e garantias de justiça para poucos, a maior abertura da sociedade ao racismo e à xenofobia, o subverter da noção do que é bem próprio e bem comum.


 


O primado da responsabilidade, em que a sensação e a postura cultural aceita quase sem discussão uma administração de justiça diferente, relacionada com o poder de cada cidadão, a negligência assumida do que é o prestar de contas, política ou criminalmente falando.


 


O primado da liberdade e da democracia, cujos princípios fundamentais se fundem com os do próprio regime republicano, em que o acesso à informação está condicionado pelos vários poderes.


 


Em 100 anos a sociedade modificou-se radicalmente, o avanço tecnológico é imenso, houve guerras mundiais e locais, fome miséria, prosperidade, ditaduras impuseram-se e caíram, as condições de vida melhoraram abissalmente, pelo menos para a pequena parte do mundo em que nos encontramos. Mas 100 anos não são suficientes para mudar os instintos e as compulsões humanas.


 


E por isso mesmo, apesar da nossa sociedade ocidental ter instrumentos, capacidades e condições cada vez melhores, ciência e investigação, arte e engenho ao serviço dos povos, ainda precisamos de nos lembrar do significado, do conceito mas, predominantemente, falta-nos a todos a prática desse significado e desse conceito.


 

02 outubro 2011

Pim pam pum

 



Jerome Myers


 


Pim pam pum


cada dedo cada mão


sem a casa e sem botão


abre fogo mata tia


entre o jogo da magia


 


pim pam pum


sempre tosco sempre nu


assa lento come cru


entre as migas do almoço


água fria só no poço


 


pim pam pum


já me sobra a cabeça


já me falta a travessa


ponta e liga ponto e nó


que me falta a minha avó.

Serenade Melancolique, Op. 26


Tchaikovsky & Itzhak Perlman

O regresso de George

 



 


Ontem apanhei a meio, num canal qualquer, o filme O Regresso de Henry (Regarding Henry). A hipótese de alguém reconstituir a sua vida a partir do nada, ser outro totalmente diferente do que foi, é algo que a nossa sociedade, hipocritamente, associa à reabilitação individual, com a forma como se entende e afirma, em termos de direito penal, o objectivo da clausura nas prisões (nos países que não aceitam a pena de morte), mas que, na realidade, é cada vez mais impossível de se conseguir.


 


Como se demonstra pelo caso do assassino e terrorista, condenado a 30 anos de cadeia, que se conseguiu evadir e estabelecer-se num outro país (o nosso), com outra identidade, assumindo uma pessoa totalmente diferente da que tinha sido, vivendo uma vida plana, igual à de tantos outros, exemplares cidadãos ou cidadãs.


 


Será que, tal como a Henry, não terá aproveitado a oportunidade que a sorte (?) / destino (?) lhe deu para mudar de alma. Será que é mesmo possível mudar de alma, tornar-se invisível, virar-se do avesso, perdoar-se a si próprio, se é que alguma coisa envolve o sentido do perdão e da penitência?


 


A nossa moderna sociedade tecnológica, com cruzamento de dados , satélites, GPSs e globalização internáutica, transforma-nos num colectivo ditatorial em que o indivíduo e o livre arbítrio têm uma presença cada vez mais efémera.


 


Do feminismo brando

 



 Cassandra Austen: Jane Austen


 


Apesar de serem romances de uma escritora do século XVIII/XIX (Jane Austen), Sensibilidade e Bom Senso (Sense and Sensibility) e Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) são novelas que, ainda hoje, excitam a imaginação de milhares de leitores por todo o mundo, com várias reedições e estudos críticos, adaptações cinematográficas e séries televisivas.


Estando eu no meio dos admiradores destas duas novelas, pergunto-me muitas vezes as razões de tamanho êxito, idêntico ao que se verifica também com um livro como Mulherzinhas (Little Women – de Louisa May Alcott, século XIX).


Para além de serem histórias passadas dentro das famílias, com retratos sociais e reflexões éticas e culturais, no sentido da caracterização de certas classes e de certos ambientes rurais, apoiando-se em enredos que podem ser olhados como teias ou redes de relações, projectam personagens femininas fortes e emancipadas, dentro do que era possível e aceite.


Em Orgulho e Preconceito, a autora criou Elizabeth Bennet, uma de cinco filhas de um casal de proprietários rurais. Enquanto a maior preocupação da mãe era casar a sua prole salvaguardando-a da miséria, debatendo-se com os fracos dotes para encontrar maridos que pudessem prover ao seu sustento, Elizabeth Bennet tem uma postura de literata e de independência face a algumas das convenções da época, preocupando-se mais com o seu espírito indomável que com o futuro, mostrando até gosto pelo desafio da arrogância e da férrea estrutura classista.


Também em Sensibilidade e Bom Senso a dependência económica das mulheres é o pano de fundo da história. Nesta enquadram-se as vontades de duas personalidades diferentes - as irmãs Elinor e Marianne, de duas maturidades distintas, mas sempre com a preocupação de personagens femininas com pensamento próprio e necessidade de afirmação de independência, exercendo escolhas e tomando posições bem definidas.


O terceiro exemplo centra-se numa ética religiosa, de comportamentos estritos e bem controlados, com uma personagem central - Jo March - que afirma os valores da educação, do pensamento autónomo, da crítica e da independência, apenas aceitando a submissão ao amor, aqui já quase omnipresente.


Não sei se é o transporte para um mundo mítico que gostaríamos de ter conhecido, se a moralidade e a certeza do triunfo dos justos, se a existência de heroínas brandas mas firmes, que nos fazem manter o interesse por estas histórias, ou tão somente a melancolia de algo que nunca fomos nem nunca seremos.


 



 Luisa May Alcott

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...